Brenda Bellani

Lost my muchness, have I?

Uma conversa entre Kundera e Huxley sobre felicidade

O que os livros "A insustentável leveza do ser" e "Admirável mundo novo" concordam sobre a definição de felicidade.


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Um dos trechos que eu anotei de “A insustentável leveza do ser” me fez recordar de um trecho de “Admirável mundo novo”. Lendo-os em sequência, parece até que os autores conversam.

Milan Kundera:

“O drama de uma vida sempre pode ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo nos ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não, lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quisera deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quisera se vingar? Não. Seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.“

Aldous Huxley:

“A felicidade real parece bastante sórdida em comparação com as supercompensações do sofrimento. E, por certo, a estabilidade não é, nem de longe, tão espetacular como a instabilidade. E o fato de estar satisfeito nada tem de fascinação de uma boa luta contra a desgraça, nada pitoresco de um combate contra a tentação, ou de uma derrota fatal sob golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa.“

Dizem a mesma coisa de formas diferentes. A leveza do ser, a felicidade, é insustentável. Ao abandonar seu amante e sentir-se aliviada, não se arrepender pela sua decisão e não ser pressionada por Franz, Sabina sentiu-se leve. Mas a sua leveza era, de certa forma, um peso. Ela não sabia como lidar com a sensação.

O Selvagem em “Admirável mundo novo” lutou pelo seu direito de ser infeliz. De que forma se conectaria com o seu Deus sem privações, castigos e isolamento? Apenas quem sabe o que é a infelicidade e outros sofrimentos consegue apreciar a felicidade de verdade. Ou: a felicidade é muito simples e fácil sem que se lute por ela.

Você concorda?


Brenda Bellani

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