ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Cansado, exaurido de ser estrela sob os raios luminosos e incandescentes do sol, enveredei pelo frescor da noite, cuja ideia é tomar conhecimento e ver de olhos abertos, o que o negrume soturno noturno tem a mostrar-me

O que o menestrel Almir Sater tem em comum com Guimarães Rosa?

Está cada vez mais raro, agulha no palheiro, mas às vezes nesse imenso oásis cultural, chamado Brasil, bateia-se, garimpa-se, reluz uma pepita de ouro, cujo valor imensurável, cuja revelação do inusitado, faz com que outros brasileiros de mesmos ideais e pensamentos revelem-se, orgulhem-se em dizer que esse é o verdadeiro Brasil, em propagar mund'afora que esse é o Brasil, dentro de os vários Brasis, pertencente unicamente, à quem é de raíz, identidade, chão, cores e bandeira; e não apenas de nacionalidade brasileira no passaporte! O leitor irá conhecer as joias, ideias, ideais e os projetos fomentados e aplicados na prática por um deles.


Contextualização: Não é sempre, não é em toda década que brota do solo Brasilis, um brasileiro genuinamente filho da pátria, com visão de águia voltada para as suas raízes, que se sensibilize, orgulhe, admire e invista em seu povo; que enriquece o vocabulário, a cultura regional e brasileira, como fez e faz o violeiro, seresteiro, compositor e cantor, Almir Sater. Esse Senhor Mato-grossense de fina elegância no trato com as coisas de sua terra, pode ser comparado a flor-de-lótus, cuja bela flor, enobrece o alagado do pântano.

comitiva.jpgA música do menestrel Almir, é a arte de manifestar os diversos afetos da alma mediante o som das notas, letras, acordes e arranjos; sobre as quais, impera harmonia. Almir é harmonia musical completa; e isso lhe basta? Não, certamente, não; e o leitor saberá o porquê.

Maviosidade: ao redor da fogueira crepitando em chamas, as violas seresteiras de Almir e amigos, rasgam a noite, apertando ou aliviando corações desejosos e saudosos de relva molhada, estrume esfarelado salpicado em jardins floridos e hortas viçosas, carros de bois grunhindo em ladeiras de tímidos chão batido. Nuvens silentes. Mentes compenetradas. Céu estrelado. Luar quimérico em noite etérea, obra-prima de um Deus, embevecido!

Almir já havia presenciado muitos pores-do-sol, sido acompanhado de perto pela sua sombra, feito serenatas para luas vagas; desafiado o rugido de onças; dormido sobre a cauda de jacarés; atravessado estreitos igapós de canoa; embalado pelo crepitar da lenha ardendo em chamas, ouvido muitos casos de mula sem cabeça; embebedado seu imaginário nas fantasias de homens simples, os quais o toco de cigarro no canto boca é a centelha luminosa da esperança; aprendido o gorjeio dos pássaros e viajado no trem da morte até Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. Contudo, o "caboclo" ainda possuía os fios de cabelos pretos na cabeça, o amor pelas coisas de sua terra no coração e a esperança da reconquista; portanto, sob os mandos da renovação sem porteiras teria que continuar correndo o trecho à procura de esquecidos oásis.

Sobretudo, o pantanal tinha muito mais o que ser visto por olhos perspicazes. E num dia qualquer, daqueles de lua cheia azulando as águas mansas dos lagos; e os raios solares dormindo serenos sobre a placidez do banhado; ou daqueles de céu alvejado pelas estrelas; ou de chuva torrencial que lavam os pecados das almas penadas, Almir pegou a viola, botou na sacola e com espírito de desbravador, rumou para mais uma viagem aventurosa pelas terras que alternam abundantes inundações em certas épocas do ano e vorazes secas em outras. Assim feito, restava apenas hastear a bandeira da Comitiva Esperança pelos recônditos do Pantanal Matogrossense.

Almir e a Comitiva rumaram com a Esperança de encontrar estradas velhas que servissem de novos desvios, por quais o comboio de animais, às vezes harmonioso, às vezes atropelado, pudesse pisotear. Contudo, o inverso da mesma conquista dispõe que os desvios podem encurtar, diminuir o tempo vida, tanto do vaqueiro, quanto da boiada; então, conhecer o pântano onde pisa e a forrageira como alimento para o gado, é preciso. Às vezes ou sempre, as teorias não bastam e meter os pés na lama, é a solucão; o que a Comitiva fez ludicamente!

Enquanto os dicionários estampam o significado da palavra companheirismo, na vida real, Almir materializa-o. E como músico, ele sabe como ninguém que o concerto não acontecerá conforme proposto, se não estiver acompanhado por uma orquestra afinada, rítmica, bem ensaiada e amigável. Pensando assim, em 1983, ele, o violonista Paulo Simões e o rabequeiro Zé Gomes, firmaram parceria para levar a plasticidade musical, a simplicidade que lhes são peculiar e o contentamento da prosa, para os amigos pantaneiros que viviam socados nos cafundós; bem como, ouvir deles as (hi ou es)tórias daqueles arrebaldes inóspitos, os quais poucos homens arriscam morar. Se para Euclides da Cunha "o sertanejo é antes de tudo um forte", para Almir, o pantaneiro é acima das expectativas um homem valente, arrojado e destemido; não por ser rústico e bronco, mas por saber lidar com a boiada, dominar miríade de cabeça de gado nas longas travessias.

E para conseguir êxito e evitar o estouro da boiada, a música raiz está para o matuto da grota, como o aboiar está para o recato da boiada; e ao ouvir o som agudo do berrante, a manada estaca em sinal de respeito e obediência. Quem nasce e luta bravamente a vida toda pelos mesmos ideais, sabe de cor e salteado as cores e texturas das pedras, bem como conhece as intimidades, os mistérios e os pormenores da entranha que o pariu. E o mais admirável: não nega a sua família, nunca!

Esse tipo de aventura e desvende do desconhecido pela população urbana, além de resgatar os costumes do camponês, os hábitos e a fala do matuto, tem por finalidade também retratar a imensa riqueza cultural e a sabedoria popular. E não só isto, visa manter e valorizar as tradições de cada povo "pesquisado". Dando a devida importância ao trabalho de quem se propõe à tarefa de tatear o insólito, desbravar o "perigo" e mapear o inóspito, a experiência traz à tona o prazer de dever cumprido e soberba contribuição para o sentimento de brasilidade. Aliás, em 2010, o fotógrafo Sebastião Salgado declarou à revista "Serafina", que "Nós (brasileiros) abandonamos nossa ligação com o campo, com a natureza (...)".

No século passado Rousseau deu seu parecer sobre a frágil necessidade do homem em relação aos elementos a Natureza: "os homens no estado natural são livres e iguais e não possuem propriedade; cada um contenta-se com as dádivas da Natureza [...]”

O que não é realidade para nós brasileiros, principalmente, depois da evasão ruralista que ocorreu em meados de 1960 em diante. A desnacionalização agravou-se ainda mais em meados do século passado com a invasão americana, que passou a "dominar" a moda, o cinema, a arte e injetou o combustível fóssil no país, dentre outros. De todos os segmentos artísticos, a música foi o que menos se rendeu ao americanismo; afinal, a M.P.B e a música sertaneja de raiz (detesto rótulo desarticulador de originalidade e indutor ao erro) era extremamente potencializada. Como toda insatisfação e resistência se compra, o movimento cultural-musical foi quase que totalmente "alugado pela dolarização". E o sucateamento da cultura regional, americanismos, inglesismos e muitos outras terminologias com "ismo" se esparramou vertiginosamente, virou epidemia por todos os condados do país.

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Com as tralhas e a matalotagem devida encaixotada, os três amigos saíram para mais um passeio estranho e inusitado. Todavia, se classificado pelos poetas, fariam uma viagem para dar voz a mundos simples, inocentes e mudos; cuja travessia seria feita sobre lombos de animais, na proa de embarcações e no abrir o compasso das pernas nas longas caminhadas. Durante os três meses de vida livre em meio às maravilhas pantanenses, os três amigos espiaram várias espécies de animais, arrancharam-se debaixo de imensos sombreiros de árvores centenárias, dormiram ao relento vigiados de perto por famintas onças e outros animais ferozes.

Nos mais de 1000 quilômetros de pura aventura e êxtase, ouviram relatos de pantaneiros, os quais os seres superiores do planeta tem o direito de duvidar, mas os comuns da Terra, jamais; e numa roda fumegante pelas línguas de fogo que cuspiam incontidas verdades, os três se arrepiaram ao ouvir de um matuto, que jurou de pés juntos, que já esteve bem próximo da Lua. Verdade ou devaneio de caipira, o pantanense confidenciou-lhes categoricamente que, mais ou menos aos sete anos de idade, um bando de sujeitos lunáticos, pequenos e luminosos desceu de uma nave volteante e o raptou. Pêgo pelo braço, foi jogado dentro da máquina luzidia. A nave alçou voo, passou por lugares estranhos, crateras esquisitas, até que por fim, chegaram próximo ao satélite natural da Terra, que é a Lua.

A Comitiva ouvia atentamente e lembrando Shakespeare que fez questão de salientar que "existem mais coisas entre a Terra e o céu, que sua vã consciência imagina", um sovelava o outro, sem que o sertanejo visse. Afinal, fatalmente o contador do causo nunca ouvira falar sobre o dramaturgo, mas naquele momento seu intelectualismo e sapiência eram mais verdadeiros e convincentes que o conhecimento dos três amigos juntos; provando que em terreiro estranho e distante, qualquer pinto detém o poder, manda, ordena, enquanto que os galos índios ajuizados, além de apequenarem-se, acatam os mandos.

atriz.jpgÀ época, Juma Marruá - Cristiana Oliveira - desafiou o puritanismo das não defloradas ao apresentar parte da nudez feminina, que de tempos para cá tem sido produto exportação brasileiro, pela primeira vez em uma novela nacional. As imagens expondo a sensualidade da atriz, as exuberâncias do pantanal, os cenários e a trama garantiram sucesso absoluto de audiência da novela; que na época, simplesmente revolucionou os costumes e hábitos, tanto femininos, quanto culturais!

Em 1984, o cineasta Zuza Homem de Mello, juntamente com o mentor do projeto produziram o documentário "Comitiva Esperança". Em 1990 a extinta Rede Manchete de Televisão exibiu "Pantanal", uma das novelas de maior audiência no país e exterior. Escrita pelo polivalente novelista Benedito Ruy Barbosa, em parte a trama se passa nos recantos do pantanal. E como tal, retrata os costumes, as vivências e o misticismo presente no cotidiano dos pantaneiros. Inicia-se, então, com José Leôncio - personagem interpretado por Cláudio Marzo - e seu pai saindo para caçar Marruás, um espécie de boi selvagem que circulava livremente pelas florestas da entorno de onde residiam. Um dado dia, Zé Leôncio viajou com os peões em comitiva e recomendou ao seu pai que não fosse caçar o bicho selvagem sozinho; entretanto, o teimoso Joventino - também interpretado por Cláudio e outro ator - não acatou o pedido do filho e saiu para caçar o bicho danado, porém, embarafustou mesmo foi com o infortúnio, culminando com o sumiço do velho Joventino no imenso deserto aquático pantaneiro.

Embora não tenha nenhum registro que ateste o descrito a seguir, imagina-se que parte da trama da novela Pantanal tenha sido inspirada no projeto "Comitiva Esperança", réplica de vida e trabalho dos pantaneiros. As participações de Almir, Sérgio Reis e Renato Teixeira fazendo o papel de estradeiros, contadores de casos ao redor de fogueiras, preparando o arroz de carreteiro debaixo dos sombreiros, trovando as coisas da Natureza para aboiar a manada de rezes e gritando a independência e liberdade do pantanal, dão evidências da catarse proposta pelo enredo da novela.

Em contrapartida, de maneira indireta e lúdica, a Comitiva já dava sinais da devastação do bioma pantanense, o qual enormes áreas foram desmatadas, unicamente para o plantio de forrageiras para alimentar gado e soja. Inapelavelmente, desde a passagem da Comitiva, foram registrados mais de 700 quilômetros quadrados de desmatamento. Fora os problemas ambientais mais comuns, o desmatamento causa sérios danos à cadeia trófica.

P.S.: Excetuando as muitas e corriqueiras atividades, atualmente Almir preside o Grupo de Incentivo à Cidadania e Qualidade de Vida - Viver Bem. Inaugurado em 1998, além da relevante contribuição social, o projeto assiste mais de 150 alunos e mães em um espaço de aproximadamente 350 m². Orientado pelos voluntários e professores, as crianças tem aulas de balé clássico, jazz, informática, inglês, ginástica, bordado, organização doméstica, engenharia de alimentos, maquiagem, Kung Fu e bordado em máquina.

Completa o desenvolvimento de cultura e apoio à cidadania promovidos pela O.N.G, uma biblioteca com inúmeros títulos disponíveis para leitura e pesquisa. Nos espetáculos, as crianças cantam a música Comitiva Esperança, composição de Almir e Paulo Simões.

Almir Sater, tal qual o aventureiro mineiro, Guimarães Rosa, é um matogrossense pantaneiro que fez; e por ser brasileiro, permanece percorrendo trilhas, tangendo boiada, desbravando alamedas, soprando berrante, descobrindo veredas em grandes sertões, em detrimento e enlevo da Pátria amada, Brasil! E obviamente, esses poucos iluminados de ideias e ideais, são motivos de orgulho e inspiração para quem assina com corpo, atos e alma, embaixo da nacionalidade brasileira.

Fotos livres retiradas do Google imagens


Profeta do Arauto

Cansado, exaurido de ser estrela sob os raios luminosos e incandescentes do sol, enveredei pelo frescor da noite, cuja ideia é tomar conhecimento e ver de olhos abertos, o que o negrume soturno noturno tem a mostrar-me.
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