mudando algumas certezas de lugar

Acomode-se, vamos comemorar os nossos desastres. Aceita cookies?

Nathália Moura

Curiosa nata, quer conhecer saturno, escrever um livro, fazer um café decente e conseguir que um girassol sobreviva em um apartamento.

Nós, os oficialmente declarados criadores de distância

E é justamente no intuito de diminuir a distância, que a criamos, alimentamos e cultivamos para as próximas gerações. Me pergunto: Quanto de desumanidade podemos incluir ainda em nossa sociedade, que por descuido, ainda não incluímos?


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Vivemos numa geração em que dar bom dia exige grande esforço, e é justamente o que queremos poupar. Temos preguiça de acordar, temos preguiça de escovar os dentes, de cozinhar, de organizar a casa, quem dirá organizar a vida...

Queremos o fácil, o prático, o rápido. Seja em smartphones, seja em pessoas. Somos confundidos com coisas o tempo todo.

Estamos na maioria dos lugares apenas em corpo, a mente está viajando, em ambientes cada vez mais, ironicamente, previsíveis. Somos a sociedade do status, vivemos para cultivá-lo e ampliá-lo a mundos ilusórios. Aliás, somos além de oficialmente criadores de distância, absurdamente também somos criadores de ilusões. Seja com o outro, seja com nós mesmos. Queremos o mais bonito, mais agradável, o melhor, mesmo sem saber definir exatamente o que é todos esses adjetivos e o que eles vão, realmente, modificar nossa realidade.

Todos temos necessidades e nossos atos estão cada vez mais claros... Agimos para suprir necessidades. Acho engraçado e ao mesmo tempo lamentável, o medo que temos em reconhecer a solidão e a hipocrisia em procurar no outro, incessantemente, aquilo que somente nós mesmos podemos nos oferecer. Bom, mesmo que eu negue, isso também faz parte da minha realidade, infelizmente fomos ensinados a colocar a culpa no outro, por nossos atos, por nossos sentimentos. E entender que o outro é um complemento e não o que nos falta, não está em nenhuma receita espalhada pela internet.

Nascemos com sonhos já prontos, com uma vida toda planejada, mesmo sem estar no mundo, o mundo já está em nós. E o que esperar da vida se a vida já espera tanta coisa da gente?

O que quero dizer é: Somos tremendamente limitados e fazemos questão de continuar limitando a vida onde tiver possibilidade de se limitar. Ser exige esforço, sonhar exige esforço, amar exige esforço, exige tempo, exige paciência e não somos ensinados a ter nada disso.

Criamos distâncias, porque preferimos perder horas em uma rede social do que aproveitar o sol lá fora. Porque negamos as oportunidades, preferimos rolar horas na cama do que lavar o rosto e abrir a porta, nos confundimos com o que queremos e o que a sociedade quer que queiramos. Porque quantidade é melhor do que qualidade, esta lá na tv, no outdoor, nas mensagens do whatsapp, nas curtidas do facebook. Porque quando olhamos no espelho, não nos reconhecemos, encaramos a imagem de alguém estranho, e é perdidos em si mesmos que nos perdemos da vida, porque queremos tudo e nessa busca desenfreada, mesmo que conseguíssemos o tudo, não seria o suficiente. E sobretudo, porque você está aí e eu aqui, ao invés de juntos, compartilhando universos solitários em um mesmo espaço e tempo ao som de uma gaita desafinada ou qualquer outra coisa, não importa.

É extremamente cansativo ser migalha, ter migalha. Indigno-me constantemente com a minha pequenez, com a pequenez do mundo, mesmo com tanta grandeza. Éramos para sermos mais, éramos para conquistar a vida, não o mundo, não o que há nele, é além, muito além. No meio do caminho, as coisas deixam de fazer sentido. Abraçamos o orgulho, a carranca e limitamos tudo mais uma vez, sempre.

E no meio de toda essa confusão que é viver, ou pelos menos, estar no mundo, te peço: Nada de deixar para a próxima, eu quero, mas quero agora. Se tiver que vir, então venha com toda a sua vontade, sem medir esforços, sorrisos, gentilezas, abraços, de corpo, mas principalmente, de alma e coração, com verdade, sem medo, sem anseio, sem nada que possa te fazer hesitar. Venha com o teu melhor, com o teu pior, mas venha. Mesmo que derrube coisas no caminho, mesmo que o dia seja longo e as noites curtas e a vida parecer carregar um pesar esquisito de vez em quando. Eu gosto de imperfeições, principalmente das tuas, das minhas, das nossas. Ainda hoje. Cansei desse espaço, cansei desse tempo, cansei de palavras, de distância, de me perder nessa bagunça. Quero me lambuzar na solidão, contanto que seja com você.

E aí, resolveu vir ou eu terei que te trazer pra perto?


Nathália Moura

Curiosa nata, quer conhecer saturno, escrever um livro, fazer um café decente e conseguir que um girassol sobreviva em um apartamento..
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