mundo aleatório

Sobre qualquer coisa

Bruna Castelo Branco

Estudante de jornalismo. Por enquanto, é só isso

Simone de Beauvoir e o peso do tempo

De aniversário em aniversário, Natal em Natal e Réveillon em Réveillon, quem nunca parou para pensar: "mas já? Passou tão rápido". Em "Mal-entendido em Moscou", de Simone de Beauvoir, este é o tema central que permeia toda a trama e assombra os protagonistas: o tempo. Como suportar as mudanças estéticas que chegam com a velhice? Como sobreviver ao tempo que pesa sobre os nossos ombros?


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Quatro temas centrais permeiam a obra “Mal-entendido em Moscou”, da escritora e filósofa existencialista francesa Simone de Beauvoir: o tempo, a espera, o medo de envelhecer e o amor. Como alerta o título do romance, a trama é desenvolvida em uma viagem dos personagens principais, os sexagenários Nicole e André, à capital da União Soviética em meados dos anos 60.

A partir de uma narração dupla, em que o casal se alterna nesse papel, os medos, anseios e personalidade dos personagens são cuidadosamente revelados. Ela teme ter desperdiçado a vida em prol de um casamento que, em diversos momentos, acha que não deu tão certo assim. Na figura de Macha, guia do casal na União Soviética e filha do marido com outra mulher, Nicole vê tudo aquilo que pensa não ser mais: jovem, segura de si e cheia de vida. Cada segundo em sua presença é, para Nicole, um lembrete do peso da sua idade e da falta de perspectivas para um futuro que, para ela, nem existe. “Quantas vezes ainda teria três anos para viver?”, se perguntava, aflita com a possível proximidade da morte.

Já André, ativista sonhador aposentado, conseguia disfarçar o peso do tempo muito bem, tão bem que a própria mulher ainda o considerava jovem e esperançoso. Mas, em seu âmago, sentia os mesmos medos de Nicole: o desespero de não “ter realizado nada”, de não ter sido um pai genial e presente para Macha, de ver uma União Soviética cada vez menos socialista e reconhecer que, na Guerra Fria, o comunismo, infelizmente, perdeu. Viciado em álcool e tabaco, André decidiu se enterrar vivo. Como acreditava não haver mais tempo para fazer algo bom para a sociedade, preferiu fazer mais nada – e se frustrar sempre com essa condição. Com personalidades fortes e bem descritas, os personagens de Simone usam a viagem à Moscou para refletir sobre os seus problemas existenciais, é aí que surge o mal-entendido que intitula a obra: presos no próprio individualismo e questões pessoais, Nicole e André se tornam egoístas ao não conseguir entender e conversar sobre o problema do outro. Ela estava entediada e com saudade da sua cidade natal, Paris, e ele, triste por ver o sonho comunista e a própria juventude desabando aos próprios olhos. Infelizes consigo mesmos, o casal se torna infeliz no matrimônio.

“Mal-entendido em Moscou” é uma obra de ficção, mas poderia ser uma biografia de tão reais que são os personagens retratados. Leve, dramático e interessante, o livro leva o leitor a percorrer as 142 páginas tão rápido que, ao final, surge aquele espanto: “Já acabou?”. E, cuidado: se não quiser se questionar sobre si mesmo e, como os personagens, entrar em uma pequena crise existencial, é melhor não ler a primeira página.


Bruna Castelo Branco

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