mudando algumas certezas de lugar

Acomode-se, vamos comemorar os nossos desastres. Aceita cookies?

Nathália Moura

Curiosa nata, quer conhecer saturno, escrever um livro, fazer um café decente e conseguir que um girassol sobreviva em um apartamento.

Se eu fosse eu

"Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor, sentir." - Clarice Lispector


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Se eu fosse eu é uma questão engraçada a se pensar, pois claro que eu sou eu, quem mais poderia ser a não ser a mim mesma? Ou eu sou aquilo que acho que devo ser? Ou sou coisa nenhuma? Afinal, quem eu sou?

Talvez se eu fosse inteiramente eu, ninguém me reconheceria como tal. É bem provável que eu esquecesse de vestir roupas, pentear os cabelos, lavar o rosto, amarrar os cadarços ou faria de propósito, porque as vezes eu realmente esqueço. Se eu fosse inteiramente eu, não sairia da cama se não fosse pelos motivos mais nobres de todos: comida e banheiro. Talvez teria mal humor grande parte do tempo e não aceitaria provocações. Já teria pelo menos uns três ossos quebrados e um olho roxo.

Cantaria alto, muito alto. Deixaria o som da minha música predileta no último em plena madrugada de domingo. Meus vizinhos me detestariam, meus amigos talvez gostassem de mim. Seria grossa, mais do que normalmente sou. E minha ironia subiria a um grau mais elevado. Se eu fosse eu, estaria fedida e sofreria de diversas doenças hipocinéticas.

Posso enumerar milhares de itens dos quais talvez faria se eu fosse eu. Mas a verdade é que eu não sei o porque não sou eu. Quer dizer, Você é inteiramente você? Em todas as vezes que disse sim ou não, respeitou o sinal amarelo do semáforo, ou se calou quando sabia que devia falar? Você foi você quando acordou hoje e escolheu sua roupa, tomou seu café e respondeu bom dia pra alguém que esqueceu de ver quem era? Você foi você quando seu chefe te humilhou e você apenas acenou com a cabeça? Ou quando alguém te roubou algo valioso e você simplesmente resolveu deixar para lá?

E o que somos, se não somos nós? Onde o nosso eu está? Quando é que ele aparece? Será que ele é aquele que suplica por amor? Que faz coisas impulsivas? Que ama, que se machuca, mas perdoa? Ou talvez aquele que tem medo do escuro? Que tem pavor do silêncio? Onde estamos? Onde podemos nos encontrar? Será que nos escombros de uma sinceridade ríspida? Será que no sarcasmo que de vez em quando sai sem que déssemos conta? Ou quem sabe talvez nas nossas brincadeiras, nos nossos desabafos tímidos? Somos mais nós quando choramos ou quando sorrimos? Nossas gargalhadas são francas? Nossos conselhos são realmente de peito aberto? E o nosso orgulho, faz parte do que realmente somos? Quantas defesas criamos para nos escondermos do mundo? Para nos escondermos de nós mesmos? Quantas barreiras e pedregulhos temos que enfrentar até chegar ao nosso íntimo e nos roubar, nos trazer para fora, nos trazer à vida, nos dar vida?

Levamos tantos anos planejando, por vezes ganhando ou perdendo. Sonhamos tudo que temos direito a sonhar e um pouco mais, talvez seja esse pouco mais que nos fazem sermos nós mesmos. Ir à Lua, desvendar algum mistério, ficar perdido numa ilha qualquer, pular de um precipício, ou simplesmente pintar o cabelo de verde, ir morar em outra cidade, conseguir um emprego melhor, o que seja. Nós estamos tão acostumados a deixar de sermos nós que acabamos não sabendo o que seríamos se fossemos. Aceitamos o que no fundo imploramos para negar e vice-versa. O mundo já criou um roteiro, e sermos nós, talvez possa não se encaixar nesse roteiro.

De certo, se todos despertassem o seu eu do fundo do baú, haveria guerra ou as pessoas aprenderiam de uma vez por todas que um deve respeito ao outro? Será que o respeito faz parte de nós? A dignidade? A honestidade? A humildade? Ou apenas somos corações vazios pedindo para se assumir como tal perante ao mundo?

O que as pessoas seriam se cada uma se preocupasse apenas em ser para si e não para o outro? E se sendo para si, talvez houvesse compreensão do que é o ser do outro? Não sei quando poderemos saber isso. Talvez um dia, como outro qualquer, decidimos assim como quem não quer nada ou quer tudo, nos tirar do guarda-roupa e andar pela rua sem se preocupar que horas vai voltar. Ou talvez não, talvez continuemos a olhar para o espelho e para si mesmos e não nos encontrar. Como diria Jung: "Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta." Despertar é uma tarefa complicada, exige muito mais ousadia do que qualquer outra coisa. Despertar talvez signifique ser a única bolacha quebrada do pacote, uma música fora de ritmo, uma moeda com erro de fabricação, um pássaro sem asas.

Você teria coragem? De te buscar no porão e desfilar despido pelas vilas da vida? Teria a coragem de dizer o que vem na cabeça, de rir quando realmente quiser rir, dizer sim quando quiser realmente dizer sim, dizer não quando realmente quiser dizer não, aceitar de uma vez tua desorganização, assumir teus erros, se assumir, levantar a cabeça e seguir o caminho que realmente quer seguir?

Criamos barreiras em cima de barreiras para nos limitarmos a sermos quem não somos.

Se eu fosse eu talvez já tivesse mudado o mundo, ou nem teria saído de casa, talvez tivesse mais história pra contar, mais pessoas ao meu lado, ou menos, ouviria outras músicas, assistiria a outros filmes, comeria outras comidas, frequentaria outros lugares, talvez até nem estivesse escrevendo esse texto. Confesso, não sei quem eu seria se eu fosse eu. Inteiramente eu.


Nathália Moura

Curiosa nata, quer conhecer saturno, escrever um livro, fazer um café decente e conseguir que um girassol sobreviva em um apartamento..
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