mudando algumas certezas de lugar

Acomode-se, vamos comemorar os nossos desastres. Aceita cookies?

Nathália Moura

Curiosa nata, quer conhecer saturno, escrever um livro, fazer um café decente e conseguir que um girassol sobreviva em um apartamento.

No meio dessa bagunça, nós ainda não aprendemos a amar

Quem já não tentou desvendar o significado do amor? Quem nunca se perguntou o que é e se por acaso, o sente? Será que de fato, o amor existe? E se existe, será que somos capazes realmente de amar?


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Preocupo-me bastante sobre como as coisa vêm sendo construídas em nossa sociedade, sobre como o homem está se tornando cada vez mais mercadoria e máquina e sobre como no meio de toda essa bagunça pode existir o amor... Bom, me perco infinitas vezes no tempo, na vida corrida do cotidiano, no "pense rápido", no "seja rápido", seja "produtivo", seja "normal", seja "contente", tantos "sejas", tantos parênteses...E nada de fato, como se pode ser.

Me assusto em observar no trânsito de uma das avenidas principais da cidade, no horário por volta das 18hs e ver que as pessoas não conseguem parar por dois segundos ou mais pra olhar o céu, que inclusive, na grande maioria das vezes, se não todas, está lindo como uma extraordinária obra de arte. Ninguém observa mais a lua, ou cheira as flores. Ninguém consegue mais olhar nos olhos de outro alguém mais tempo do que seja "necessário". Vivemos como peças de um jogo em busca de algo que mesmo que consigamos, não será o suficiente e assim se repete o ciclo vicioso, de ser alguma coisa que nem sabemos se encaixa com quem somos agora. É um existir que predomina ao invés de um simples viver.

E o que seria viver no meio desse caos todo? O que seria respirar? Já parou pra pensar que as vezes a gente nem percebe que respira? Tanta coisa na cabeça e quase nada plantado no peito.

Eu achei que me sentiria viva de fato, a partir do momento que encontraria o amor e que ele pudesse me explicar, de alguma forma que eu nunca soube, qual deveria ser a minha melhor performance na vida. E sabe de uma coisa? Nem eu, nem ele sabemos disso, nem você. O negócio todo não gira em ser ou ter alguma coisa com impressionante satisfação, mas sim, ser apenas o que se é, buscar-se quando perdido e deixar por vezes, se perder pra que alguém te busque. O amor e a vida tem dessa as vezes, esse constante se perder e se achar, se não em si mesmo, que seja no outro.

Amar não é somente aquela coisa que está subentendido nos filmes, livros e músicas, amar requer de nós coisas nem se quer imaginadas, nem se quer conhecidas. O amor faz reboliço onde já estava tudo organizado e limpo. E a grande questão é que temos todos esses "atrativos" rotineiramente, para que possamos nos permitir organizar a casa, controlar a vida, controlar o tempo, controlar o amor. Temos medo de amar, porque ao amar, deixamos de ter só os nossos próprios objetivos, nossas próprias crenças, nosso próprio modo de ver a vida, pra que alguém possa nos ajudar a enxergar o horizonte de outros ângulos. Amar é se fundir no outro a ponto de não saber onde você começa ou onde o outro termina.

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Nós ainda não aprendemos à amar. O amor está se tornando cada vez mais raro. Não é pra qualquer um, não está nas prateleiras, nas vitrines, não está a venda, não é de fácil acesso. Talvez esteja mais próximo de nós do que possamos imaginar, melhor ainda, talvez esteja aqui dentro de nós, mas somos incapazes de reconhecê-lo, porque ainda existe uma criança que chora com medo da escuridão. E amar, meu caro, é se jogar de peito aberto no buraco fundo e escuro, onde não sabemos se sobreviveremos ou se chegaremos ilesos, na verdade, amar é destruir ao mesmo tempo em que enxerga nos destroços as possibilidades de se reconstruir. Talvez seja demais pra nós, sermos um brinquedo quebrado no meio de tantas bonecas que querem ser perfeitas.

Estar diante das qualidades de alguém, das coisas boas que pode nos trazer é muito fácil, difícil mesmo é aceitar o lado escuro, as sombras, a parte feia das pessoas. Difícil mesmo é reconhecer o que pode ser medonhamente estrondoso em nós mesmos. Difícil mesmo é permitir-se aceitar o inteiro. Gostamos é das partes interessantes, legais, inteligentes, bonitas, mas amar é quando o estranho, o horripilante, o perverso, o feio não nos afasta, mas faz com que persistimos em florescermos juntos. Amar é sofrer, é deixar-se ser levado por forças incontroláveis, é aceitar, é permitir, é ceder. Cura, machuca, traz vida, traz graça, reanima, ressuscita e mata outra vez.

Ah, que tarefa difícil essa que nos foi concedida!

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Parafraseando Clarice: "Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil."


Nathália Moura

Curiosa nata, quer conhecer saturno, escrever um livro, fazer um café decente e conseguir que um girassol sobreviva em um apartamento..
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