ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Cronologicamente, didaticamente, antropofagicamente, funciona assim: as palavras que saem de minha boca, não são escritas; e se escritas, não são exercitadas

Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar!

Humanismo não necessita de teorias humanas, ao contrário, basta ser gente, empatizando e simpatizando-se por gente. Pouco praticado, até mesmo pelos que se dizem humanos e humanistas, eis o ensinamento passado pelos singelos senhores da banda Fuloresta e por Siba, propagado! Liderados pelo músico Recifense, com eles tudo é ludismo; e ao dar um passo, milimetricamente rimado, rima o passo dado, no compasso.


Brincando, cantando, festando, o vídeo mostra todas as etapas, desde os preparativos, até a realização da viagem. E em todas elas, nunca, jamais a tristeza fez morada nos corações dos Fulorestas.

Semelhante aos duendes, magos, poções mágicas preparadas pelos alquímicos druidas e gigantes sem botas que enriquecem os enredos das histórias fantásticas, Sibá e Fuloresta andam a passos largos disseminando a cultura folclórica, sob a qual desfralda o regionalismo Nordestino. E ainda que o nordestino discípulo de Lampião e Maria Bonita desconheça, em cada um dos Estados secos e tórridos do sertão catingueiro, uma fagulha de cultura é rimada em seu nome, pelo músico e banda.

siba1.jpgA arte de capa do novo disco de Siba e Fuloresta é concepção dos Gêmeos, artistas/artesãos que fazem parte do projeto cultural mantido pelo músico.

Se o movimento cultural é infantil ou adulto pouco importa; certo é que a ciranda de Siba e convidados é considerada um palavrório rimado. E pensando em dar visibilidade às danças de terreiro, ao folclore, ao baile das jangadas nas águas, ao povo simples e alegre dos arrebaldes, Siba juntou sob sua tutela uma "gang de velhinhos fuleiros" que estavam encostados nos monturos da música folclórica pernambucana, esperando serem vistos pelos olhos de algum garimpador; e em 2007, o músico lançou o disco "Toda vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar". Verdadeira pérola cirandada.

siba.jpgSiba e seus "velhinhos"; como ele, carinhosamente, costuma dizer. O nivelamento e a igualdade é a assinatura, devidamente acordada e registrada entre a banda e o músico; e ninguém se põe no topo da escala musical. Tudo muito simples, humilde e natural, esta é uma família que nasceu para dar certo.

Na terra do frevo de Alceu Valença, do"O Auto da Compadecida" de Ariano Suassuna, do maracatu e do mangue beat criado pelo Chico Sciense, Siba era (é) figura respeitada e aplaudida; e por inúmeras vezes, havia participado do carnaval de Olinda. Todavia, alegrar uma multidão de noturnos insones e inebriados pelo lança perfume exalado em seus corpos escorregadios pelo suor, é totalmente diferente de alegrar o coração de um público diminuto que prima por sentar no toco de madeira ao fim de tarde para papear o dia em família; ou entre amigos, para recordar as Marias e Josés que passaram em suas vidas. É essa faceta humana Sibaense que os simples catingueiros do agreste pernambucano cultivam, veneram e aplaudem. Mas por que será que os "bons velhinhos" encantam-se tanto com Siba; e a recíproca é verdadeira?

Ora, sendo simplista na resposta, pela fácil arte de tratá-los, carinhosamente com simplicidade; pelo respeito aos seus valores; e sobretudo, pelo humilde didatismo de nivelar-se à linguagem deles. Tratando-os de igual para igual, Siba torna-os cativos obedientes. Sem algemas e amarras, pássaros livres no poleiro, porém cativos deles mesmos.

Siba é remanescente do caldeirão artístico que fervilhava no estado de Pernambuco, o qual muito se deve a Ariano; e uma vez filho da terra e professor no assunto, o "repentista" rima as sílabas nos versos e com a ajuda dos "velhinhos", remava o barco em direção à calmaria de seu atelier artístico. É nesse espaço amigável que eles encontram-se para ensaiar as notas, trocar figurinhas, escrever as letras, criar os arranjos, dançar ciranda, metralhar balas de rima na Terra, humanizar sem estudar humanas e com pernas longas, planejar o passo maior que os dados, até então.

O cirandeiro já estava acostumado às largas e compridas travessias; portanto, para quem já havia cruzado os oceanos em pernas de gigante, não havia nada de novidade, mas para os senhores da grota, conhecer o mundo do lado de lá, muito distante da zona da mata pernambucana, era um sonho possível. Contando com a presteza e amigáveis respostas de Siba, era um sonho próximo que não ficava apenas em planos de papel, ou apenas em peeguntas sobre um mundo distante

Siba apressou-se em depurar os detalhes finais para o dia tão esperado. E como bom professor e maestro, que quer ver seus alunos e músicos aplaudidos pela plateia, ele não mediu esforços para instruir seus "mocinhos", ensaiar os derradeiros arranjos e acordes nas notas musicais; pois a banda dos cafundós do Brasil, representaria a zona da mata pernambucana em terras francesas. Obedientes, os Fulorestas entenderam e assimilaram os ensinamentos, rumando para a terra dos defensores e assinantes da carta magna dos Direitos Humanos.

"Simbora dançar ciranda, França retada"!

O dia "D" chegara; e com os passaportes nas mãos acenando "um até breve", olhos amedrontados pelas gigantescas e pesadas asas do pássaro de prata, céu inebriado acalentado por novelos de algodão e lábios sorrindo o adeus para os familiares, Fuloresta e cia rumaram à liberdade, fraternidade e igualdade; provando para os franceses, Deus e o mundo que para ser humano, basta que as ideias sejam de humanos, exercitadas para humanos. Exatamente como manda um dos versículos bíblicos: "faça para o seu semelhante, melhor ou igual, ao que quereis que seja feito para você".

E abaixo os vários estilos de mimimis, blá, blá, blás, disse que me disse, tão presente na arte cultural falaciosa do povo e teorias de humanistas, que perante o conceito de democracia, é poder; mas é poder apenas para meia dúzia de poderosos oportunistas e aproveitadores dos menos esclarecidos.

Uma vez que todas as modalidades e projetos artísticos tem, no mínimo uma conclusão, desse projeto de Siba fica a ideia que os humanistas brasileiros são e foram outros, totalmente diferentes daqueles que, por terem teorizados ciências humanas, se dizem humanistas humanos; aliás muitos deles apoiam-se, encostam-se, aposentam, oxidam seus conhecimentos no depósito de máquinas emperradas, ou asilo como queira, chamado poder público.

"Merci, merci beaucoup Siba e Fulorestas, retados!"

P.S.: Tecendo Condutas

Comecemos a liberdade, igualdade e fraternidade, respeitosamente, humildemente, certas e retas; para terminar, disciplinadamente, ordeiramente, prosperamente, simplesmente, fraternalmente, igualmente, libertariamente, certas, retas e sem desvios.

Como visto, os passos dados por Siba não foram suficientes para balançar as estruturas, mudar o mundo de lugar; mas, além de servir para balançar parte da França, alterou para melhor, óbvio, o mundo de muita gente na zona da mata pernambucana.

Esse projeto cultural de Siba, faz lembrar a célebre frase, sempre dita pelo repórter Gil Gomes, considerado brega pelos doutos e intelectuais da época, ao iniciar e terminar o programa policial que fazia: "se você agir com dignidade, (como sinônimo de dignidade, leia comprometimento, caráter, probidade, respeito e seriedade) poderá não consertar o mundo; mas certamente será (o mundo terá) um canalha à menos".


Profeta do Arauto

Cronologicamente, didaticamente, antropofagicamente, funciona assim: as palavras que saem de minha boca, não são escritas; e se escritas, não são exercitadas .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/artes e ideias// @obvious, @obvioushp //Profeta do Arauto