mundo aleatório

Sobre qualquer coisa

Bruna Castelo Branco

Estudante de jornalismo. Por enquanto, é só isso

Sobre narcisismo, Cisne Negro e Andressa Urach

Em tempos de internet, beleza, amor, ódio, loucura e o exagero podem ser o final mais óbvio para aqueles que almejam o conceito de perfeição. Nina Sayers, protagonista de Cisne Negro e a famosa brasileira Andressa Urach fazem parte de uma geração de pessoas dominadas pelo narcisismo – cada uma à sua maneira.


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Era uma vez um lindo jovem, o mais belo de todos os belos, chamado Narciso. Quando Narcisinho nasceu, filho do deus do rio Céfiso e da ninfa Liríope, recebeu um conselho que, caso fosse desobedecido, poderia trazer resultados fatais. Aos pais preocupados, o Oráculo Tirésias disse: “O menino terá uma vida longa, caso nunca veja a própria imagem”.

Narciso cresceu, floresceu e despertou a paixão entre todos os que o viram, sem distinção de sexo – até as ninfas sumcubiram a beleza incrível e, uma a uma, foram todas rejeitadas, também sem distinção. Narciso era tão belo quanto insensível e arrogante e, a exemplo de todos os outros, também se apaixonou. Por si mesmo.

Vamos resumir um pouco a história: amaldiçoado pela deusa Nêmesis, Narciso apaixonou-se por si próprio. Sem conseguir parar de olhar a própria imagem refletida na lagoa de Eco, o jovem mais belo que já existiu definhou – de fome e sede, diga-se – olhando para si mesmo. E fim. Há boatos de que, mesmo depois de morto, Narciso continuou a tentar se ver nas águas do rio Estige, no reino de Hades.

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O mito do espelho de Narciso foi contado e recontado de maneira tão contundente que seu nome gerou um termo, o narcisismo, que consiste na obsessão por si ou pela própria imagem. Quando em demasia, o narcisismo chega a ser classificado como um problema psiquiátrico.

O filme Cisne Negro (Black Swan, em inglês), dirigido pelo estadunidense Darren Aronofsky, problematiza – mesmo que sem intenção – a questão do narcisismo e sua consequente auto-destruição. Diferentemente de Narciso, a protagonista Nina Sayers, vivida por Natalie Portman, não vive uma relação de amor consigo mesma – e sim de ódio e (muito) medo. Nina vive uma árdua e cansativa guerra psicológica contra si mesma. Bailarina em uma companhia novaiorquina, tudo o que ela quer, e apenas isso, é ser perfeita, e esta perfeição consiste em ser magra o suficiente, bonita o suficiente e boa o suficiente para o balé. E não só para o balé, mas para incorporar o cisne branco e o vilão – o cisne negro.

A jovem bailarina, tal qual Narciso, em sua obsessão por si mesma, se desconecta do mundo real e passa a viver em uma realidade assombrosa. Seus dias somem e sua vida vira uma noite eterna, assim como a própria fotografia do filme: predominantemente escura e com cenas sempre noturnas. O medo de suas limitações físicas e psicológicas fazem Nina entrar em um ciclo obsessivo em que é impossível chegar a um fim lógico. O único final que esta história pode ter, sabemos qual é: o mesmo que acometeu Narciso. Apenas o fim.

Nina cria um lema para si mesma, que repete sem parar durante todo o longa-metragem: “Eu preciso ser perfeita”.

Mas, Nina, vamos ser francos: a perfeição foi feita para nunca ser alcançada. Quando a perfeição almejada é atingida, ela deixa de ser perfeita, simplesmente porque o ser-humano é todo errado. Não há saída. A única maneira de chegar ao ideal de perfeição seria abdicar da forma humana – e, veja só! É exatamente isso o que Narciso e sua companheira Nina fazem. Deixam de ser humanos.

Ela atinge alguns segundos de glória infita e, contente, reconhece: “Eu consegui. Eu fui perfeita”. E depois, acabou. Para quem não viu o filme, vou explicar: depois de se flagelar fisicamente e até desenvolver anorexia, a perturbada personagem principal consegue ser boa o suficiente para viver o cisne branco e o cisne negro. Mas, essa auto-destruição física leva Nina a um colapso psicológico que, sem nem mesmo perceber, faz com que ela entre em uma luta contra si. Repetindo a fábula original, cisne negro destrói sua gêmea, o cisne branco, como Nina sucumbe a si mesma. As duas personalidades – a primeira, fraca e insegura e a segunda, determinada e aterrorizante – de Nina são os próprios personagens a quem deu vida com a dança. E, depois de fazer uma apresentação perfeita, desfalesce sob aplausos.

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E, novamente, repito: assim como Narciso, Nina se extingue. E a dupla N&N não está sozinha.

Eu sei que ninguém aguenta mais esse assunto – muito menos eu. Mas em tempos de Facebook, Instagram e Snapchat, é impossível não falar sobre a indústria da imagem. E, ao falar sobre a indústria da imagem, não há como não problematizar a indústria da beleza. E também não dá para falar sobre indústria da imagem e da beleza sem citar o maior exemplo de como o narcisismo e ódio e amor ao próprio corpo pode ser auto-destrutivo: sim, precisamos falar sobre Andressa Urach.

Assim como Narciso, o primeiro dos primeiros, e Nina, a pobre bailarina, Andressa Urach, modelo, apresentadora e ex-vice-Miss Bumbum se deixou sucumbir pela auto-obsessão. Mas Andressa tem um diferencial entre os dois primeiros: ela se ama e se odeia ao mesmo tempo.

Odeia porque tenta mudar cada centímetro de seu corpo a um ponto que pode ser até classificado como loucura. E também ama cada parte modificada, que, depois de algum tempo, precisará ser transformada novamente para que amor próprio continue. Como a perfeição é inalcansável, nem os 500ml de hidrogel são o limite. Em tempos em que amores e ódios são ilimitados, chegar ao extremos em qualquer um deles só pode – sem querer ser pessimista, mas já sendo – levar a um final: a tragédia.

E eis que, para concluir, chegamos a uma conclusão: perfeição é um conceito, e não uma realidade. Se perfeição fosse realidade, não seria perfeição. Nina, Narciso e Andressa descobriram isso – da pior forma possível.


Bruna Castelo Branco

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