mulher cultura plural

O feminino velejando entre mundos da literatura, cinema, comportamento e atualidades.

Simone Bittencourt Shauy

Enfermeira por paixão. Escritora por predestinação. Ilustradora por inclinação. Mulher plural por emancipação.

O beijo entre duas mulheres X a instituição familiar brasileira

Quão frágil anda a instituição familiar brasileira a ponto de se ver ameaçada por um beijo entre duas mulheres em cadeia nacional de televisão?


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Era o ano de 2011 quando saiu a manchete em letras garrafais: "O primeiro beijo gay da televisão brasileira". O grande alarde foi por conta das duas personagens representadas pela atrizes Luciana Vendramini e Giselle Tigre na novela do SBT "Amor e Revolução". Quando o vídeo do beijo foi postado no YouTube, os brasileiros se manifestaram em peso em comentários que variaram de uma gama dos mais sufocados, entusiasmados, desconcertados, aos mais inconformados, indignados e irados. Alguns estavam felizes pela quebra de um grande tabú em horário nobre de televisão num país onde novela é um estandarte cultural. Agora todo mundo viu duas mulheres se beijando, ponto! A quantidade de pedras atiradas foi sem precedentes! "Escândalo nacional", "pouca vergonha", "perdição", "fim dos tempos", "a destruição da instituição familiar" gritou a oposição. Não se falava em outra coisa!

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Assim veio o ano de 2014 com a novela da Rede Globo "Em Família". Novamente, se ousou desafiar o mesmo tabú. A relação de amor entre duas mulheres Clara e Marina, nos rostos, vozes e gestos de Giovanna Antonelli e Tainá Muller. Nesta trama, a personagem Clara é casada com um homem, tem um filho e é feliz no relacionamento. Mas acaba conhecendo e apaixonando-se por Marina, uma mulher assumidamente homossexual. Nos finalmentes da novela, ficou mais claro que o beijo gay iria acontecer. Novamente, a mesma reação: gente torcendo entusiasticamente a favor e gente torcendo terminantemente contra. A mensão da ameaça à instituição familiar frente a questão do beijo gay na televisão veio à tona uma vez mais.

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Aqui estamos em 2015. A novela nova em folhas agora é "Babilônia" e o beijo desta vez foi protagonizado pelas personagens de duas das mais consagradas atrizes brasileiras: Fernanda Montenegro e Nathália Timberg. No caso desta trama, é o amor entre mulheres maduras, solidificado por muitos anos de relação conjugal e afetiva. O "escândalo" está novamente deflagrado! Parece que sempre que acontece é a primeira vez, é o absoluto "jamais visto antes", porque a reação de uma parte do público se traduz tão inflamada e ferrenhamente inconformada como das vezes anteriores.

O time dos que torcem para que o amor entre iguais caia da categoria tabú para um fato da vida e das relações, quer que se vire a página do preconceito arraigado de uma vez por todas no nosso Brasil. O time que condena a disseminação de tal "prática" continua carregando a bandeira de que tudo isto é um atentado à moral da sociedade e especialmente à integridade da família brasileira.

A instituição familiar oficialmente dita, é aquela que diz respeito à relação entre homem e mulher com pelo menos um filho. Assim, qualquer que seja a relação que se desvie deste parâmetro de definição de família estará sujeita à condenação pública.

Aí fico me perguntando, em que instância o amor entre iguais, o amor definido como união de duas pessoas que se querem bem, que podem ter o desejo de formar uma família, criar filhos com amor e construir um lar harmônico, com princípios morais e éticos, etc, pode significar uma ameaça à instituição familiar? Nenhuma das personagens das novelas mencionadas acima foi mostrada como um exemplo que configurasse uma tentativa irresponsável de degradar o conceito de família. Todas estas estórias mostram o amor na sua face mais sincera, sem distorções.

Em que instância um beijo gay numa televisão irá destruir a instituição familiar? Como tem sido o retrato da instituição familiar brasileira? Acima de qualquer suspeita? Perfeita? Sem faltas? Modelo de ética? Modelo de virtudes? Os pais e mães heterossexuais estão dando conta de manter um lar harmonioso para os filhos, dando bons exemplos, exibindo valores morais e sociais alinhados com os padrões estabelecidos do que uma família tradicional deveria constituir?

A realidade leva a crer que esta família tradicional não parece estar assim num patamar tão irrepreensivel para sentir o seu alicerce ameaçado pela imagem de duas mulheres se beijando na televisão. Qual será que é o maior medo? Que o marido e a mulher saiam porta afora cada um para um lado, "se perdendo" em relações homossexuais? Que as crianças cresçam querendo "adotar" este "modo de vida"? Que os vizinhos imaginem que aquela casa "acima de qualquer suspeita" virou um refúgio de imoralidade? Que os idosos da família sofrerão um colapso nervoso ou um ataque cardíaco agudos diante da "nova realidade"? Que por conta destes beijos gays veiculados publicamente, a família brasileira se afundará num oceano de "perdição"? O que leva a crer que a relação homossexual não seja nada além do que um símbolo da mais pura e simples perversão? De repente, o que se pensa é que casais homossexuais não façam mais nada na vida senão sexo e de nenhuma outra forma senão absolutamente degenerada!! É assim que grande parte da nossa sociedade encara os homossexuais: um grupo seleto de indivíduos imorais, inclinadas à promiscuidade, a um estilo de vida sem regras, sem valores, sem virtudes. Incrível quão distorcida e equivocada a mentalidade das pessoas pode ser por conta de preceitos que atribuem pecado à tudo o que não é visto como norma!

A grande hipocrisia está no fato de que esta instituição familiar dita ideal e normal está, ela mesma, cheia de exemplos repletos de defeitos, violência, delinquência, desamor, ressentimentos, degradações, contradições, desencontros, tudo menos unidade. Muito antes de o beijo gay aparecer numa novela de televisão e casais gays andarem nas ruas de mãos dadas, a instituição familiar brasileira já não podia gabar-se de moral e bons costumes infalíveis. Mas a tática tem sido sempre colocar o que não se é conveniente mostrar para debaixo do tapete e manter o discurso virtuoso e religioso a todo custo frente ao que parece configurar ameaça. Interessante notar que as mesmas pessoas que mostram enorme ultraje público contra emissoras de televisão, autores, atores e personagens que veiculam a realidade da relação de amor entre de pessoas do mesmo sexo, são as que engrossam a audiência de "reality shows" como o Big Brother Brasil, por exemplo, que faz apoteose de tudo, menos virtudes! O que dizer dos comerciais de cerveja e carros que exultam a mulher como objeto sexual absoluto? Onde está o boicote a estes produtos e a condenação destas representações profundamente pejorativas? O grande problema desta nossa sociedade é usar dois pesos e duas medidas para julgar os fatos e, especialmente, as pessoas. O que é condenável por um lado, é entretenimento divertido em outros. Como assim?

Talvez uma outra coisa que assombre os membros da tradicional instituição familiar com "a invasão gay" é que talvez esta faça com que se sintam pressionados a rever valores e conversar sobre as relações humanas com os filhos e sobre sexo, que é um tabú enorme. A sociedade brasileira na superfície parece muito liberal, tolerante, democrática, mas na prática é de um conservadorismo atroz! A aceitação do diferente só vai até a segunda página. É a hipocrisia do socialmente, politicamente, ecologicamente, sexualmente, religiosamente correto. Uma sociedade cheia de máscaras, camuflagens, fachadas, olhares bisbilhoteiros nos burados das fechaduras, ouvidos por detrás de portas, que tenta esconder as próprias faltas sob uma atitude de mulheres e homens e filhos acima de qualquer suspeita.

Toda esta reação da sociedade aos beijos entre mulheres e homens que têm sido veiculados nas novelas revela a fragilidade de cada um para lidar com o que não é convencional. Será que é tão ameaçador assim sair um pouco desta zona de conforto, desta bolha do conhecido, empacotado, sedimentado, doutrinado para abrir os horizontes em direção ao que pode ser diferente? E desde quando o diferente tem que ser como regra algo intolerável, abominável, digno de desprezo e preconceito? Por quanto tempo será possível para nossa sociedade tapar o sol com a peneira, fazendo de conta que outras formas de amar alguém não podem ser possíveis ou passíveis de aceitação? Por quanto tempo continuaremos a carregar a bandeira da imoralidade para tudo o que não é tradicional? Será que não temos que rever o significado de imoralidade, de pecado?

O que pode ser mais imoral e pecaminoso do que violência, desrespeito, desamor, falta de ética, intolerância, preconceito, hipocrisia, corrupção em todos os níveis e setores??? Será que são estes beijos gays nas novelas de televisão que carregam o monopólio destes pecados e imoralidades humanos? São os beijos gays os responsáveis por causar este terremoto sem precedentes na fundação da instituição familiar? O que duas mocinhas, dois rapazes ou duas senhoras ou dois senhores apaixonados mutuamente numa telinha de televisão expressando uma relação de amor irão fazer para entrar na sua casa e virar de cabeça para baixo a sua relação com sua esposa ou com seu marido ou com seus pais ou sogros ou filhos ou filhas? Só existe possibilidade de sofrer ruína algo que não tem bases sólidas, algo do qual não temos convicção, não nos sentimos seguros à respeito, onde não há diálogo, respeito, raízes firmemente fincadas em compromisso com a transparência, inclinação para entendimento, muito antes do julgamento. O que de mal pode nascer de uma relação de amor? Por que uma relação de amor não convencional pode ser tão mais ameaçadora do que uma relação de desamor convencional?

Espero que nossa sociedade evolua em valores reais, saudáveis, positivos. Que chegue um dia quando uma cena de novela de televisão com um casal de mulheres ou homens se beijando numa relação de amor seja um fato da vida, como qualquer cena romântica que assistimos num filme e que nos faz sentir algo bom sobre uma relação de amor genuíno, de encontro, de bem querer. Que o sentimento seja visto e considerado muito mais do que o gênero, cor, aparência, orientação. Que uma imagem assim não seja mais motivo de escândalo, de primeira página de revista sensacionalista, de passeata, de condenação pública e,especialmente, intolerância cega, porque é esta intolerância cega que nos torna amargos, rancorosos, destrutivos e merecedores do mesmo desprezo e preconceito que destilamos diante da não aceitação da existência dos sentimentos e necessidades do outro. Cada vez que negamos o direito de alguém à felicidade no amor de que jeito for, estamos negando sua própria essência como ser humano. E humanos somos todos nós, não importa se homens, mulheres, jovens, crianças, idosos, heterossexuais, homossexuais ou transsexuais. Quando começarmos a julgar alguém, temos primeiro que nos lembrar do quanto amar, ser feliz e ter espaço para viver quem somos é importante para nossas vidas. Exigir que o outro abra mão de todas estas coisas para merecer nossa aceitação é um tremendo egoísmo, é um "direito" que não nos pertence. Ser feliz em detrimento da felicidade de alguém é este sim o maior pecado, a maior imoralidade!


Simone Bittencourt Shauy

Enfermeira por paixão. Escritora por predestinação. Ilustradora por inclinação. Mulher plural por emancipação. .
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