ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Um Rebelde desatinado, que faz da rebeldia, Patrimônio tombado Aliança Liberdade, Independência, Autonomia.
Certamente, é a primeira e a última vez que tens contato com alguém adepto e por cima, fiel praticante da ALIA. Por qual motivo afirmo? Ora, desculpe-me a insensata indiferença, mas quê pergunta tola

Filho de Almir Sater, "fera" no violão e na viola, é!

[...] que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem
Nos meus filhos [...] Raul Seixas


Sim, o artigo é sobre a musicalidade dos Saters, portanto, é conveniente que iniciemos cantando:

Dia de tudo ter ou de nada ter

Desde cedinho horas pra se viver / Dia para plantar

Dia pra colher / O mesmo dia de sempre

O velho sol / Se esparramando pelo Pantanal

almir.jpgOs ruralistas, Almir Sater, Sérgio Reis, Renato Teixeira, Roberto Corrêa e tantos outros, são tidos como as vozes da música raiz; porém, não é preciso ser cátedra em música para saber que as letras e as harmonias os remetem também à originalidade da M.P.B e outros estilos.

Quem tem as raízes e origens fincadas no campo, pode respirar o perfume de gasolina nas grandes megalópoles, desfilar as manias dos padronizados nas passarelas dos shoppings, caminhar de chinelos havaianas nas orlas das praias, fazer selfie ao lado do velho barbudo Papai Noel, enfim, pode virar o Planeta de ponta cabeça; porém, jamais nega seu estilo acaipirado, caboclo de fala arrastada, chapéu de aba larga cobrindo a cabeça.

Uma caneca de café quente na mão e ao som crepitante de lenha seca, dedilhando a viola para as lu'estrelas, nunca deixa de apreciar um papo descontraído com os amigos ao redor de uma fogueira. Fora o pulsar da vida no todo, é disto que o caipira evoluído gosta...; é isto que a originalidade do caboclo quer!

Por volta de 18 anos, Gabriel transitava por uma estrada com miríade de confluências. Direita ou esquerda; seguia a caminhada ou estacionava onde estava; Norte ou Sul; Leste ou Oeste? Optou por seguir, tocar em frente, em linha reta, afinal, munido com todos os apetrechos necessários à aventurosa peregrinação, por que mudar a rota? Fazer o que se gosta e quer: prenúncio de felicidade incondicional!

Todavia, precisava consultar algum "Druida" das cordas sobre as maneiras de como desvencilhar-se da prostituição midiática, mantendo no entanto, os passos firmes em direção à conquista e realização como músico, compositor e violeiro; foi quando apareceu a figura de seu pai.

Conhecendo o potencial do filho, Almir não fez mais que reforçar os predicados que Gabriel possuía, dizendo que se Ele estava decidido ser um vibrante artista alternativo, deveria como nenhum outro, dedicar dias e noites ao instrumento e numa segunda etapa, investir na carreira e não menos, valorizar os parceiros de palco; pois multi-instrumentista nenhum faz um concerto sozinho. O filho não só acatou, como seguiu à risca as recomendações do pai.

Sem sombra de dúvida, meu pai é meu grande ídolo na música. Cresci inspirado em sua obra, vendo seus shows, acompanhando-o compor com seus parceiros musicais. Isso sempre me inspirou muito.

Nascido em São Paulo, Gabriel foi criado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul; e aos 15 anos, morou certo tempo em Nova York. Estando na capital de M.G.S., na fazendo de seu avó Fuad Sater, Gabriel tinha contato com variados estilos musicais, desde guarânia até clássico. Contudo, visando aperfeiçoar o dedilhado, inteirar-se mais sobre o instrumento, apurar os tímpanos para novos acordes, arranjos e as incontáveis variações de notas sonoras, começou estudar música com o maestro gaúcho Cristiano Kotlinski. Herdada de seu pai, afinar sua fina musicalidade, era a proposta.

Na virada do século, Gabriel deu adeus às alamedas incidentais pantaneiras, tomando o rumo que o levaria aos estúdios. Para isto catou a dedo mais alguns músicos de igual calibre; e em 2006 Eles lançaram o primeiro Cd: "Gabriel Sater Instrumental".

Em seguida foram mais 2 discos instrumentais; obras que "revivem a produção musical" de seu Pai no início de carreira. Para quem tem gosto diletante pelo violado melódico embebido no rock progressivo, fundido com as raízes, espessos troncos de árvores e berrantes pantaneiros, passando pelo estilo rock rural, findando a viagem alquímica com a MPB clássica, tai a sugestão que fazem de Pai e Filho, pássaros pousados em galhos distintos, se comunicando pelos acordes, notas e arranjos da mesma procedência musical.

Correndo sério risco de ser abocanhado pelo "tremendo leopardo perigoso", que atende pelo nome de São Paulo, Gabriel não esquece suas origens e para mitigar as recordações, por volta de 2010 grava um Cd com canções letradas; e como não poderia deixar de ser, as letras retratam as paisagens vividas por Ele em tempos de cavalgadas poéticas, dedos de prosa nos finais de tarde na capital e dos vários mosaicos vegetais do soberbo e indescritível pantanal matogrossense.

Novelar os dedos polegares um ao redor do outro, escornado em uma espreguiçadeira, denominada zona de conforto não é preciso; como contraponto, desafiar é preciso. E o desafio tocou-lhe à mente. Ao participar da entrevista de seu Pai com o diretor da novela "Meu Pedacinho de Chão, escrita por Benedito Ruy Barbosa, Gabriel foi convidado para interpretar Viramundo, um errante personagem seresteiro tocador de viola em noites sombrias. Estupefato com a ideia, não pensou duas vezes para dizer sim; no entanto, não dominava o instrumento.

Como motivação, Ele recebeu de seu Pai uma viola de presente e a recomendação que, se não tratasse bem o instrumento e não fizesse as cordas cantar, como cantam as cordas do violão em suas mãos, Gabriel teria que devolver o objeto; afinal, Almir nutria a ideia que as notas e os acordes da viola que alimentou o Pai, alimentaria o Filho. Espírito Santo...

Explodida a semente, crescida a árvore e gerado o fruto que serviu de alimento para a musicalidade do Filho, por certo tempo, entre luzes, câmeras, olhos fechados e os dedos mergulhados nas cordas da viola, Gabriel isolou-se no Rio de Janeiro para a gravação da novela.

Ao final, mais uma epifania Sateriana vencida. Com efeito, Pai e Filho provam que o valor da conquista está acima das coisas materiais. Amém!


Profeta do Arauto

Um Rebelde desatinado, que faz da rebeldia, Patrimônio tombado Aliança Liberdade, Independência, Autonomia. Certamente, é a primeira e a última vez que tens contato com alguém adepto e por cima, fiel praticante da ALIA. Por qual motivo afirmo? Ora, desculpe-me a insensata indiferença, mas quê pergunta tola.
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