ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

No afã que a vida lhe seja a caixa de presente distante da emblemática forca do multicolorido laço de fita da morte, nutro-o com viagens, alimento-o com gargalhadas, enalteço-o em palavras, ironizo quem cruza seu caminho; e fora as subjetividades citadas, dou o que comer e beber diariamente para o meu futuro esquife. Até quando terei que bancar essa chantagem emocional, esse prejuízo econômico, eis o mistério da fé

O rugido visceral dos felinos: Edson Cordeiro e Cássia Eller

É indiscutível que os tempos eram outros, a qualidade geracional era outra, o nível da safra era outro; por tudo isto e mais um tanto, os dois faziam música para um público específico, seleto e extremamente exigente, que não engolia qualquer porcaria, motivo deles serem conhecidos e aclamados mundialmente; mas o desvario de Cássia Eller está para a bluzeira Janis Joplin, assim como a garganta antissocial de Edson Cordeiro está para a voz indecente de Freddie Mercury. E sem precisar de tecnologia para regular, equalizar, aumentar, diminuir, subir ou abaixar a entonação grave e aguda das quatro vozes, tanto no palco ao vivo, quanto no estúdio, elas rugiam alto. Eram ensurdecedoras!


Contextualização: Quando se faz arte com apreço, comprometimento, responsabilidade, empatia, respeito pelo público, com compromisso social, pensando em formação de opinião, espírito de renovação, a perfeição é mera coadjuvante do insuperável prazer!

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Edson Cordeiro e Cássia Eller: infeliz daqueles que não conhecem a agressividade sonora dos dois e caem facilmente na cilada musical implantada no inferno, por Anitta; Pablo Vitar, que segundo o brega por instinto genético e arquiteto por erro de aptidão, conhecido na mídia por Falcão, canta pior que ele; Luan Santana, Michel Teló, Sheila de Melo e outros exemplos estilo "bate palminha, bate", ou funqueiros que, indecentemente, dançam ou dançaram, na boquinha da garrafa. No entanto, diz a lei suprema universal, que devemos respeitá-los; mas ouve, aplaude, alimenta-os comprando seus discos e assovia suas músicas, quem quer!

Dentre as muitas coisas silenciosas e inusitadas que existem no universo, está a fonte inspiradora; e após a conclusão da obra pelo artesão, contando e qualificando o número de retalhos da colcha e aparando as arestas da obra, o espectador e a plateia suspeitam que lá atrás houve algo que serviu-lhe de inspiração. Sob essa ótica, provavelmente, Edson Cordeiro e Cássia Eller tenham se validos de um verso de uma música da Rita Lee Jones perdido na fuligem do tempo; o qual cita: "Pra pedir silêncio eu berro / Pra fazer barulho eu mesma faço / Ou não!". Mas por que dessa suspeita?

Garganta, certamente e por sorte, o leitor possui uma para várias finalidades. Popularmente, a conhecem por gogó, ou pomo de adão. Exatamente, gogó é aquela saliência incrustada no pescoço que, juntamente com o nariz, denuncia o proprietário. Com esses órgãos anatômicos, não há disfarce ou dissimulação da caricatura; ao contrário, inexoravelmente, revelam a feição nua e crua do sujeito. E não há cirurgia plástica que modifique o que a genética produziu naturalmente.

Falar, a maioria dos vivos falam, emite sons através do pomposo gogó, mas uns poucos são privilegiados pelos ruídos graves e agudos liberados pelo nobre órgão. Esses poucos pássaros canoros humanos devem possuir uma garganta de gigante, se é que pelo tamanho do gigante, se mede os decibéis de sua voz. Quem é privilegiado com uma garganta estridente e estrondosa, dinamita as estruturas, estremece o mundo, pára a fúria de terremotos e tsunamis.

1990. Música clássica era coisa de cafona. Haviam sepultado a MPB e o blues. A New Age dava sinais de vida, mas música para relaxar e fazer dormir o espírito, bastam as marchas fúnebres, sob as quais, o defunto viaja estirado no caixão para nunca mais voltar.

E o rock? O rock respirava por aparelhos, entretanto, alguns focos de fogo ainda emergiam lavas furiosas no cume do vulcão. E ao fazer o rescaldo, os deuses da música encontraram debaixo dos escombros duas ossadas com duas gargantas intactas, além-normalidade anatômica. Duas verdadeiras preciosidades agressivas em forma de voz. Em forma de gritaria, brado, histeria, berravam para que as tirassem do purgatório. Pura acidez visceral, típica de lugares distantes, encontrada no Brasil pelos garimpadores da música alternativa. E de quem eram as ossadas?

A primeira era da fluminense, Cássia Eller, que já perscrutava os bares e casas noturnas, fumando, bebendo, tocando MPB e samba clássico, estilo Noel Rosa, Jackson do Pandeiro e Chico Buarque. Sobretudo, Cássia tocava um estilo de música inovada, embebido nos velhos e surrados ritmos do blues americano e Rock and Roll. Seu vozerio nada conservador, batido no violão em alta rotação, misturado com muita energia e bastante insanidade, contagiava os sóbrios doidões que perambulavam pelas noites solitárias paulistanas. Quem a conheceu nesse estágio, já imaginava o tesouro arrasador de estruturas que despontava na Música Alternativa Brasileira; por sua vez, Cássia decepcionou os comportados, não menos os normais do fazer repetidamente, bem como os egoicos midiáticos; mas, jamais o seu público fiel.

Por algum tempo a segunda ossada foi um mistério, até que certo dia Edson Cordeiro revelou que a caixa de segredo pertencia a Mozart; e no dia que escavaram para encontrá-la, seu espírito enciumado, estava por perto rugindo feroz quem tocasse na ossada, pois o propósito maior era beber água diretamente da fonte.

Dono de uma poderosa garganta, o contratenor paulistano, natural de Santo André, ainda era incipiente na arte musical, porém já fazia gargarejos com clássicos, óperas e estilos afins; cuja finalidade era esgoelá-los ao vivo e em cores nos palcos do mundo. Para afinar o gogó e aguçar os sentidos, Edson trancava-se dentro de seu mundo particular e assombrosamente, ensaiava Mozart para as quatro paredes ouvir. O eco de sua voz grave cortava os ares; indo parar em lugares, os quais os ouvintes tivessem tímpanos para tanto decibéis Mozartiano. Após intenso estágio prático nas catacumbas de Mozart, dessa maneira nascia uma garganta lubrificada, irrigada, hidratada pelo líquido da insubordinada genialidade histérica.

Passado certo tempo, dois anos, se muito, vestindo meias 3/4; pegando ônibus lotado, arrotando na cara dos comportados e cantando em praças e banquinhos de botecos em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, Cássia mantinha o seu repertório musical sem público alardeador. Aliás, através de seu tio que era produtor do "14 Bis", banda mineira que de certo modo foi dissidente do "O Terço", estupefato com seu talento, abriu as portas do estúdio para que ela gravasse um disco single. Contudo, Cássia permanecia de plantão, estacionada na plataforma esperando pelo embarque na locomotiva que nunca chegava. Mas ela não perderia nada por esperar, pacientemente pela sua vez!

Um aqui, outro acolá, e o berro, a histeria, o rock, a ópera, o clássico, o samba, o blues e a arte musical para ambos. Cássia atacava de "I can get no (Satisfation) dos Stones, enquanto que Edson contra-ataca com "A Rainha Da Noite" de Mozart. E no laboratório anatômico de gogós insuperáveis, os dois se encontravam para jogar conversa fora, tomar umas biritas, filosofar as inocuidades culturais de um povo, confidenciar as suas escolhas sexuais, as quais dava mais ibope social que a arte proposta pelos dois; e como não poderia deixar de ser, exercitar o dom e o talento que Deus proveu-lhes, ou seja, afinar as excelsas cordas vocais em mais um duo entre rock e ópera.

Para os tempos de normalidade publicitária atuais, uma apresentação dessas, é digna de artistas insanos, o qual dominava a arte no passado. E ao ouvi-los, não é de se admirar se Mozart chacolhou o tumbão; bem como Mike Jagguer e derivados dos Stones precisaram juntar os cacos de crânio do chão. O duo musical apresentado foi avassaladora loucura impressionista!

1993. A Rede Globo ainda respirava um pouco de cultura alternativa; e os festivais de música, MPB Shell era um dos denunciadores, revelavam célebres vozes, tanto quanto, tiravam muitos músicos do anonimato. E ao manter o rescaldo, a emissora promoveu o encontro dos dois em um quadro musical que havia aos domingos no Fantástico. Como recompensa o Brasil passara conhecer duas gargantas, ou dois gogós fenomenais, como queira; e o resultado da apresentação: o horário foi recorde de audiência. E não era para menos, pois as duas fênix mitológicas fizeram uma apresentação pra lá de maquiavélica. Talvez por alusão ao nome do programa, berraram fantasticamente. Em partes, através deles, a música alternativa brasileira renascia das cinzas.

Cássia permanecia na plataforma esperando pela locomotiva do sucesso; e ao viajar pelas mesmas influências e estilos afins, o veterano de guerra na arte de musicar, Nando Reis, ex-Titãs, "deparou"-se com a talentosa felina, com isso ela ganhou notoriedade no meio artístico e voou alto, a ponto de gravar vários discos. A parceria entre os dois rendeu-lhes raros e preciosos álbuns. Porém, sordidamente, até onde se sabe, Cássia perdeu seu majestoso timbre de voz, seu inigualável rugido para as drogas.

Já o contratenor Edson Cordeiro viajava o mundo difundindo sua música e o Brasil nos shows. Residia mais fora que no Brasil, até que por conveniência e reconhecimento, decidiu ficar por lá em definitivo; escolhendo a Alemanha de Mozart como país para cantar suas óperas e residir.

Não obstantes, figuras desse naipe não suportam a mediocridade, que segundo a "Lógica do nivelar por baixo", estudada e pesquisada pelos doutos Tapetes, é virtude dos medíocres consumidores imediatistas e desvalidos de criticidade. E ambos, tanto Cássia quanto Edson, preferiram sumir dos mapas brasileiros; pois, a arte alternativa permite a demência insana mundana, em vez da mesmice da normalidade, se entregar.

Respeitemos a diversidade; mas quando possível e sempre é possível, nivelemos a cultura musical brasileira por cima; ou teremos que esperar a morte consumi-la; para posteriormente, virar um busto na rua Subestimado Edson Cordeiro em algum município brasileiro?! Antes tarde que nunca. Embora que busto, pórtico e placa de rua não são e nem representem a arte do artesão, convenhamos que não é uma má ideia.

Porém, tenhamos sempre em mente, que a imbecilidade e a bestialidade são irmãs gêmeas cosmopolitas que possuem passaporte e visto de entrada no mundo todo; por isto, não possuem nacionalidade.

Respeitemos!

Mais e mais, essas irmãs são artistas, artesãs, carpinteiras. E cantam, escrevem, pintam, bordam, teatralizam, tocam, fazem arte, ganham dinheiro que só!


Profeta do Arauto

No afã que a vida lhe seja a caixa de presente distante da emblemática forca do multicolorido laço de fita da morte, nutro-o com viagens, alimento-o com gargalhadas, enalteço-o em palavras, ironizo quem cruza seu caminho; e fora as subjetividades citadas, dou o que comer e beber diariamente para o meu futuro esquife. Até quando terei que bancar essa chantagem emocional, esse prejuízo econômico, eis o mistério da fé .
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