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Sobre qualquer coisa

Bruna Castelo Branco

Estudante de jornalismo. Por enquanto, é só isso

Morrer não é uma escolha

Sobre o suicídio assistido, Brittany Maynard, convenções religiosas e as leis que regulamentam a vontade de viver – ou morrer. Impedido de cometer suicídio pelas autoridades de Goiás, o Solitário Anônimo deixou um questionamento e uma afirmação: “se o ser-humano tem o direito à vida, por que não pode decidir deixá-la? O futuro é uma hipótese”.


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Brittany Maynard tomou uma decisão que incomodou muita gente.

A história chegou ao Vaticano, que julgou o caso como algo absurdo e condenável. “Não julgamos as pessoas, mas o gesto em si é condenável”, exclamou o bispo Dom – sim, é verdade – Carrasco de Paula.

Brittany, psicóloga estadunidense de 29 anos, virou notícia em todo o mundo quando decidiu que queria morrer. A moça contou que não foi uma decisão fácil, é claro. Levou tempo e muita dor de cabeça para chegar à tão absurda escolha.

E quando digo dor de cabeça, não é em um sentido conotativo. Em 2013, Brittany começou a sofrer fortes dores de cabeça, ao ponto de impedi-la de realizar atividades cotidianas simples. Recém-casada, teve que se submeter a vários exames até que os médicos chegaram a uma sórdida conclusão: a moça tinha um câncer cerebral agressivo, o glioblastoma, e iria morrer dentro de dez anos. Brittany passou por duas cirurgias para retardar o seu tempo mas, depois de passar por novos exames, os médicos deram outra notícia – na verdade, uma bofetada: “você tem mais seis meses de vida”. Simples assim.

A jovem anunciou a decisão de praticar suicídio assistido para a sua família e contou que recebeu apoio. “Depois de meses de pesquisa, minha família e eu chegamos a uma conclusão dolorosa: não existe um tratamento que possa salvar a minha vida, e os tratamentos que me foram recomendados destruiriam o tempo que me resta” comentou em um artigo que escreveu para a CNN. O câncer terminal iria deteriorar o seu corpo de tal forma, segundo os médicos, que Brittany teria de passar os seus últimos dias em uma cama de hospital. Mas ela escolheu morrer de um jeito diferente: em sua própria cama, no estado do Oregon.

O Oregon é um entre os cinco estados norte-americanos em que o suicídio com a assistência de médicos é permetido por lei. Brittany, residente do estado da Califórnia, teve que se mudar para que tivesse o direito de fazer valer a sua escolha. E assim o fez.

Para auxiliar e compartilhar as suas experiências com outras pessoas com o mesmo desejo, Brittany gravou uma serie de depoimentos para a Compassion & Choices, uma entidade sem fins lucrativos que pressiona as autotidades dos Estados Unidos a legalizarem a eutanásia. “Quando eu precisar, sei que estarão aqui”, disse a moça enquanto exibia as pílulas para a câmera: “Fico aliviada por agora ter a opção de morrer pelos meus próprios termos”.

A história de Brittany pode ter sido muito noticiada, mas não ela, obviamente, não é a única.

Com um bilhete guardado, o Solitário Anônimo, como se auto-denomina, chegou ao Hospital de Goiânia com um único desejo: morrer. O documentário que mostrou o sofrimento que a legislação brasileira impôs ao senhor idoso que, certo dia, decidiu parar de comer para morrer, de Débora Diniz, retrata o quão desrespeitoso um Estado pode ser com alguém que, por decisão própria, preferiu abdicar da própria vida. O homem é obrigado a se alimentar por aparelhos enquanto apresenta aos telespectadores um simples e extremamente delicado paradoxo: “se o ser-humano tem o direito à vida, por que não pode decidir deixá-la? O futuro é uma hipótese”.

Brittany Maynard anunciou que a data de sua morte seria primeiro de novembro de 2014. Quando a data começou a se aproximar, a psicóloga fez um vídeo em que declarou estar nervosa com a possibilidade de não acordar mais, o que, sem querer, acabou dando força aos comentários contrários à sua atitude. Um blogueiro estadunidense, Matt Walsh, aproveitou a oportunidade e a aparente fraqueza de Brittany para comentar o caso, acusando-a de ser porta-voz – palavras dele – do suicídio. “Fico aterrorizado ao pensar que meus filhos crescerão em uma cultura que venera abertamente o suicídio, com tanta paixão”. (É sério, Matt?)

A jovem pôs em cheque a sua própria decisão, mas a fraqueza era apenas aparente. Brittany morreu na madrugada de primeiro de novembro, acompanhada por familiares, como havia decidido.

A médica e antropóloga Rachel Aisengart Menezes, sobre o caso, opinou que “prolongar a vida com recursos tecnológicos pode significar um afronta aos direitos humanos”. Para a antropóloga, o medo de discutir a morte e a eutanásia no Brasil retrata o quanto o país ainda precisa amadurecer em temas considerados tabus e a força da cultura influenciada por uma moral judaico-cristã.

A escolha de Brittany, certamente, não foi fácil. Mas, ainda de acordo com o bispo Dom Carrasco de Paula, “a dignidade é uma coisa diferente de acabar com a própria vida”.


Bruna Castelo Branco

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