mundo aleatório

Sobre qualquer coisa

Bruna Castelo Branco

Estudante de jornalismo. Por enquanto, é só isso

A Bela Adormecida na era do amor virtual

Aurora, princesa da Bela Adormecida e Annie, protagonista do filme Confiar, dirigido por David Schwimmer e lançado em 2010, descobriram juntas que a vida é o maior (e talvez mais triste) espetáculo do terra. Em um momento histórico em que crimes e amores virtuais podem ser confundidos e as redes sociais nos impõe uma auto-exposição muitas vezes excessiva, hoje podemos ser compartilhadores de conteúdo – e talvez amanhã, ele próprio.


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Aurora tinha 15 anos quando, durante um sono profundo, foi estuprada e, nove meses depois, teve dois filhos gêmeos. A moça, então, foi levada para morar com o rapaz até que descobre que o pai de seus filhos e estuprador era casado. A esposa dele, depois de se indignar com o fato de ter que conviver com a amante e os filhos em sua própria casa acabou sendo assassinada pelo próprio marido, e, finalmente, Aurora se casou com aquele que, além de estuprador e pai, também era rei.

“O rei, acreditando que ela dormia, chamou-a. Mas, como ela não voltava a si por mais que fizesse e gritasse, e, ao mesmo tempo, tendo ficado excitado por aquela beleza, carregou-a para um leito e colheu dela os frutos do amor, e, deixando-a estendida, voltou ao seu reino, onde por um longo tempo não se recordou mais daquele assunto”.

Parece uma história saída de uma notícia de um veículo de imprensa sensacionalista, mas, na verdade, é o conto “A Bela Adormecida”, escrito originalmente pelo francês Perrault, publicado em 1636.

A história de Aurora, amenizada e então adaptada ao cinema pela Disney em 1959, é bastante parecida com outra história de ficção. De Aurora vamos para Annie Cameron, de 1636 para 2010, e da França para Chicago, nos Estados Unidos. Annie tem 14 anos e ganha de presente de aniversário um MacBook – e, junto com ele, o acesso a todas as redes sociais presentes na internet. Um dia, a menina resolve entrar em uma sala de bate-papo, onde acaba, quase como Aurora, conhecendo o seu príncipe: Charlie. Annie e Charlie iniciam um relacionamento virtual e mesmo após as pequenas mentiras que a jovem vai descobrindo sobre a sua nova paixão (como, por exemplo, a idade), as conversas não acabam e finalmente chega o grande dia em que Annie e Charlie se conhecem pessoalmente.

E é aí que vem a grande surpresa: a jovem descobre que, na verdade, o seu grande amor é um homem de 40 anos, e, como Aurora, cai em um sono profundo de um século. Adormece porque, te dão decepcionada, traída, e humilhada, Annie entra em um estado de negação tão irreprimível que passa achar que, ao ser obrigada a fazer sexo com um homem que mal conhecia, não foi estuprada. Adormece porque não consegue lidar com o próprio medo de ter se envolvido e acreditado em alguém que, durante todo o tempo, mentiu e manipulou todas as informações sobre si mesmo – e ela acreditou em tudo. Adormece porque sente vergonha. Adormece porque já havia contado a todos os amigos como um jovem universitário de 19 anos estava apaixonado por ela, uma adolescente que mora em uma região suburbana de Chicago. Adormece porque não consegue lidar com toda a pressão psicológica que um estupro pode causar a uma mulher, e também porque não sabe conviver com o desespero de seus pais. Annie, como Aurora, adormeceu em uma Síndrome de Estocolmo (Transtorno em que a vítima cria uma relação de dependência com seu agressor) e não percebeu que dormiu. Annie é a Bela Adormecida do século XXI. Annie é a Bela Adormecida que dormiu em uma conversa de bate-papo e não conseguiu acordar depois de um estupro. Annie e Aurora são quase uma só.

A história continua quando uma amiga da protagonista descobre o acontecido e, indo de encontro à vontade de Annie, conta aos seus pais até que o caso vai parar na FBI. Durante a investigação, a polícia descobre que o estuprador de Annie já havia cometido o mesmo crime diversas vezes, todos com meninas com o mesmo biotipo e idade aproximada, e, além desses elementos, todos os crimes tinham um fator essencial em comum: começaram na internet.

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Os crimes na internet (ou cibercrimes) foram ganhado cada vez mais espaço com o aumento do acesso das pessoas às redes sociais. Por conta da rapidez da propagação de conteúdos na internet, com a possibilidade escrever qualquer coisa, sobre qualquer assunto e disponibilizar para qualquer um que tenha o interesse de ler, a exposição torna o acesso a informações e dados que deveriam ser pessoais, bem mais fácil.

Porém, não devemos enxergar a situação de maneira catastrófica e nem ter medo de usar a rede ou compartilhar imagens, mas, é importante a noção de que não existem crimes virtuais e crimes “reais”: o que há são crimes que começam a partir de informações coletadas na internet. Essa é a grande diferença entre Aurora e Annie: a segunda foi descoberta pelo seu agressor a partir do “meio virtual”.

Os crimes virtuais que geralmente ganham mais notoriedade são aqueles que envolvem pessoas famosas em momentos íntimos. No ano passado ficou famoso o caso da atriz Jennifer Lawrence, que teve fotos suas nua “vazadas” mais de uma vez. A atriz chegou a declarar que quem viu e compartilhou as imagens estão, também, cometendo um crime sexual e virtual.

Essa obsessão geral em ver e compartilhar imagens de celebridades em situações de constrangimento, além de ser milenar – afinal, a fofoca nasceu com o ser humano – pode ser explicada pela ideia de sociedade da vigilância: em que, a partir dos aparatos tecnológicos e da facilidade de comunicação, eu vigio você, você me vigia, e nós vigiamos todos. Na Sociedade do Espetáculo, em que a imagem é a grande rainha e nós somos seus mais fiéis súditos, quem não se divulga chega a ser visto como sem vida social, sem amigos: quase inexistente. O espetáculo exige a espetacularização de fatos e até comer pode se tornar uma atração. É importante reiterar que não se deve levar isso como algo negativo ou pensar que antes das tecnologias os seres humanos eram melhores: o que existe hoje é apenas uma nova forma de vida, nem melhor nem pior, e sim diferente. Diferente porque atualmente a espetacularização se torna mais fácil com as tecnologias de comunicação, e, antigamente, a espalhar notícias próprias era um pouco mais difícil.

Os reality shows são uma das maiores formas de expressão da Sociedade do Espetáculo, termo e conceito propostos pelo filósofo francês Guy Debord: há realitys de culinária, música, moda, mas os mais famosos e adorados pela população são aqueles que envolvem celebridades, como o Big Brother, A Fazenda, Casa dos Artistas – enfim.

Uma serie de ficção recente trouxe esse tema, mas levado ao extremo: a trilogia de livros (que estão sendo adaptados para o cinema) Jogos Vorazes narra um mundo distópico em que uma Capital, poderosa e rica, tem o domínio e exploração sobre 12 distritos sem autonomia alguma. Em Jogos Vorazes, o dito 4º poder (a imprensa) é, na verdade, o 1º, já que a maior força do governo da Capital está na mídia e nas imagens. E, para controlar e governar essa sociedade excessivamente imagética, os governantes criaram um reality show chamado Jogos Vorazes, em que jovens com idades entre 12 a 18 anos são mandados para a “arena”, que funciona como o estúdio do programa, onde precisam lutar até que todos morram – menos o vencedor. A filosofia de vida da Sociedade do Espetáculo é tão visivel na história ao ponto de que, mesmo sabendo que estão condenados à morte, os jovens que participam dos jogos fazem questão de estar sempre bem vestidos, arrumados e fotogênicos: e, como no Big Brother Brasil, os bonitinhos e atraentes são sempre mais queridos, pelo menos inicialmente – e o regojizo da sociedade em ver aqueles bonequinhos-de-luxo se assassinando até o fim (das vidas de cada um) mantém a Capital feliz, empolgada e abastecida. O fim da vida de várias pessoas é o que alimenta a vida de muitas outras. E isso não está tão distante da nossa sociedade atual.

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Afinal de contas, do que vivem os veículos de comunicação sensasionalistas, que exploram a morte, violência, e miséria alheia de populações carentes, e, por isso, conseguem um público e audiência sempre estarrecedoramente grandes? Qual é a grande diferença entre os reality shows atuais e os Jogos Vorazes? Geralmente, quanto mais conflitos acontecem entre os participantes dos programas, maior a audiência. O interesse humano pelas tragédias, na verdade, vem de tempos bem remotos, e um grande exemplo da antiguidade é o Coliseu e as batalhas entre pessoas e lões. A Sociedade do Espetáculo foi ontem, é agora, e será amanhã. Viver um espetáculo é basicamente um instinto humano.

Aurora, 1636, e principalmente Annie, 2010, foram influenciados por esse modo de vida: a primeira, foi viver com o seu algoz para esconder as marcas do estupro e por medo de não ser aceita pela sociedade (do espetáculo) por ser mãe solteira de filhos gêmeos – e a segunda se afastou de todo o seu círculo social por ter sido julgada e discriminada por ter pelo envolvimento com um pedófilo. A cada dia, novas Auroras e Annies surgem em algum lugar do mundo: sex tapes, fotos íntimas e conteúdos são espalhados por aí e o mundo se retro-alimenta – nós sobrevivemos.

O espetáculo é preciso, e, mesmo sem notar, todos fazemos parte do show. É possível ficar na plateia e comentar, fotografar e compartilhar imagens do acontecimento. Um passo a mais, e chegamos ao palco.


Bruna Castelo Branco

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