ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Apocalipticamente, apostando todas as fichas nas tragédias naturais e dando voz ao caos apocalíptico humano; pois, o Homem é triturador do próprio homem

Zé: Ramalho e do Caixão; amigos para sempre!

A morte terrorista levou mais um. Sordidamente, a madrasta de todos os viventes do Planeta, levou para seu aprisco soturno àquele que mais investiu, reverenciou, louvou, aplaudiu-a em pé. Morte, morte, morte! Por que és tão forte; e matas o gato, o leão, a formiga, o rato? Morte, insaciável morte que consome o lobisomem, a girafa, o pato, o galo, o Homem!


Recentemente, Zé do Caixão sentiu o gosto de fel da morte, que cavalgando o breu miserável, desceu às entranhas da Terra e, silenciosamente pé ante pé: Crau! Bastou uma, apenas uma foiçada para dizer-lhe qual era a finalidade de estar em seus aposentos naquele instante.

Imagen Thumbnail para images.jpeg.jpgNesta Terra de todos os santos artistas, tem uns que se identificam com a música; e outros tantos com o terror. Contudo, tem àqueles que se identificam com as duas artes, ou seja, o adágio musical fúnebre que alegra o terror de respirar a vida, em vida.

Imediatamente os morcegos, amigos inseparáveis de Zé do Caixão engalfinharam com dentes e unhas nas jugulares da horda de anjos que tocava flauta para o Doidão Beleza, reanimando-o com o tradicional "Toca Raul; toca Raul, a levantar das profundezas silenciosas do além, para cantar em homenagem ao esquife recém-tombado:

"... Minha cabeça caída, solta no chão

Eu vi meu corpo sem ela pela primeira e última vez...

Jogaram minha cabeça oca no lixo da cozinha

E eu era agora um cérebro, um cérebro vivo à vinagrete..."

Para os amantes do terror, Zé do Caixão será uma enorme, gigante perda; e não é para menos, pois o paulistano que na nasceu numa sexta-feira 13 de um ano qualquer, conhecera a luz do dia com aguilhões pontiagudos nas pontas dos dedos das mãos e a boca arreganhada cheia de dentes sanguinários. Verdadeiro morcego recém-nascido adulto apavorante, estilo "O Velho Barba Ruiva das 7 Capas Pretas".

Quando criança, Zé do Caixão escrevia pequenos textos, criava os personagens, chamava os amigos, vampiros e morcegos inimigos e encenavam a trama. Obviamente, alucinações simples, mas que tinham o medo, o caos, o desassossego infantil, o profundo abismo existencial dos sonhadores, o terror e a morte.

E qual o local apropriado para suas pirações insólitas? Pasmem leitores, mas era lá, no galinheiro de sua casa que Mojica Marins, nome de batismo, encontrava graça e ambiente favorável para desenvolver sua arte; e se por acaso os galináceos ousassem se opor ao inventivo e operoso trabalho dele, cortes de esporas, depenagens e sangue esguichavam dos pescoços. Viera ao mundo com essa missão.

Seu pai trabalhava como serviçal de um cinema e leváva-o para assistir os filmes; preferencialmente àqueles de tramas sádicas, desumanas, caóticas, fúnebres.

Até então, suas aspirações e inspirações pouco diziam sobre seu futuro. Porém para quem é de caos e terror, o caos e o terror lhe vêm quando menos espera; e numa noite qualquer, sonhou que fora abduzido pelos maus espíritos e após usá-lo como objeto de desejo,descartou as sobras em um cemitério.

Zé despertou feliz da vida por ter tido a oportunidade única de ser bajulado, ninado por caveiras de sorrisos esganiçados.

Aliás, esse sonho foi o motivo de seu primeiro filme no ano de 1964, intitulado "À Meia-Noite Levarei Sua Alma". Pronto, em vez de lacrá-lo, Mojica Marins, doravante Zé do Caixão, abrira de vez o caixão, objeto que o acompanharia para sempre.

Zé era tão aficcionado e dedicado ao caixão, que confeccionou um, especialmente para servir-lhe de cama.

Em suas muitas décadas dedicadas ao cinema, fez dezenas de filmes de terror. Ironicamente e por brincar, debochar, zombar dela, no dia 19 deste mês, o que iniciou em função de um sonho, tornou-se realidade e a morte com sua foice amolada, cega e surda, torou-lhe o pescoço, ceifando-lhe a vida; lacrando de vez o objeto que mais lhe causava orgasmo.

Era uma vez José Mojica Marins; que partiu para conhecer o mistério do desconhecido antes da quarta-feira de cinzas, dia que celebra a ressurreição dos sobreviventes da folia carnavalesca de carne fresca brasileira.

Zé Ramalho vagava pelas ruas escuras e fétidas do Sudeste sem eira, beira e sem um microfone e banco de boteco para tocar seu violão e celebrar sua arte. E de tanto vagar sem rumo, acabou aportando-se em São Paulo.

No final dos anos de 1970, os Zés de carnes e ossos conheceram-se frente a frente. E o Ramalho sem o menor medo do caixão fúnebre de Mojica, foi morar por um tempo na casa do cineasta escatológico; que constantemente era ridicularizado pelos contrários à sua arte demoníaca.

A vivência lado a lado entre os dois "esquisitos", resultou na capa do vinil "A peleja do Diabo com o dono do céu", de Zé Ramalho, lançado no início dos anos 80. A imagem retrata o bizarro, o hilário, o terror e a morte, sinais clássicos dos Zés, principalmente, do Caixão.

Quem faz terror, de terror não pode ter medo. Conta-se que Zé Ramalho, dando uma de sonâmbulo, meteu-se dentro de alguns apetrechos e vestimentas características da arte do outro Zé, caminhou pela casa escondendo-se em pontos estratégicos e fazendo os sons onomatopáicos de vento, animais e mortos, foi ao quarto de Mojica, encarando-o cara a cara, olho no olho; que quase sujou o fundo da calça de tanto medo.

Passado certo tempo de medo e terror, Ramalho declarou que era ele. No dia seguinte, Monica comunicou o músico que procurasse outro Zé do Caixão para ampará-lo; por que ali não se permitia dois Zés terroristas. Obediente e cabisbaixo, Ramalho se lançou novamente nas noites taciturnas paulistanas.

Reconhecendo o que Mojica fez por ele no passado, ao saber de seu falecimento, Zé Ramalho relatou em pormenores a relação entre ambos; provando que sensibilidade, respeito e gratidão não escolhem ideologias artísticas, ao contrário, deixou claro que os "brutos" também amam. E o mais louvável: os "brutos" não amam de palavras lançadas ao vento de boca para fora, mas de coração e verossímeis atitudes.

P.S.: se a morte é ato meritório e tem hora marcada para levar o agraciado / merecedor, Zé do Caixão demorou morrer, batou com as dez com mais de 80 anos, talvez porque o diretor de cinema, Mojica Marins quisesse escrever, criar os personagens, encenar a trama de tanto caos, terror e guerra produzidos pela humanidade nas últimas décadas.

Por fim, consumido pela dor, sofrimento, doença e morte, partiu deste para o outro lado do Pacífico, sem no entanto, concretizar sua proposta artística; mesmo porque, onde tem gente, terror é o que não falta.

RIP Mojica; e acalente, console a arte de Zé do Caixão que permanecerá vívida em você, no além.

Dando como certo que Ramalho não saberá responder, Zé do Caixão, consulte o Raul Seixas, que detido como refém e servo, está em poder e do Bem e do Mal, ou da Luz e das Trevas, à mais de uma década, que se o Didi: Didiabo é pai do Rock antigo que pregava "Paz e o Amor, sim; guerra, não", à quem pertence, quem é o pai do carnaval brasileiro?

Um poeminha pobre dedicado ao Zé do Caixão:

Não, guerra não!

Guerra mata;

Mata e cobre os corpos com sangue coalhado.

Não, guerra não.

Mas a dor, o caos, o sofrimento e o terror,

São leves maneiras de acelerar os batimentos do coração, solidificar o processo evolutivo humano.

Volta Zé do Caixão, volte;

E traga consigo sua arte,

Sem medo e temor,

Traga o terror.

Volte Zé do Caixão;

O cinema implora sua volta,

Terror tão carente.

Volte numa noite de lua cheia,

Uivos de lobos,

Dentes de morcegos cravados na jugalar,

Labaredas de fogo, em fulgor.

Volte Zé do Caixão,

Com medo, susto e arrepio,

Volte para fazer a fila da zona de conforto tecnológica dar um pulinho à frente.

O Planeta precisa caminhar. Avançar.

Zé do Caixão,

Caixão com o Zé dentro,

Terror sim.

Hitler e Musolini,

Guerra, não!


Profeta do Arauto

Apocalipticamente, apostando todas as fichas nas tragédias naturais e dando voz ao caos apocalíptico humano; pois, o Homem é triturador do próprio homem.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/artes e ideias// //Profeta do Arauto