mundo aleatório

Sobre qualquer coisa

Bruna Castelo Branco

Estudante de jornalismo. Por enquanto, é só isso

Para saber como são as coisas

Essa história faz parte de uma série de textos chamada Casa de Memórias. Além de mostrar as lembranças de uma senhora solitária, conta a história de um tempo.


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Como não consegue lembrar a idade, Cecília guarda, anualmente, suas velas de aniversário numa caixinha, para sempre que não souber mais, poder conferir e bradar: “tenho 82 anos”. Para ela, a dúvida que fica é se em 22 de julho deste ano poderá guardar ou não mais uma velinha: “Só Jesus sabe”.

A infância de Cecília de Jesus não foi feliz. Antes de começar a contar sua história, a velhinha de olhos acinzentados e cabelos cor de mel, que nunca ficaram completamente brancos, avisou: “a minha infância, se eu disser, você chora. Você chora”. E começou a chorar.

A Cecília menina não tinha amigos, bonecas, família ou um lugar para chamar de lar. “Eu não conheci pai. Disso eu tenho tristeza”. Ainda recém-nascida, foi entregue para uma senhora de nome Serafina, que a criou, e quando criança, não brincava – nem sozinha nem com amigos. “Eu brincava sabe com o quê? Trabalhando”. Para poder viver com Serafina, Cecília era obrigada a trabalhar numa roça de fumo, mandioca, milho e feijão, em sua cidade natal, Irará, interior da Bahia. “Criança sem pai e sem mãe, criada pelos outros. Ela me fazia chorar”, contou. “Não estou lamuriando não, estou lhe contando o que passei. Para saber como são as coisas”.

Como não tinha dinheiro para comprar brinquedos, fazia as próprias bonecas com manaíba. Cecília nunca foi à escola e só parou de trabalhar quando, anos mais tarde, se casou. “Eu não tive infância não, amor”. Aos 15 anos, a jovem decidiu sair de casa por não conseguir mais viver aos mandos e desmandos de Serafina. “Eu larguei a senhora que me criou porque ela me fazia de gato e sapato. Nem um cachorro nem um gato aceita. Porque eu quebrei três cabaças dela, com dois litros e meio de água, ela me marcou toda. Colocou os dois pés dela em cima de mim, meu pescoço, minhas pernas, e disse que ia botar pimenta em mim. Mas ela já pagou, para o céu ela não foi, Deus que me perdoe”.

Sua breve não-infância debutou e, de carona em carona, Cecília chegou a Salvador sozinha, sem sequer uma trouxinha de pertences, a caminho de uma vida nômade: “eu fui cozinheira, fui babá, fui arrumadeira, fui tudo nessa vida. Eu saí sem destino, tinha ninguém aqui”. Vagou de porta em porta até conseguir um serviço de babá numa casa de família, em São Lázaro. “Encontrei uma senhora e disse: ‘você sabe se tem alguém procurando uma babá aqui?’ Me mostraram uma casa e eu falei com a avó de um menininho. ‘Eu estou procurando um trabalho de babá’. Ela disse: ‘pode chegar, aqui tem um neném para você. Mas você aceita essa criança escura?’”. Quando adolescente, Cecília nunca foi de ser namoradeira e não frequentava festas. Para gastar o raro tempo livre, ia à igreja ouvir os clérigos ensinarem a palavra de Deus. E, por isso, deu à sua futura empregadora a seguinte resposta: “Quando Jesus fez, ele não escolheu quem fazer, ele fez pessoas de todas as maneiras. Por que eu vou me escusar a pegar a uma criança, um bebê?”.

Passou dois anos morando com o pequeno Jorge. Quando o menino cresceu um pouco mais e pode ir à escolinha, Cecília ficou, novamente, sem um lugar para viver. Anos mais tarde, ela ficou sabendo que, já adulto, a criança que a acolheu quando não tinha alguém e nem para onde ir, cometeu suicídio.

“Depois de dois anos, fui trabalhar em outro lugar, mas não deu certo”. E não deu certo porque seu Pedro, o patrão, não permitiu que desse. “Tinha um homem lá que veio para cá fazer-se de besta comigo, seu Pedro. Me avisaram que quando chegava uma mocinha para trabalhar lá, ele tentava se seduzir com a pessoa. Um funcionário me avisou: cuidado quando for fazer o quarto dele, para ele não pegar a senhora lá dentro. Um dia, quando fui arrumar o quarto, ele levantou e disse para eu fechar a porta. Eu pedi para ele não fazer isso, e disse: ‘eu não trabalho mais em sua casa, não se preocupe. Não sou o que você pensa’. E se eu continuasse lá, eu sabia o que ia fazer com ele. Eu ia fazer”. Pulou de galho em galho e trabalhou em mais casas. Chegou a ficar seis anos morando com uma única família, e, ao fim desse período, Cecília conheceu aquele a quem chamaria de “meu fofão”.

Quando Umberto de Souza bateu o olho naquela jovem magrinha, tocou em seu ombro e disse: “Eu gostei de você”. O moço gorducho que trabalhava como vigia logo pediu Cecília, sua “bonequinha de louça”, em casamento. Ela sorri toda vez que fala o nome dele: “ele era lindo”. Assim que o casório foi acertado, ele pediu a ela que parasse de trabalhar. “Ele disse que eu já estava cansada”. O casal alugou uma casa em Castelo Branco, região periférica de Salvador, e lá viveram até a morte de Umberto.

“Ele morreu de infarte. Deus sabe o porquê”. Ela não sente saudades de Irará, de Serafina e muito menos de sua vida desajustada em Salvador. A única pessoa a qual ela recorda saudosamente, com um misto de tristeza e alegria, é Umberto. “Ele era muito bom, qualquer pessoa que precisasse dele, ele estava lá para ajudar”.

Mas, o ser humano não sente falta só daquilo que já conheceu. Antes de Umberto morrer, Cecília ficou grávida. Mas nunca soube sequer o sexo da criança: “um dia eu caí, me machuquei, e o bebê morreu. Não soube nem se era menino ou menina”.

Sem o marido, Cecília voltou a trabalhar, mas não conseguiu manter a residência em que moravam. De volta ao nomadismo, trabalhou até sofrer um acidente que deixaria marcas eternas em sua pele, mas não o suficiente para encerrar suas incertas e cotidianas jornadas. Sem motivo para vergonha, Cecília aponta para as perninhas finas: “um dia eu estava trabalhando e uma panela d’água fervente caiu e me queimou. Ficou assim”.

O que veio a levar Cecília parar de trabalhar foi a artrite que a vitima até hoje. Sem fonte de renda e lugar para ficar, uma conhecida a levou para a Associação Casa de Caridade Adolfo Bezerra de Menezes (Accabem), em Itinga, Lauro de Freitas.

Mas não pense que Cecília fica só: sem um filho de carne e osso, a velhinha magricela adotou dezenas de filhinhas de plástico. Ela divide o quartinho de paredes coloridas com bonecas, seus anjos. Algumas têm nome, outras não: ela não nomeia todas porque sabe que sempre acaba esquecendo. Além de suas bonequinhas, guarda carinhosamente uma foto recortada de revista em um porta retrato, com a imagem de duas menininhas louras que afirma, com muito orgulho, serem suas filhas adotivas.

A artrite causa dores excessivas em Cecília e, muitas vezes, não a deixa dormir. Mas, mesmo com olheiras imensas e um rosto cansado, faz questão de cumprimentar todos que passam por sua porta e chama os visitantes para conversar. Ao nos ver, logo perguntou: “vocês vêm aqui dia 22 de julho? É meu aniversário”. Prometemos que sim. Pouco antes de partirmos, ela conversou com uma senhora que foi visitá-la.

“Soube que você caiu ontem, é verdade?”, perguntou a visitante. “Não foi ontem, mas estou sentindo muita dor. Daqui a pouco vou embora”. “Mas se a senhora for, quem vai ficar com as suas filhas?”, indagou, sem esperar a resposta que viria a seguir. “As bonequinhas já têm dono. Vão para as crianças que não têm com o que brincar. Vá com Deus, minha filha”.

“Amém”.

(Leia outro texto de Casa de Memórias)


Bruna Castelo Branco

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