ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

No afã que a vida lhe seja a caixa de presente distante da emblemática forca do multicolorido laço de fita da morte, nutro-o com viagens, alimento-o com gargalhadas, enalteço-o em palavras, ironizo quem cruza seu caminho; e fora as subjetividades citadas, dou o que comer e beber diariamente para o meu futuro esquife. Até quando terei que bancar essa chantagem emocional, esse prejuízo econômico, eis o mistério da fé

Uma carta escrita por ela mesma!

A escrita pode dispersar o ódio. Declarar a paz. Incitar os revoltosos; cravejar de verdades os acomodados. Sensibilizar corações; promover alegres e festivos sorrisos; cerrar cenhos; enrubescer faces; derramar lágrimas. Virar o Planeta de perna para o ar; revolucionar o mundo. Assim como a carta crê e carrega dentro de si o potencial evolutivo humano e não abre; a arte de escrever é união estável com a introspecção. Invencível, sensível, inspiradora, sociável, insensível, indescritível!


Mande notícias do mundo de lá / Diz quem fica / Me dê um abraço, venha me apertar / Tô chegando / Coisa que gosto é poder partir / Sem ter planos / Melhor ainda é poder voltar / Quando quero - Milton Nascimento

carta.jpgEu cheguei em frente ao portão / minhas malas coloquei no chão / e voltei / eu voltei, para as coisas que deixei...

Nunca sentei numa cadeira de escola; nunca estudei uma vírgula; nunca soube soletrar uma sílaba, sequer, mas exercia várias atividades profissionais, comunicava constantemente com minhas amigas no outro lado dos oceanos, viajei boa parte do mundo e através da mímica, falo e interpreto mais de 501 idiomas. Uma polímata? Não, garantidamente, não! Minha humilde modéstia não permite tal associação; quando muito, cumprindo com meu dever, era prestativa e socialmente, usual.

Aos longos do anos e em plena travessia de vida, quantos amores uni! Quantos amplexos apertados e ósculos selados pelas línguas transportei! Quantas lágrimas de adeus molharam as páginas e o envelope! Quantos sorrisos francos entreguei em mãos! Em plena atividade, era como se eu fosse a metade construtiva do casario. Arquiteta de sonhos e realizações; tudo, tudo, saía de dentro de mim, como um sopro aliviador do coração. Pura, prazerosa e terna felicidade.

Quantos sonhos sonhados; planos planejados; ilusões desfeitas dentro de um minúsculo envelope. Sem jamais bisbilhotar os assuntos alheios, quantas idas e vindas, levando e trazendo os fragmentos de vidas perdidos; pedaços de vidas ainda vívidos; nesgas de vidas esquecidas. Ao chegar o local endereçado, ficava sabendo que havia levado para o destinatário retalhos de compromissos escritos que nunca foram costurados nas colchas da paixão. Quanta desilusão!

Lamentavelmente, os retalhos nunca tornaram-se reais. Palpáveis. Palatáveis. Taparam, aliviaram, aqueceram corpos em noites invernais. Dando a César o que era de César por direito, transportamos a efusividade da evolução e alegria, mas não deixamos de carregar o desgosto, a agrura, o desprazer, a tristeza, a cobrança judicial. Deveras, nessas andanças promovidas pelo nosso Deus mund`afora, aprendi que o destino é a medida exata, em milímetros; e o peso certo, em gramas, da cruz que cada vivente carrega.

Às vezes me bate um sentimento de tristeza e pesar, em saber que eu transportava a cruz do destinatário, ou mesmo do remetente. Não esqueço-me da ocasião em que fui posta na mão de um destinatário e imediatamente, em menos de um minuto, as lágrimas de seus olhos prostraram sobre os meus pés: "Fim, é o fim amiga linda! É o fim de todos os planos elaborados, meu único amor; o fim"!

Senti-me tão fragilizada, tão sensibilizada com a reação no semblante da pessoa, que não deixei de pensar, se eu era cúmplice no "fim dos planos elaborados".

Uma ardência, um aquecimento, uma labareda fervente subiu pelo meu corpo. Flecha disparada contra o meu coração, não sabia se chorava ou se sumia em disparada. Confesso que foi uma das piores, se não a pior, experiência que vivenciei. Sentimento não se mede, senti; mas foi pior que a dor da morte. Estacada e ereta encostada no batente da porta, sem dizer uma palavra vocalizada, sequer; suspirando fundo e mirando, assediosamente o horizonte, falei com o coração: "o que faz o encontro e a despedida de amores que se perdem nos caminhos da desilusão!?

Tudo acontece porque uma carta atira pedras no lago e observa o deslocamento da onda. Em contrapartida, uma carta se culpa; e a culpa é um leão rugindo ferozmente por dentro, uma tigresa, visceralmente, esfomeada. Um sentimento, tanto nostálgico e saudosista, quanto devorador; e a culpa senhor Destinatário e Remetente, é dualista. É amor recolhido; aquele que jamais poderá ser declarado e resolvido por mim, ou por nós!

Decrépita, envelhecida, perdi meu valor material, como é determinado pelo tempo, mas mantenho-me espirituosa de valores íntimos. Sou peça de museu amarelada nessa gaveta que é aberta uma vez hoje e a outra, sabe-se lá quando; entretanto, em tempo, ainda nutro amor próprio por mim.

Amor é a palavra que mais transportei. Mas o que é amar? Amor, compaixão e gratidão: falam-se deles em todos idiomas, em todos shoppings, em todos estádios de futebol, em todos natais, mas ninguém dá o que não tem.

Todavia, ainda acredito na tríade: amor, compaixão e gratidão; sei que não se encontra em qualquer esquina, mas ainda acredito que ainda haja um pouco de virtude, profícuas e benévolas virtudes, no âmago de quem escreve uma carta. E se isto não for o universo salpicado de estrelas, é quase a galáxia enluarada, e fará com que meus pulmões respirem por muitas e muitas décadas. Quem escrever à mão, além de experimentar sentimentos transbordantes, um dia irá dar-me razão.

O restante, deixe por minha, ou nossa conta. Sem preguiça, sem uma gota de indolência e sem demora, retornaremos aonde as emoções e os sentimentos verbalizados em palavras, nunca estiveram. Unir corações e almas, ainda é, literalmente, o meu, o nosso, papel...; social, familiar e humano! Por isto, treine sua caligrafia e escreva uma carta de próprio punho, e saberás quais são os valores cobrados para manter as tonalidades de uma amizade honesta e sincera. Afinal, o valor dado a uma carta por quem a envia, é o mesmo apreço dado por quem recebe; ou seja, boas lembranças e sólidas recordações de um filme passado que o cinema cotidiano não reprisa mais.

Lembra-se em que ano Robertão cantou: "Escreva uma carta meu amor

E diga alguma coisa por favor

Diga que você não me esqueceu

E que o seu coração ainda é meu".

Saibam quantos lerem esta, que meu coração ainda é dele. Amo sua voz, amo seu jeito elegante de ainda levar flores para a mulher amada; amo seu estilo de homem das antigas. Amo, amo, amo! Roberto, nunca te degustei; mas és gostosão, tesudo demais, sô! E alegro-me em saber que eu sou a carta papo firme que seus lábios disseram para o Tremendão; seu amigo de fé, irmão camarada.

Muitas vezes fui tocada pelas mãos dele. Ficava trêmula, extasiada, muda, fácil, vulcão incandescente! Fazia de tudo para me conter; mas que dava vontade de agarrá-lo, isso é o que eu mais queria. Sumiu; quanto tempo não nos vemos. Pode falar, sou saudosista, sentimental, emotiva mesmo; e às vezes sofro demais.

Finalizando esta missiva, em tudo, em tudo mesmo, criam-se teias de aranha nas bordas e picumãs nos interiores, exceto no que carrego dentro de mim e divido em indagações com todos os remetentes e destinatários de cartas: "Ventos estelares e escrita biográfica de vidas, por que aderem tanto o virtual, por que filiam-se ao clube das amizades efêmeras, por que não escrevem mais com sentimento, por que as pessoas não se olham mais, por que fazem pacto com a brevidade!? Por que...; por que...?

P.S.: preferia nem mencionar, mas a ocasião faz o anunciante; e não foram uma ou duas vezes que carreguei comigo o sentimento de dor, destruição, tragédias, traições, doenças, adultérios, fornicação e toda sorte de infortúnios mais. No entanto, como notícia ruim corria o mundo a passos de gigante, atualmente tudo é virtual, on-line; destarte, piscou os olhos, está na boca povo. O que deveras, é um alívio para mim; pois não suportava e nem quero ser cúmplice na desgraça humana. Bastam os programas sensacionalistas que bombardeiam a mente dos fracos. Sinto-me impotente em conviver com tanta podridão; o viés, é que continuo com o mesmo pensamento: se não posso alegrar, arrancar sorrisos de solos áridos, plantar flores em asfalto, iluminar mentes obscuras, saio da gaveta, passo borracha nas palavras, jogo água na folha de papel almaço, desfaço a escrita, amasso tudo e lanço-me na lata de lixo; que é lugar de inutilidades! Não serei eu a prostituir o mundo, mais do que está. Jamais quis ser, como não sou, fel amargo; e se às vezes, tornei-me veneno puro, é porque sob ameaça de morte, obrigaram-me sê-lo.

Finalizando, sabe, é que deleito-me, é viciante escrever sobre mim, sobre as chamas fumegantes do mundo e quando começo, as ideias vão surgindo, o Planeta se apequena, os sentimentos emergem das profundezas de meu ser e haja folha de papel e bico de pena para tanto; mas, definitivamente, prometo encerrar por aqui. Portanto,foi um imenso prazer ser revisitada por você.

Namastê e dias melhores para todos nós, meu amigo! E se sobrar um tempinho, entre em contato, escreva alguma coisa que revolucione o mundo, que altere comportamentos, que transmita sensibilidade e empatia. O mundo carece de poesia, gentileza, paz, seriedade, comprometimento, ação construtiva que lance paciência, compreensão e imponha amar o próximo, como a ti mesmo; sobretudo, amar incondicionalmente, é o que falta para a humanidade compreender, o que ela não compreende.


Profeta do Arauto

No afã que a vida lhe seja a caixa de presente distante da emblemática forca do multicolorido laço de fita da morte, nutro-o com viagens, alimento-o com gargalhadas, enalteço-o em palavras, ironizo quem cruza seu caminho; e fora as subjetividades citadas, dou o que comer e beber diariamente para o meu futuro esquife. Até quando terei que bancar essa chantagem emocional, esse prejuízo econômico, eis o mistério da fé .
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