ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Cronologicamente, didaticamente, antropofagicamente, funciona assim: as palavras que saem da ponta de minha pena sem pena, não são escritas; e se escritas, não são exercitadas

Brasil é o patrício distante de Portugal

Transcrevendo Cândido Portinari: "nós somos como mourões de cerca: só ficamos em pé porque estamos ligados uns aos outros". Desculpe-me Portinari, permita-me pegar carona em seu empático pensamento, cuja ideia é completá-lo com a indagação: "somos ligados por fios de arame, ou pelas águas dos mares?" Ao longo da leitura saberemos o porquê da completude. Agradeço imensamente Cândido!


"Se essa rua, se essa rua fosse minha / eu mandava, eu mandava ladrilhar / com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes/ para o meu, para o meu amor passar". - cantiga de ciranda de roda, estilo musical brasileiro herdado dos portugueses e espanhóis.

Imagen Thumbnail para 20180823_095545.jpgParaty Mirim: primeiro porto do país. Aqui finalizava a etapa inicial feita sobre o lombo de muares e prosseguia o saqueamento em ouro, prata, diamante. Deixando os brasileiros, literalmente a ver navios, as embarcações afanadoras de riquezas minerais acenavam o adeus derradeiro e rumavam para o continente Europeu.

Ler João Saramago, Fernando Pessoa e outros escritores portugueses, cruzar o Atlântico voando nas asas do pássaro de prata e conhecer o outro lado do velho mundo é preciso, navegar mares revoltosos não é preciso! E abaixo o ensaio à cegueira existente no provincianismo brasileiro de conhecer Disney, Miami e outras, sem antes conhecer a sua procedência e raiz. Acima de tudo, árvore nenhuma ramifica em muitos galhos e densas folhagens formando ampla copa, sem ser sustentada pelos troncos alimentados pela seiva das muitas raízes que esparramam solo adentro em busca de água para irrigar-se. E se navegar não é preciso, transportar-se no tempo, cuja finalidade é conhecer as raízes e costumes que, em partes, sustenta o patrício distante, é preciso!

Difícil entender como os portugueses com poucos recursos técnicos de navegação para a época, superou tormentas, dilúvios e procelas na imensidão de águas dos mais de 6 mil quilômetros do oceano Atlântico, vindo pelo erro, descobrir as raízes do Pau Brasil na América do Sul, exatamente no território que hoje chamamos de Brasil. E ainda que o brasileiro seja um notável provinciano arraigado ao seu torrão de terra, certamente, em sua cidade, ou em seu lar, tem uma herança dos nossos patrícios distantes.

Uma vez que os portugueses perambularam pelo país de Norte à Sul, Leste à Oeste, as reminiscências culturais deixadas por eles estão presentes nos azulejos cerâmicos pintados nas fachadas das casas, nas igrejas estilo colonial, nos casarios de portas e janelas coloridas abrindo para as ruas estreitas calçadas com pedras, nos costumes que resistem às adversidades do tempo; e claro, na culinária.

20180417_053733.jpgViva a vida / Rimam remos nas águas gondoleiro / Pé de amor(a) enamorados / Copas de árvores é o sombreiro / Verectidos das aves em Aveiros / Aportuguesar é preciso!

Falando em culinária, está servindo comer uma tenra posta de bacalhau à portuguesa, temperado com azeite das melhores e seletas azeitonas, batatas gratinadas, pimentão vermelho ou amarelo e demais temperos a gosto? Temos também sardinha grelhada, acompanhada de arroz à grega e salada de palmito nobre ao mais puro azeite português, azeitonas graúdas pretas, com aspargos, champions e nacos de queijo. Ambos os pratos é acompanhado de um bom vinho tinto seco. Deu água na boca, sim? Entendo, mas deixo de divagações à culinária portuguesa e volto à escrita, pois acima de tudo, ler o que o Profeta do Arauto escreve é preciso, imaginar e sonhar não é preciso! Sobretudo, sonho sonhado e não realizado, é noite de sono perdida e sonho inutilizado.

Em tempo, enquanto a sede de conquista e realização prolongam por tempos indeterminados, a ilusão assassina, cria a zona de conforto, acelera a indolência, incita a aposentadoria, mata o homem precocemente.

Bem, chato dizer que por não estarmos em Portugal, voltemos à nostálgica cultura portuguesa no Brasil, para dizer que a música não apreciada pelas rádios comerciais do país, os portugueses estão representados pelo originalíssimo fado de Roberto Leal, Amália Rodrigues; e mais recentemente, na voz angelical de Dulce Pontes, líder da banda Madre Deus, etc. Aliás, Madre Deus fez parte da trilha sonora da novela "O Clone" da Rede Globo. Portanto, esparramado pelos diversos estados brasileiros, Portugal permanece vívido na cultura arquitetônica e artística do país. E a cultura portuguesa no Brasil não para por aqui.

Sim, claro que as raízes de nossos patrícios não resumem somente ao descrito no parágrafo acima, e se por um lado os portugueses nos legou muita coisa, exemplarmente significativa e digna de elogios, por outro, não podemos deixar de mencionar que também herdamos o péssimo hábito da corrupção; a qual, corrupto e corruptor brasileiro digladiam para levar vantagem, barganhar o "quem puder chora menos, ou sorri mais", ao beneficiar uma das partes. Pensou em negócios envolvendo cifras, não há meios termos: a balança pende para um, ou outro lado; e nada de nivelamento. Ademais, nossos patrícios nos legou a cultura da unilateralidade do se dar bem em tudo; como Gérson, canhota de ouro, ao dizer "eu gosto de levar vantagem em tudo"! Aliás, o que é rigor na relação humana desde os tempos mais remotos; afinal, tudo resume-se em cultura instituída e nacionalizada pelo povo.

Se no Brasil houve mudanças bruscas em todos os segmentos sociais no decorrer da chegada de nossos patrícios até a atualidade, Portugal parou no tempo. Às vezes é muito válido parar a nave, loucamente tecnológica que governa o mundo e apurar os sentidos dos olhos para os pequenos e invisíveis detalhes, bem como aguçar os ouvidos para o martelar dos badalos dos sinos no campanário da igreja, convidando idosos e crianças para alimentar pombos e contar andorinhas reunidas nos fios, esperando pela hora do ângelus. Serenidade essa que permeia a praça da cidadela chamada Elvas, em um parcimonioso, simples e plácido fim de tarde de domingo. Esse é o cartão de visita e o prefácio de um Portugal parecido com uma estátua resistente feito diamante caída da mudança e esquecida à intempérie, em pleno continente Europeu.

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Saindo de Elvas, divisa com a Espanha e abrindo o compasso das pernas, atinge-se a cidade de Braga, extremo divisado com outro pedaço de terra da Península Ibérica; o qual, no lado oposto, a primeira cidade espanhola, é a mística Santiago de Compostela, muito procurada pelos peregrinos. Mas como o que nos interessa é Portugal, desceremos até a cidade de Porto, banhada pelo mar. É de se pensar que era em algum lugar por ali que o ouro, a prata, as pedras preciosas e diamantes que embarcavam em Paraty Mirim, atual Paraty, Rio de Janeiro, aportavam.

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Guardadas as comparações, dentre todas, Porto parece ser a cidade mais renovada do contexto histórico português. E lá, ao cair da tarde, um mundaréu de turistas e patrícios portugueses reúnem-se em pontos privilegiados para observar os mornos e cálidos raios de sol esparramar sua cor dourada sobre as águas de um rio calmo, margeado em ambos os lados por casarios de portas e janelas multicoloridas. Para acompanhar o indizível espetáculo de fim de tarde, os bares e pubs abrem as portas para o happy hour dos boêmios noturnos. Após a terceira, ou mais doses de vinho do Porto, não há um só cristão de carnes e ossos que não se torne um Fernando Pessoa e poetize pétalas de rosas em prosas; sonetos inversos, rimas e estrofes, em versos. Basta o semblante da tarde aparecer, para os artesãos, pintores e poetas, no bico do pincel e na ponta da pena, gravuras, telas e poesias, tecer. Porto é uma cidade, cosmopolitanamente, cultural. Sobre cultura, vejamos o que disse Fernando em Pessoa:

"O certo é que, entre um operário e um macaco, a menos diferença que entre o mesmo operário e um homem culto".

20180416_152850.jpgO artista de rua em seu atelier a céu aberto, quando compenetrado em seus afazeres, o mundo lá fora, longínquo de tão próximo dele, parece não existir, a não ser o seu; pois acima de tudo, a emoção, o sentimento, a minuciosidade e a sensibilidade dispendidos aos pincéis, a pena, ao cinzel, à moldura, às cores, ao estilo e a folha de papel, representam a arte, que é sua introspecção e sentidos perante o mundo dos humanos comuns. Ouvindo apenas o silêncio vindo do pulsar sanguíneo nas veias e o tic-tac do relógio batendo no coração, o artista é antes de tudo, incompreendido e subestimado!

20180417_100417.jpgUma passada rápida para assinar o nome no livro de anotações do prontuário da faculdade; instituição de ensino que conta a longa e antiga história de Portugal. Poucas coisas são respeitadas e motivo de honra para os portugueses, como a faculdade de Coimbra!

Antes de chegar em Lisboa, uma parada rápida em Coimbra; cidade que abriga uma das faculdades mais antigas do mundo. Fundada em 1920, a faculdade de Coimbra está prestes a fazer um século de sólido ensino. A poesia de Fernando Pessoa agradece a presteza lusitana à educação portuguesa e mundial!

lisboa.jpgRuela servida por bonde como meio de transporte em Lisboa

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Sem grandes inovações aparentes na arquitetura urbana, a capital não nega os costumes lusitanos. Na tentativa de gerar recursos econômicos, melhoria do PIB do país e geração empregos, a cidade está passando por uma transformação restauradora dos prédios ae casarões antigos. Fora as ladeiras pedregulhosas, bondinhos correndo sobre os trilhos, um castelo perdido na região central e as águas banhado as encostas, guindastes aparecem erguendo a renovação urbanística na arquitetura histórica por toda parte da cidade. Aliás, o boom gerado pela construção civil abriu as portas para inúmeros postos de trabalhos e muitos deles, ocupados por brasileiros. Em contrapartida, especialistas das áreas patrimoniais e de turismo suspeitam que as alterações na geométrica urbana e a recuperação arquitetônica descaracterize o patrimônio histórico original de séculos de existência.

Imagen Thumbnail para 20180419_081342.jpgEstoril, cidade litorânea no entorno da grande Lisboa.

A capital de Portugal é conhecida como a cidade das "Sete Colinas", como denominam Roma. Além do que é peculiar ao país como um todo, a beleza inconfundível de Lisboa completa-se com rio Tejo que banha suas encostas. Assim como Porto, Lisboa também é referência artística; e durante o dia quanto à noite, fervilha cultura!

Guimarães é a Certidão de Nascimento de Portugal; e está evidenciado numa muralha com a inscrição: "aqui nasceu Portugal". Foi nessa cidade que nasceu àquele que mais tarde viria ser o primeiro rei, orgulho dos portugueses: D. Afonso Henriques; cidadão que comandou a conquista do território, o qual chamam de Portugal.

fátima.jpg Vista frontal da singela basílica de Nossa Senhora de Fátima, encravada na pequena e aconchegante cidadela de Fátima.

Uma das maneiras de chegar em Fátima é saindo de Leiria, cidade mais brasileira, das cidades portuguesas; e ao vagar sem destino pelas ruas, ouve-se um intermitente zunzunzum em idioma português/brasileiro.

Fátima dista, aproximadamente 30 km de Leiria; e ao fazê-los de ônibus, o turista se transportará no tempo, viajando por uma estrada de, praticamente mão única, margeando propriedades rurais e aldeias esquecidas pela tecnologia. Em todo o percurso, as vistas se perdem à contemplação de casas com portas e janelas acenando adeus, baixios e planícies cobertas por vegetação rasteira. À medida que a paisagem afasta-se das vistas, plantações de oliveiras dobradas de frutas apresentam as matas ciliares que protegem corredeiras de riachinhos de águas chorosas. Além das pequenas agriculturas de subsistência familiar, cultivar azeitona, é um dos cultos patrimoniais, fonte de renda do país; e hábito tão antigo, quanto a pacata, envelhecida, nostálgica e falante sociedade portuguesa.

Abaixo, bem abaixo, no sopé do país, está a cidade portuária de Faro; e dispensa redundâncias descritivas.

Consideração final:

Banhado pelo oceano Atlântico em um lado e divisado pela Espanha no outro, Portugal é um país pequeno territorialmente, menor que o estado de Santa Catarina. Estima-se que são pouco mais de 600 km de Faro, cidade do extremo Sul, até Braga, divisa com Santiago de Compostela.

Fotos pertencentes ao autor do texto

P.S.: a notória e esquecida obra de Sustentabilidade Ambiental legada ao Brasil por Dom Pedro II:

Conta-se que fazendeiros, agricultores e pecuaristas no afã de buscar novos meios e fontes para seus investimentos, precipitaram sobre as terras da Floresta da Tijuca. Não obstantes, mãos à obra, ou melhor, mão à destruição e o barulho infernal promovido pelas destocas e cortes de árvores afugentavam os animais nativos em segundos. Bolsões vazios apareciam da noite para o dia. Animais e plantas rasteiras se misturavam na paisagem pelada e desnuda do morro. Em pouco tempo, o cocuruto do maciço de terra já podia ser visto de longe. Definitivamente, os benefícios da floresta estavam comprometidos em detrimento do plantio e cultivo de café, cana-de-açúcar, extração de lenha para fazer carvão e outros. Era o dinheiro chegando, proporcionalmente, a destruição e desestruturação do capital natural esvaindo-se.

Década de 1860. Nessa época o Brasil estava sob os mandos da Coroa Portuguesa e quem a representava aqui era Dom Pedro II. O homem tacanho devido a rigidez familiar e severidade dos livros, sabedoria, retidão, aventureiro e naturalista, nas horas vagas, tanto ele como a princesa Isabel, subiam as serras ao redor da capital para espiar as belezas dos grotões e baixos. Era comum vê-los cavalgando as montarias pelos picos amorrados de Itatiaia, serra da Bocaina e serra do Órgãos; complexo de montanhoso de rara beleza. O hobby de viajar sob clima frio e uma vegetação espetacularmente verde, os faziam sentir como se o Brasil fosse um pedaço de Portugal; pois, sobretudo, o continente europeu não lhes saíam das mentes.

O desmatamento seguia firme em direção ao precipício ambiental, fazendo com que a floresta da Tijuca não fosse mais o que era. Os sinais da destruição atingiam as nascentes e olhos d`água, ao ponto de escassear o fornecimento de água na cidade; que contava com mais de 390 mil habitantes, e o pouco que restava, normalmente, era contaminada pelos dejetos de animais. E agora José? A boiada está pastando, as vacas mojando, os bezerros mamando. E agora Belarmindo? A agricultura crescendo, os grãos de solo virando ouro, as nascentes secaram, as árvores minguaram, pássaros e aves bateram em retirada e o sol deu as caras atrás da cadeia montanhosa, nervoso. E agora Dom Pedro, qual será o líquido que os seus súditos irá pôr na jarra para matar sua sede?

Contudo, o virtuoso, inteligente e inovador monarca nutria apreço pela Natureza e respeito pela necessidade coletiva, acima de interesses escusos e numa ação revolucionária até para os dias de hoje, iniciou o processo de desapropriação das terras ocupadas e paralelamente, impôs aos botânicos, paisagistas e agrônomos práticos que criassem um projeto bem detalhado de reflorestamento da área. Pela exigência do monarca, o projeto devia prever a manutenção do que sobrou, recuperação ambiental de áreas remanescentes e o plantio de mudas de árvores nativas onde fosse necessário. Segundo o planejado por Dom Pedro, no futuro o parque seria o patrimônio natural que era; caso não, pelo menos o mais próximo à antiga floresta da Tijuca. Esse imperioso projeto foi primeiro na América Latina e exemplo, inclusive, para a Europa, continente pioneiro em preservação ambiental na época.

Segundo os anais sobre a história do parque, a implantação iniciou com 6 bravios escravos, chegando ao total de 22, que espalharam nos mais de 3 mil hectares as mais de 110 mil mudas de árvores de espécies variadas retiradas de áreas circunvizinhas, que ainda estavam intactas. O trabalho foi árduo, difícil, laborioso, mas hoje o visitante caminha por trilhas que apresentam matas fechadas; banha o rosto nos pequenos regatos e poços; ouve o chuá dos fios de água despencando em cascatas nas cachoeiras; desfruta de cabanas para um piquenique; aprecia as várias espécies de aves e pássaros que fazem verão por lá. Como não bastasse, através das selfies, levam a memória viva do parque para casa; e ao recordar o passeio, dizer para os amigos e família que visitou o cartão postal da cidade do Rio de Janeiro; que de bela, preservada e maravilhosa, como ficou conhecida mundialmente, sobrou apenas o Parque Nacional da Tijuca.


Profeta do Arauto

Cronologicamente, didaticamente, antropofagicamente, funciona assim: as palavras que saem da ponta de minha pena sem pena, não são escritas; e se escritas, não são exercitadas .
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