mulher cultura plural

O feminino velejando entre mundos da literatura, cinema, comportamento e atualidades.

Simone Bittencourt Shauy

Enfermeira por paixão. Escritora por predestinação. Ilustradora por inclinação. Mulher plural por emancipação.

Inocência de hoje, intolerância de amanhã

A verdade da vida degradante das crianças de rua e as que adultos tornaram-se. A brutalidade social na qual estão inseridas acaba sendo a matéria-prima que moldará o comportamento, mentalidade e os sentimentos delas.


Thumbnail image for kid1.jpg

Elas estão em todas as esquinas, debaixo de pontes, nos semáforos, nas calçadas, disputando espaço com os pombos. Maltrapilhas, sujas, desnutridas, vagantes, mãos estendidas, olhares curiosos, carentes, tristes, desconfiados, outros ressentidos, cheios de incompreensão, desesperança, questionamentos.

À medida que crescem, perdem por completo a inocência, afinal, à elas é dada a responsabilidade por trazer o sustento da família, uma família que as usa porque assumem que quando é uma criança que pede esmola, as pessoas tendem a se compadecer mais. Os adultos esperam o dinheiro que irá sustentar o vício das drogas e álcool. As crianças um pouco de comida para forrar o estômago que dói e se contorce sem cessar. Os pais destas crianças usam as drogas para fugir da realidade. As crianças são deixadas para viver a consciência de uma vida nua e crua sem "atenuantes".

De inocentes e assustadas diante da aspereza e negligência, crescem com os corações secos, mente atordoada, um senso de revolta, angústia e desamor sem paralelos. Está plantada nelas a semente do rancor incondicional. Não sentem-se pertencendo. São perdidas e desamparadas, como uma pipa da qual alguém cortou o fio e é deixada à mercê de circunstâncias totalmente incertas.

Sem dinheiro, sem casa, sem comida, sem amor, sem vínculo certo com a humanidade, convergem-se para o único mundo que podem dominar porque conhecem bem: o da criminalidade. É a forma de conseguir pela força tudo o que lhes foi negado. É difícil para uma criança tentar racionalizar uma situação de absoluta discrepância. O não ter nada em todos os aspectos deixa um gosto azedo demais não só na boca do estômago, mas no fundo da alma também.

kid4.jpg

Aquela criança inocente de ontem, um bebê nascido com olhinhos assustados na brutalidade de uma calçada, hoje é um homem com olhos assustadores, que à todos observa e encara com reprovação, inveja, desassossego, desafeto, desprezo e, o pior de tudo, ressentimento absoluto, inabalável. Tem dentro de si uma fornalha que é alimentada ininterruptamente por implacável revolta.

Ontem foi chamado de criança de rua, indigente, coitado. Hoje é chamado de marginal, assaltante, indivíduo de alta periculosidade. Ontem os passantes desviavam para não vê-lo criança pedinte, como um ato de negar a "existência incômoda" dele. Hoje sua existência é inegável, impossível de ignorar, porque é uma sombra que aterroriza todos os lugares por onde passa. Cobiça, xinga, rouba, agride, tortura, mata sem pudores. A vida alheia não significa nada, senão recipiente de vingança, válvula de escape, bode expiatório das tantas indignações que teve que encarar e engolir à seco por anos à fio. Este homem é um ser de alma, mente e coração atormentados. Com uma arma na mão, se vê superior àqueles que o desprezam. Aqueles olhos que eram indiferentes à ele, hoje são cheios de terror, de clamor, obediência, que fazem juras de tudo oferecer, contanto que a existência lhes seja poupada. Os olhos juízes de outrora, hoje estão diante do olhar do acusado que virou acusador e proprietário da vida e da morte do outro naquele instante quando o ato de violência se instaura.

Este homem foi aquela sementinha que germinou na rachadura da calçada, diante de todas as dificuldades, mas a natureza lhe deu um empurrão. Hoje aquela semente virou uma erva daninha a qual todos tentam remediar, exterminar porque cresceu desproporcionalmente. De detalhe na rachadura da calçada virou uma plantação acima dos olhos. Virou perigo, praga, preocupação, caso de segurança pública, caso de polícia. Um monte de crianças sem importância de ontem, "os invisíveis", viraram hoje um monte de revoltosos, indivíduos que são vistos como impiedosos.

kid7.jpg

Para aquela criança na rua que nunca recebeu nem um tostão, hoje como adulta, se gastam rios de dinheiro para se defender contra elas, contra esta "invasão" dos ditos desgovernados das faculdades mentais, emocionais e morais. Quem diria que este "armagedom urbano" começou com um bebê frágil, vulnerável, nascido condenado a uma vida de absoluta aspereza e carência inimagináveis!

Não é verdade que toda criança nascida na rua irá tornar-se um indivíduo frio, cruel, intolerante e sem compaixão. Os que crescem neste meio de tantas insensibilidades e carências e conseguem romper as correntes pesadas do sofrimento, abrindo um caminho de luz e inclusão são verdadeiramente heróis, assim como os que os ajudaram. Mas, infelizmente, a grande maioria nas trevas urbanas nasceu, crescerá, viverá, se vingará e nela morrerá se nada for feito para mudar a realidade destas pessoas.

Se diz que a gente só consegue dar aquilo que teve. Quem teve amor será capaz de partilhar amor. Quem não teve nada senão dores e dissabores, dores e dissabores compartilhará. Infelizmente, predomina a leia da ação e reação, causa e consequência, doença e sintoma.

kid5.jpg

Assim, como sociedade, precisamos criar oportunidades de inclusão destas crianças, que são ou o futuro do aumento da violência urbana ou sua solução. Reformas estruturais para os adolescentes nas ruas e os institucionalizados. Uma tentativa de reabilitação para os adultos no sistema carcerário. Tirar os presos do ócio absoluto, dar oportunidades à eles de estudar, aprender um ofício, uma base de tratamento psicológico e psiquiátrico, reabilitação social e, sobretudo, humana. Tentar fazer nascer uma semente de humanidade no que nasceu e cresceu exposto à todas as carências humanas.

Vamos olhar estas crianças nos olhos, mostrar para elas olhos humanos, porque tudo o que vivem é desumano. Nosso reconhecimento da existência delas e do sofrimento delas podem ser as únicas luzes no fim do túnel que conseguirão vislumbrar. Antes que olhos assombrados virem olhos assombrosos, é preciso plantar humanidade onde ela há muito desapareceu, nas calçadas sujas, debaixo das pontes, nos semáforos, nas esquinas.

(Ilustrações Joan Eardley, Royal Scottish Academy)


Simone Bittencourt Shauy

Enfermeira por paixão. Escritora por predestinação. Ilustradora por inclinação. Mulher plural por emancipação. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// @destaque, @obvious //Simone Bittencourt Shauy