Alice Sabino

Escritora e revisora por ofício, bailarina por paixão.
Gosto de abraços demorados e músicas que me levam para outra dimensão

Carta ao amor

É desafiante manter uma relação estável com o amor, que chega devagarinho e nos estraçalha pouco a pouco nesses tempos modernos. Mas há de nos mantermos calmos - ele sempre nos surpreende, não é mesmo?


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Querido Amor,

Tenho pensado muito em você. Tivemos muitas fases juntos. Te apunhalei e fui apunhalada de volta. Fui envolvida por cada entranha sua. Despertou em mim pensamentos vulcânicos de redenção total, me deixou em transe. Depois de viver alguns fiascos, quis te asfixiar, te joguei contra a parede, te dei um ultimato e disse: "essa é a sua última chance".

Mas você sempre voltava em diferentes formatos, e como que numa frenesia de questionamentos, me colocava numa sinuca de bico.

Comecei assim, ingênua, confiando plenamente em você e na sua existência. Você vinha e me causava todas aquelas estranhas sensações na barriga, na garganta, me deixava toda trêmula e completa. Me entregava instintivamente e investia em todos os piegas que tinha direito.

Ah, vida bandida. Abria as portas pra você me sacanear de novo. Vinha e esquentava todo o meu friúme, amolecia toda a minha dureza.

É muito difícil fugir de você quando chegamos àquele ponto, maldito ponto, em que os fios de cabelo se confundem e que a intimidade do guarda-roupa se faz presente. Em que compartilhamos memórias já esquecidas... Esse é o ponto em que rimos da nossa própria tragicomédia, nos autossabotamos, sem saber para onde ir.

Você chega de mansinho, encanta com seu jeitinho Don Juan e abarrota um zilhão de interrogações, reticências e pontos de exclamação na gente. Perguntas, mil perguntas. Mas seja bem-vindo, pode entrar. Chega uma hora em que nos deixamos levar e desejamos ser a Nancy de um Sid, feito pão com manteiga.

Por trás daquela pessoa amarga, há sempre uma outra que anseia romance. E aí a gente olha pra lua, enxerga o "coelhinho" e "ah, estou apaixonado". E aí assistimos a comédia romântica da sessão da tarde e nos acabamos de chorar e a vida é linda. Vemos o casal apaixonado no banco da praça e aceitamos de braços abertos aquela felicidade alheia. E aí da noite pro dia você me diz "bye bye", se esfacela, me deixando na esperança de ser consolada pelo brigadeiro de panela no meio da madrugada. Basta um respiro para entrarmos em dessintonia novamente.

No meio da noite, acordo com o gelado do outro lado vazio do colchão e em minha frente, avança letra a letra do duro e sincero adeus. Acordo na manhã seguinte, com ressaca de tanto sentir, convicta de que você não existe, de que é uma medíocre invenção para vender lingeries e Hershey's no Valentine's day.

Vejo você se esvair por cada buraquinho da minha casa, queimo todos os papéis que me fazem lembrar da sua não-existência. Essa não, seu lugar não era ali mesmo.

Vem a noite, a lua cheia. Coelhinho da lua? Extensas planícies formadas pelo derramamento de rochas ígneas que preenchem grandes áreas da superfície. Comédias românticas? Tudo uma farsa, produto feito pra vender aos iludidos, aos passionais hiperbólicos. Casais na praça me enojam e me fazem ver que coincidências cósmicas, de encontro de almas, são pura novela. Amarga? Não, realista. Cética? Não, acredito plenamente na sua liquidez, cada dia mais. Me asseguro dentro de minha Fortaleza da Solidão. E daqui não saio mais.

Então, a dúvida reaparece e começa a flertar comigo. "Há sempre um plano B, tome um gole de coragem e vá em frente". E aí você me dá seu mindinho, pedindo as pazes. Minhas duas metades começam a brigar. Cada uma querendo ir para um lado. E no meio desse caos, me encontro. No meio dessa busca por algo que nem sei direito se existe. Meu delírio é a experiência por essa busca que começa cheia de perguntas e termina quase sem respostas.

Você é incerto e perigoso. Do mesmo jeito, te quiero. Só sei de uma coisa, que nessa busca, continuarei acreditando fervorosamente em você. Amém.


Alice Sabino

Escritora e revisora por ofício, bailarina por paixão. Gosto de abraços demorados e músicas que me levam para outra dimensão.
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