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O feminino velejando entre mundos da literatura, cinema, comportamento e atualidades.

Simone Bittencourt Shauy

Enfermeira por paixão. Escritora por predestinação. Ilustradora por inclinação. Mulher plural por emancipação.

Culpado eu? Não! Foi o político corrupto! O brasileiro e a eterna negação das próprias faltas

Político corrupto virou o bode expiatório para tudo de ruim que acontece no Brasil. Mas será que este governo não é meramente uma versão maximizada do microcosmo do comportamento do brasileiro enquanto povo?


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Nós brasileiros por anos a fio, temos nos apoiado numa muleta chamada políticos corruptos para justificar toda e qualquer situação que degrade nosso país, cultura e imagem pública.

Não há dúvida de que temos sido brindados com safras e mais safras de gananciosos, ardilosos e mentirosos governantes. Muita gente sem ética alguma, sem decência, sem apreço ao povo e ao país que governam. Isto é fato!

Mas se olharmos a situação que nos assola por um outro ângulo, temos que admitir que estes mesmos políticos não são "entidades" que vieram de outro planeta para nos governar e trouxeram com eles "valores" que desconhecemos. Não! Nossos políticos são indivíduos que nasceram e cresceram no Brasil, foram expostos à mesma cultura e costumes. São gente como a gente, talvez apenas com defeitos e faltas mais gritantes, porque eles têm "a faca e o queijo nas mãos" para tirar proveito da situação (vulgo nosso país) e são pessoas públicas que, como as celebridades, são observadas e julgadas sob a lente de um microscópio.

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O que nos falta como povo é aprender a assumir a responsabilidade sobre nossa própria contribuição para parte da degradação da sociedade como um todo. Vamos analisar algumas situações (infelizmente) corriqueiras: indivíduos que não respeitam o pedestre, sentam no banco especial do ônibus ignorando quem teria o legítimo direito de estar ocupando tais assentos, recebem o troco a mais e não devolvem o dinheiro mesmo sabendo que deveriam, que vão no país dos outros e não têm respeito pelas regras locais, estacionam em local proibido, passam na frente dos outros na fila, deixam a areia das praias abarrotadas de lixo, assim como jogam lixo nas ruas da cidade sem o menor pudor, querem sempre levar vantagem em tudo, enganam e acham que os outros são uns otários e eles os espertos, depredam patrimônio público, não têm respeito pelos idosos, fazem piada de todos e de tudo sem se importar se irão ofender alguém, etc. Agora vem a pergunta: será que estes indivíduos com tais atitudes são todos, sem exceção, políticos corruptos???

Após este apanhado de nada honráveis comportamentos, existe mesmo tanta diferença assim entre nós e os políticos que nos governam? Qual é a moral que temos para crucificá-los como ÚNICOS contraventores? A verdade é que não temos lá tanta moral assim. Tentamos negar e justificar de todas as formas possíveis e imaginárias que estes mesmos defeitos que condenamos neles não nos dizem respeito de forma alguma.

Gostamos de ser conhecidos e reconhecidos pelos estrangeiros como povo simpático, hospitaleiro, pacífico, comunicativo, educado. Queremos sempre aparecer bem na foto e ficamos torcendo para que ninguém note nossos defeitos porque temos uma dificuldade enorme de aceitar críticas. Queremos só elogios e colocamos debaixo do tapete nossas faltas como se elas não existissem. Assumimos que, contanto que os outros não as vejam, não as temos. Fica só entre nós e nossa consciência. Ai de alguém que nos critique!!! Nos inflamamos, xingamos, nos vestimos de injustiçados, criamos todos os tipos de argumentos para culpar os políticos ou o vizinho ou a História e até mesmo tentamos desqualificar aqueles que nos criticaram para continuarmos saindo ilesos das acusações, que para nós estão sempre equivocadas.

Estes políticos que apedrejamos somos nós todos os dias quando replicamos suas faltas de ética, respeito, decência nas nossas próprias ações. A diferença é que somos contraventores em escalas menores e no anonimato. É fácil projetar nos políticos tudo o que recusamos admitir em nossas atitudes erradas!

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Imaginemos uma situação na qual consigamos tirar dos cargos todos estes políticos da velha e da atual guarda e trouxermos alguém com absoluta ética e comprometimento em resolver todos os problemas nas áreas de saúde, educação, habitação e desigualdade social, por exemplo. Digamos que a corrupção, roubalheira, descaso foram extintos da essência do governo do nosso país. Será que aquele indivíduo que ocupa o lugar no ônibus que não lhe é devido, rouba no troco, engana pelas costas, joga lixo nas ruas e usa e abusa do famoso "jeitinho brasileiro" para se dar bem, irá automaticamente se tornar um cidadão com senso de civilidade e coletividade?

Quando não pudermos mais culpar os nossos governantes corruptos, será que estaremos, como indivíduos, dispostos a corrigir e admitir nossas faltas? Quando um político íntegro governar nosso país não teremos mais a muleta desta desculpa para nos apoiar justificando tudo de errado que acontece nele. Sem a muleta do político corrupto, quem iremos culpar por nossas mazelas?

A verdade é que somente teremos moral de exigir dos nossos representantes moralidade, se a praticarmos nas nossas ações do dia-a-dia, no trabalho, na escola, nas ruas, nas nossas relações, como indivíduos de uma sociedade e cidadãos de uma nação. É a mesma coisa que fazer promessa e esperar que o outro a cumpra. É muito hipócrita exigir dos outros aquilo que nós mesmos não praticamos.


Simone Bittencourt Shauy

Enfermeira por paixão. Escritora por predestinação. Ilustradora por inclinação. Mulher plural por emancipação. .
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