mulher cultura plural

O feminino velejando entre mundos da literatura, cinema, comportamento e atualidades.

Simone Bittencourt Shauy

Enfermeira por paixão. Escritora por predestinação. Ilustradora por inclinação. Mulher plural por emancipação.

Cultura selfie...

...quando os espelhos inverteram-se para o mundo de fora


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Já faz algum tempo, li uma reportagem sobre uma moça russa que resolveu fazer um selfie para mostrar aos amigos correndo o risco extremo de subir numa ponte à 9 metros de altura para obter a imagem. Acabou perdendo o equilíbrio, caiu em queda livre, tentou agarrar-se a um cabo e morreu eletrocutada por conta disto. A imagem foi conseguida, mas pelo custo altíssimo da vida dela. A imagem ficou. A vida se foi.

Fiquei extremamente chocada com a estória e me perguntando o que move alguém a arriscar a vida a este ponto, para conseguir um selfie, quando imagem é assim: acabou de ser vista, no segundo seguinte já está velha, ultrapassada, porque as pessoas já estão nutrindo a expectativa de uma mais espetacular, mais extrema, etc.

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Mas mesmo que o selfie não seja produto de uma situação de risco, o que se busca com o selfie em si, esta obsessão por se olhar e, sobretudo talvez, a de se expor à vitrine dos olhos do mundo? Narcisismo sufocado? Carência profunda? Necessidade de se ver existindo porque não se sente presente o suficiente na vida das outras pessoas? Vontade de ficar famoso? Vaidade pura e simples? Seguir porque está na moda? Porque se consegue um upgrade no "termômetro" de likes, mais popularidade e uma legião de seguidores? Pode ser tanta coisa ou pode ser, quem sabe, uma coisa só!

Na cultura das redes sociais, postar uma imagem é regra, não exceção. Sem dúvida, a imagem tem um poder imenso. A palavra por si só nos traz uma imagem também, mas temos que imaginá-la para visualizar o que existe por detrás dela. A imagem não precisa de palavras, ela tem já uma voz em alto e bom tom e um impacto imediato nos nossos sentidos.

Imagem é a alma do negócio de um anúncio publicitário. Estamos mais e mais bombardeados por elas por todos os lados, onde quer que nossos olhos possam orbitar, alcançar, viajar, se deslocar... A imagem está sempre passando um recado ou vendendo alguma coisa. Imagem é poder! Imagem é aparecer! Imagem é vender! Imagem é existir! O selfie seria uma propaganda de alguém para o mundo de fora? Que tipo de realização e reação se está buscando através dele?

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Me arrisco a dizer que o selfie, quem sabe, poderia ser o reflexo de um pedido de se ser mais gostado, mais aprovado, mais real, mais ativo num mundo de pessoas ocupadas demais, de atitudes efêmeras demais, obsessivas demais por mais e mais perfeição no que diz respeito a aparência. O selfie é aquele "espere aí pessoal, gastem um segundo, pelo menos, para me ver! Sou isto, gosto disto, vivo isto, sinto isto, EXISTO!"

Vivemos num mundo quase que patologica e pandemicamente ansioso por conta de tudo acontecer rápido demais. Tudo é sempre para ontem! Os acontecimentos viraram um trem-bala. No mundo virtual, tudo muda diante da gente na velocidade que somos capazes de clicar o botão dos nossos aparelhos eletrônicos. O que foi clicado neste segundo, no próximo chique já vai ser produto do passado, já terá a data de validade vencida. Será que por isto é preciso um selfie atrás do outro para acompanhar esta corrida desenfreada do existir sem desaparecer na poeira virtual que ela deixa?

Hoje, ao invés de só existir num caderno de recordação da melhor amiga, numa carta para alguém especial, na presença concreta diante do outro mais próximo, num álbum de fotografias de família, no que diz respeito à própria imagem pura e simples, podemos abrir nossos closets, expor nossa estante de livros, coisas que colecionamos, lugares que frequentamos, artes que produzimos, pessoas com quem nos relacionamos, hobbies que temos, todos os tipos de coisas que possuímos, oportunidades que conseguimos, até mesmo desabafos que queremos fazer e assim vai... tudo para quem quiser nos clicar ou que quisermos que nos vejam e o que faz parte do nosso mundo como indivíduos. Podemos ficar universais na nossa existência sem precisar pegarmos um avião para sermos vistos em outros lugares ou que alguém nos visite concretamente para estar dentro da nossa casa e conhecer coisas que fazem parte da nossa intimidade, para nos ver e ouvir.

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Talvez o grande problema quanto a exposição massiva de selfies seja uma faca de dois gumes. A pessoa estará exposta tanto a julgamento quando a elogios. Por exemplo, alguém acabou de colocar seu selfie nas redes sociais. Quase que automaticamente comentários começam a aparecer. Podem ser do tipo: "Nossa! Que legal", "Linda você!", "Quem me dera poder curtir uma aventura destas!" "Wow! Cara, que louco! Fantástica imagem!", etc, etc... Ao mesmo tempo, outros poderiam dizer: "Tá se achando, hein garota!!", "Nenhuma novidade! Já vi gente indo muito mais alto, muito mais longe, correndo mais risco!", "Convencida você! Não é tudo isto, não!", "Que ridículo!" E assim por diante...

À princípio, uma gama de comentários pode até mesmo fazer um bem danado para o ego. O inverso pode deixar a auto-estima de alguém em frangalhos e mesmo se desdobrar em bullying. Partindo-se do princípio de que há um componente de vaidade na exposição do selfie, julgamentos impiedosos, grosseiros, pejorativos poderiam fazer a auto-estima e auto-imagem levar um tombo, beirando a se contrair um estigma. A pessoa pode ficar marcada para os aplausos ou para as pedras arremessadas. Nos casos mais extremos, existe praticamente os "linchamentos virtuais" da imagem, da reputação, do valor de alguém!

As redes sociais são fantásticas ferramentas, mas também palco de cenários muito destrutivos. Todo mundo sabe que há comentários que são toques, elogios, conselhos, trocas de experiências, outros são carregados de preconceito, perversão, insensibilidade, crueldade. Gente que ofende o outro sem pensar nas consequências emocionais do que pode estar causando com o que escreve. Como existe o escudo de se estar anônimo por detrás de uma tela de computador, tem gente que não mede esforços para desmoralizar, machucar, desprezar e desqualificar os outros, além de reforçar ódio, racismo, preconceito e assim por diante. É preciso maturidade, consciência e, até mesmo, nervos de aço para lidar com esta enxurrada de despautérios. Pode ser, por vezes, realmente um terreno da mais alta periculosidade, infelizmente. Não é todo mundo que usa esta ferramenta para construir relacionamentos, para desejar bem aos outros, para festejar junto, partilhar junto, rir junto, aprender e ensinar junto, etc, etc.

Por detrás do mundo virtual existe um mundo real, com pessoas reais. A internet, de certa forma, poderia ser o avatar de cada um, porque a gente se desloca neste mundo cibernético, estando de corpo ausente. Estamos vivendo vidas dentro da rede sem estar concretamente dentro dos acontecimentos. Esta vida em paralelo, nos permite sermos personagens, atores, comunicadores, aprendizes, professores, modelos, artistas, até mesmo celebridades de momento, dependendo em que estamos engajados. Tem gente que gosta de fazer rir, outros chorar, outros pensar, outros chocar, outros fascinar, outros polemizar, outros degradar. É um universo de incontáveis possibilidades de se conjugar seja qual for o verbo.

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O selfie pode ser um passaporte para a gratificação imediata ou para a degradação instantânea.Todos nós temos vaidade. Eu, por exemplo, sou escritora, assim tenho a vaidade de um escritor. A minha vaidade está focada na minha escrita espargida pelo mundo. A vaidade de partilhar o que penso, fazer a ponte com quem lê, aprender com meus leitores e deixar minhas palavras velejando por aí. Tem gente que tem a vaidade de expor-se a partir da própria imagem veiculada e assim vai... Quem não gosta de ser elogiado que atire a primeira pedra!!

Enfim, não sou antropóloga, nem socióloga, nem psicóloga, mas me interesso em parar para pensar sobre o que acontece na sociedade e nos comportamentos das pessoas como indivíduos. Esta questão do selfie se tornou uma coisa tão impossível de ignorar, que está sempre me fazendo refletir a respeito. Acho que na ânsia de encontrar respostas, me vejo num mar de perguntas.

Mas devo confessar que a minha preocupação é sempre com os fenômenos sociais que possam causar um impacto emocional no indivíduo, para o bem ou para o mal. A questão do selfie ficou tão, mas tão difundida após este acesso global à tecnologia, que virou um fenômeno cultural. É surpreendente a quantidade de significados e outros fenômenos que advém deste exercício de se fazer existindo num veículo de comunicação, numa sociedade gigantesca e diversa que é a cibernética. Sempre torço para que, desta cultura, mais corações se alegrem do que sejam quebrados.

Cuidado aí com os selfies mais radicais, pessoal!! A vida tem que ter sempre mais valor do que uma imagem. Fotografia a gente pode produzir um monte, mas vida a gente só tem uma!

Obrigada pela leitura!


Simone Bittencourt Shauy

Enfermeira por paixão. Escritora por predestinação. Ilustradora por inclinação. Mulher plural por emancipação. .
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