mundo aleatório

Sobre qualquer coisa

Bruna Castelo Branco

Estudante de jornalismo. Por enquanto, é só isso

A espera de Estamira

"Tudo o que é imaginário tem, existe, é".


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Loucos somos nós.

Estamira morreu aos 70 anos, em 26 de novembro de 2011, depois de passar dois dias esperando em uma fila para ser atendida por uma infecção, que logo se generalizou e levou a sua vida embora.

Decidi começar este relato com a morte retratar melhor como foram os seus 70 – curtos – anos: solitária e esperando. A vida de Estamira pode ser caracterizada como um grande hiato: esperou Deus, que nunca veio, esperou o amor de um marido por qual era apaixonada, esperou compreensão – esperou à míngua.

Estamira foi estuprada pela primeira vez quando ainda era moça. No documentário dirigido por Marcos Prado e lançado em 2005, ela relembrou o fato: contou que gritou, chorou e chamou por Deus. Seu estuprador, muito esperto, apenas respondeu: ele não virá.

A partir desse dia ela parou de acreditar em Deus.

Ainda muito jovem, casou-se com um italiano e teve três filhos, duas meninas e um menino. Tempos depois, o marido passou a levar amigas para casa e desaparecer por dias. Estamira disse que sempre soube aquelas mulheres eram suas amantes. Mas, como mulher, e há 50 anos, o que poderia ser feito? Ela novamente se calou.

Estamira se calou por tanto tempo que, quando resolveu começar a falar, foi chamada de psicótica. Já depois de idosa, abandonada pelo marido e pelos filhos, começou a trabalhar no aterro sanitário de Jardim Gamacho, local que recebe os resíduos produzidos na cidade do Rio de Janeiro. “Eu trabalho aqui porque gosto” disse para as câmeras no documentário que levou o seu nome.

O aterro era a sua segunda casa, por mais clichê que o termo “segunda casa” seja. Lá, ela tinha a companhia que jamais sequer imaginou que poderia ter. Os seus filhos lamentavam a loucura da mãe, “é preciso tirá-la de lá, mas ela não quer sair”. O lixão era a sua principal válvula de escape.

Estamira também não gostava muito que questionassem a sua relação conflituosa com o Deus que, para ela, não existe. “Deus está no seu cu?” perguntou ao neto, depois de tentar ensiná-la sobre a sua presença onipresente e onipotente. “Deus nunca chegou”.

A idosa foi diagnosticada como portadora de distúrbios mentais e teve que tomar remédios durante muitos anos para tratar o problema.

Ela pode ter distúrbios mentais, mas nunca foi louca. Ela não é louca por duvidar das instituições criadas pelo ser humano e que falharam durante toda a sua vida – a igreja, a família, e Deus –. Ela não é louca por preferir passar o tempo trabalhando para evitar pensar em todas as tristezas mórbidas pelas quais foi obrigada a passar. Ela não é louca por revelar toda a sua história para os ditos sensatos da sociedade. Loucos somos nós.


Bruna Castelo Branco

Estudante de jornalismo. Por enquanto, é só isso.
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