mundo aleatório

Sobre qualquer coisa

Bruna Castelo Branco

Estudante de jornalismo. Por enquanto, é só isso

A estética da melancolia: por que o triste é tão belo?

Não há problema em preferir músicas tristes a felizes, imagens acinzentadas a uma explosão de cores ou os filmes dramáticos e depressivos de Lars Von Trier aos sempre coloridos longas de Wes Anderson. Não há erro em querer expressar a tristeza ou admirá-la como uma forma de arte. Não é errado ser: o “problema” é quando um sentimento real e presente passa a ser representado como algo “cool”. O refrão “I’m pretty when I cry” de Lana Del Rey resume toda essa ideia: afinal, sentir a dor é importante – forçar a dor que não se sente é a questão.


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Pensamentos melancólicos, vielas em tons de cinza e histórias tristes vêm deixando de ser um tabu que caracteriza “pessoas depressivas” e ganhando espaço e força de expressão. Filmes de Lars Von Trier como “O Anticristo” e “Melancolia” e musicistas como Lana Del Rey legitimam a beleza, leveza e liberdade em poder, de uma vez por todas, sentir-se triste sem precisar de desculpas e explicações contínuas, aprisionadoras e torturantes.

A quem queremos enganar? Filmes em preto e branco e melodias tristes causam uma sensação de introspecção únicas e libertadoras. O antes insondável mundo de tudo o que as pessoas eram proibidas de falar – a não ser que estivessem em um consultório psiquiátrico –, veio à tona e atraiu muitos olhares. Até demais. Depois de pensar sobre o assunto, cheguei a uma questão: até que ponto a admiração pelo introspectivo e melancólico é real ou forçada?

Recentemente, uma pesquisa alemã encabeçada pelas cientistas Liila Taruffi e Stefan Koelsch apontou que músicas tristes são mais agradáveis aos ouvidos e podem até deixar o ouvinte mais alegre. Para chegar a esse resultado, as pesquisadoras entrevistaram 772 pessoas de todo o mundo para descobrir com que frequência e em quais momentos costumam ouvir músicas tristes, e fizeram a seguinte pergunta: “depois de ouvir essas canções, como você se sente?” Eis as respostas: paz de espírito, transcendência, reflexão, nostalgia e até ternura. Ainda segundo o estudo, em quase todos os casos, as pessoas buscam músicas tristes quando estão passando por algum problema emocional ou se sentem solitárias: “Os ouvintes escutam essas músicas quando experimentam algum estresse emocional, para facilitar a espantar emoções negativas”.

A questão se transformou em um problema quando estar triste se transformou em algo “cool”. Quanto mais postagens depressivas fazemos em redes sociais, mais inteligente e reflexivos parecemos. O Instagram recebe muitas críticas por maquiar uma suposta alegria que, em quase todos os casos, é apenas passageira: é muito fácil vestir uma roupa legal, ir a uma pizzaria e publicar uma foto como se o mundo fosse mágico e você fosse eternamente alegre. Mas, também é muito fácil publicar uma foto subjetiva em preto e branco ou em cores mortas para conotar uma depressão e melancolia que, em muitos casos, não são reais. Passam longe disso.

O gosto pelo depressivo e pelo obscuro é muito interessante, mas não muito difícil de desmistificar. Em um momento em que é moda exibir imagens alegres, a moda contrária nasce e ganha centenas de adeptos: afinal, não há claro sem escuro, liberdade sem prisão e felicidade sem tristeza. A necessidade de remar contra a maré – ou seja, contra milhares de fotos lotadas de sorrisos – é tão óbvia quanto a necessidade de remar a seu favor.

Em contrapartida à alegria, a tristeza traduz uma ideia de pensamentos pesados e reflexões profundas. E, por isso, é tão apalatável e esteticamente interessante ser socialmente triste: além de criar uma aura misteriosa, a pessoa “soa” mais inteligente, diferente e interessante. Quando Lana Del Rey canta “I’m pretty when I cry” (eu fico bonita quando choro), resume toda essa ideia: a tristeza causa uma sensação de beleza e vício tão fortes que, uma vez sentindo e expondo, vira um ciclo.

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Quando Lana Del Rey canta “tell me life is beautiful, they think that I have it all” (diga-me que a vida é bonita, eles pensam que eu tenho tudo), ou “yet still inside I felt alone, for reasons unknown to me” (ainda por dentro eu me sinto sozinha, por razões desconhecidas por mim), ela fala sobre a importância em sentir a dor e a tristeza quando for preciso, sem obrigação de mascará-la. Não é vergonha estar triste ou preferir ser solitário – são sentimentos tão legítimos e importantes quanto a extroversão e a alegria são.

Ouvir músicas, ler textos, ver obras de arte e assistir a filmes tristes em momentos de tristeza trazem a sensação de que alguém entende nosso sofrimento. Mas, forçar qualquer sentimento, seja ele qual for, para passar uma imagem, também seja ela qual for, só faz aumentar os tabus sobre essas emoções. A liberdade de sentir e poder expressar o que realmente sente é uma grande conquista – que ainda não foi conquistada por completo.

Enxergar o mundo de forma pessimista e ver o copo meio vazio ao invés de meio cheio não é errado. O aprisionador é demonstrar uma alegria forçada – ou uma tristeza mais forçada ainda.


Bruna Castelo Branco

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