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O feminino velejando entre mundos da literatura, cinema, comportamento e atualidades.

Simone Bittencourt Shauy

Enfermeira por paixão. Escritora por predestinação. Ilustradora por inclinação. Mulher plural por emancipação.

"Honor Diaries - Cultura não é desculpa para abuso"

Documentário que expõe e discute com sabedoria e bravura a violência contra mulheres e meninas em famílias e comunidades onde a discriminação de gênero é sistemática. As convidadas são mulheres determinadas a romper estas correntes de abuso institucionalizado e acabar com a impunidade em crimes bárbaros como os chamados "honor killings".


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"Honor Diaries" é um documentário que tenta trazer consciência mundial sobre a temática da violência cometida contra mulheres e meninas em sociedades onde são vistas e tidas como commodities e tornadas responsáveis por carregar a "honra familiar". Vivem em ambientes brutais onde os homens têm poder absoluto sobre suas vidas, corpos e destinos. São vítimas de abuso psicológico, estupro, mutilação genital, tortura, escravidão, confinamento em cativeiro, apedrejamento, ataques com ácido e assassinato. Os protagonistas podem ser pais, irmãos, tios, primos, sobrinhos, maridos, sogros e sogras, líderes comunitários, até mesmo as mães das vítimas. Quando o homicidio é cometido em nome da "honra", é chamado "honor killing", embora não exista nada honroso nestes atos bárbaros. Na maioria quase absoluta dos casos, estes criminosos desfrutam da mais completa impunidade. Mulheres e meninas nestas sociedades patriarcais vivem sob constante terror, humiliação, maus tratos sistemáticos, sufocante opressão e absoluta negligência no que diz respeito à dignidade, humanidade e integridades física, mental e emocional das mesmas.

Embora estejamos em pleno século XXI, parece que certos valores e tradições estão ainda com raízes na Idade Média, senão Pré-História. No meu ponto de vista, não é essencialmente uma questão de religião ou cultura (embora certas religiões e culturas possam ignorar tais práticas, o que se torna certamente um consentimento velado), mas um misto de crueldade, ignorância, covardia e desejo por dominação, controle e poder individuais. Tais mulheres e meninas nascem destituídas de todo e qualquer direito. São tomadas como mercadorias de troca, garantias para pagamento de dívidas, alvos de exploração sexual, violadas de todas as formas e punidas sem justificativa alguma, além de bodes expiatórios de qualquer situação de crise familiar ou comunitária.

"Honor Diaries" é um filme poderoso, perturbador, esclarecedor, marcante, sobre mulheres valentes, inteligentes, inspiradoras, heroínas da vida real, com poder e sabedoria nas vozes e convicção nas atitudes. Mulheres determinadas a promover mudanças substanciais de mentalidade nas próprias culturas, que não se calam apesar das ameaças que sofrem. Discutem estratégias para tentar garantir de volta o controle das rédeas das próprias vidas às sobreviventes e outras que estão altamente expostas a estes crimes, além de Justiça para acabar com a impunidade dos que praticam tais atos e desencorajar outros a seguirem o mesmo caminho em ambientes onde o machismo é epidêmico.

Nós, como mulheres, precisamos criar uma cultura de voz ativa contra situações de abuso de que natureza for onde quer que estejamos. Mulheres e meninas precisam saber e acreditar que unidas têm poder e direito de viver uma existência digna, com possibilidades de fazer as próprias escolhas do que acham melhor para elas, com quem querem partilhar uma vida, quando querem e se querem. Apartheid de gênero, como qualquer outro, deve ser investigado, exposto e condenado. Mulheres e meninas não são "second class citizens". São seres humanos! Merecem ter garantido o direito como proprietárias absolutas de seus corpos, vidas, vozes e escolhas. Não deveria jamais ser negado a ninguém a existência num mundo inclusivo e justo.

Outro ponto que acho fundamental ressaltar é que mães criem seus filhos sabendo respeitar as mulheres e suas meninas conscientes dos próprios direitos. Só assim, no futuro teremos esperança de que as próximas gerações de ambos os sexos crescerão com mentalidades diferentes, sem as ervas daninhas da ignorância, preconceito e intolerância inseridas nelas.

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Simone Bittencourt Shauy

Enfermeira por paixão. Escritora por predestinação. Ilustradora por inclinação. Mulher plural por emancipação. .
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