Simone Souza Dreher

Psicóloga, Mestre em Educação e em constante atualização de viver. Fascinada pela natureza, fiz da fotografia um hobbie para registrar sua beleza. Investidora convicta no desenvolvimento de potencial humano, ou seja, eu acredito que somos melhores do que parecemos ser.

O Pintassilgo

O que um pássaro acorrentado num poleiro pode nos ensinar sobre a vida? Como a literatura pode nos levar a entrar em contato com a dor e o autoconhecimento, e o quanto precisamos aprender a lidar com grandes emoções e, mesmo assim, seguir em frente.


Li nestas férias um romance da autora Donna Tartt (vencedora do prêmio Pulitzer) chamado O Pintassilgo (2014). O nome do livro faz referência a uma pintura de um artista holandês chamado Carel Fabritius (1622-1654), que era discípulo de Rembrandt e mestre de Vermeer. Faleceu numa explosão aos 32 anos. A tela está exposta no museu Mauritshuis, em Haia - Holanda (após o sucesso do livro, o quadro passou a ser um dos mais procurados no museu).

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A história é narrada pelo personagem principal Theo Decker dos 13 até seus 27 anos, a trama se inicia com um atentado terrorista que acontece no Museu Metropolitan (NY), onde Theo e sua mãe estavam. A tragédia leva à morte de sua mãe, e dá início ao envolvimento de Theo com a famosa pintura do Pintassilgo, da qual ela tinha um grande apreço.

O livro explora as dores do ser humano, principalmente as perdas em nossas vidas, e da forma que acabamos por vezes cambaleando dentro da nossa própria existência.

O enredo segue com personagens que vão adquirindo grande importância para a vida de Theo e que o acompanham até o final da trama, praticamente todos eles com um mal que assola a humanidade nos dias atuais os "transtornos mentais" tais como: TEPT (Transtorno pós-traumático), depressão, bipolaridade, alcoolismo e as drogas.

Além da profundidade que a autora consegue discorrer sobre as vicissitudes da alma humana, o que me chamou a atenção foi a saga que acompanhou Theo e a tela do Pintassilgo. Ele se manteve ligado a ela (a pintura era a última lembrança de sua mãe ainda viva) e isso o levou a cometer muitas loucuras e e ter grandes sofrimentos, tornando-o prisioneiro da sua própria vida. Seu apego a tela, aconteceu da mesma forma que nós em muitos momentos nos apegamos e protegemos nossas últimas lembranças de entes queridos que já se foram ou de alguma situação ou época de nossas vidas em que nos sentíamos felizes e plenos. Nos agarramos tal e qual a uma tábua de salvação.

A trama mostra o quanto isso é em vão, as lembranças e a (falsa) segurança de guardar algo, pode em muitas circunstâncias nos aprisionar e impedir de seguirmos com a vida.

Falo das imagens que salvamos em nosso HD mental, por exemplo: éramos felizes naquela época ou com aquela pessoa ou naquele emprego, cidade ... Penso que ao gastarmos energia e tempo para preservar tais lembranças (às vezes a deixamos até mais bonita do que realmente foi) acabamos por abandonar o aqui e agora do que de fato estamos vivendo.

E quando prestamos atenção na pintura tão famosa do "Pintassilgo" percebemos que ele está acorrentado em seu poleiro. Significativo não é mesmo?

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Quem tem o hábito da leitura sabe o quanto nos sentimos órfãos dos personagens que nos acompanharam por alguns dias, eu pelo menos fico pensando nas alegrias, tristezas e angustias de cada um, talvez por me identificar, solidarizar e por vezes tenho a certeza que já convivi com muitos deles. Embora seja um romance, o livro estaria melhor classificado como um drama... Drama da vida real, onde a solidão é expressa de uma forma tão intensa que mexe com as nossas próprias dores da existência.

A autora não criou nem mocinhas e nem bandidos, ali não havia ninguém para ser salvo, pois cada um estava a sua maneira tentando sobreviver. Para mim esse é o real segredo da vida.

O livro me trouxe essa verdade de uma forma tão declarada que num primeiro momento me deixou um pouco desolada, pois inconscientemente ou conscientemente eu queira ver alguém salvando Theo ou dando sentido para a vida daquele pobre ser humano.

Mas não... Cada um de nós está acorrentado à própria vida, ninguém pode salvar ninguém. O Pintassilgo, esse sim foi colocado lá por alguém, mas será que sendo livre conseguiria sobreviver? E quando temos a impressão de que alguém nos acorrentou, será que não permitimos? Quais ganhos secundários temos com nossa prisão psíquica e às vezes até física quando nos sentimos presos a alguém ou alguma situação?

Theo acabou (ou iniciou) sua jornada descobrindo o mundo sozinho. Continuou com todos os seus fantasmas, ninguém o salvou, até porque algumas de nossas dores vão nos acompanhar até o último suspiro. E este é o mistério da vida...

Estamos presos de alguma forma as nossas histórias: de abandono, de alguém que não existe mais em nossas vidas, de um amor não correspondido, de um trabalho que não é mais desejado, e tantas outras... Às vezes a corrente é pesada demais outras ela é tão leve que nem percebemos... Mas ela é limitadora... Ela está ali para nos lembrar de que a dor existe... Que iremos sofrer, que estamos sozinhos para resolver questões íntimas da nossa vida, que depende só de nós para sermos quem queremos ser.. E que sim, a dor não é uma escolha, mas passar a vida em sofrimento é...

Desejo que nossos Pintassilgos possam voar o quanto tiverem fôlego, que se permitam pousar e apreciar sua jornada, e que possam se desvencilhar da maioria das correntes e que a outras... As aceite...


Simone Souza Dreher

Psicóloga, Mestre em Educação e em constante atualização de viver. Fascinada pela natureza, fiz da fotografia um hobbie para registrar sua beleza. Investidora convicta no desenvolvimento de potencial humano, ou seja, eu acredito que somos melhores do que parecemos ser..
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