mundo em transe

epifanias conectando o ficcional ao real

Marcel Coelho

Biólogo. Professor. Profissional das ciências naturais e amante das ciências humanas. Antes de quaisquer descrições, um humanista

Um Estranho no Ninho

Quando vemos alguém caminhando em ciclos, imediatamente o chamamos de louco. E você, para onde caminha?


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Um Estranho no Ninho é um dos filmes mais importantes da história do cinema americano. Protagonizado pelo ator Jack Nicholson foi lançado em 1975 e obteve reconhecimento e sucesso imediato, acumulando cinco estatuetas do Oscar e se transformando em um clássico. O enredo versa sobre um malandro, interpretado por Jack Nicholson, que simula a loucura para substituir punições adotadas pelo sistema penal americano por uma estadia em uma instituição psiquiátrica. Lá chegando, o personagem de Jack (McMurphy) logo altera o pacto de convivência que anteriormente existia entre os outros internos e aqueles que os tutelavam. Gozando de absoluta sanidade e discernimento cognitivo, McMurphy passa a coordenar atividades e estimular os outros internos, transformando-se em uma referência ou, porque não, um líder. Tais alterações no sistema geram fortes e determinantes consequências para a vida de McMurph, despertando perseguições e vinganças daqueles que eram os responsáveis clínicos daquela instituição. Não há dúvidas que Um Estranho no Ninho foi um filme marcante na minha vida.

Apesar de marcante, desde que tive o privilégio de assisti-lo, há muito não vinha a tona. Até que um familiar muito próximo, Nicole, trouxe-o a ordem do dia:

- Thauã. Quero sair daqui! Lembra do Estranho no Ninho? Está acontecendo comigo. Faz alguma coisa. Tira-me daqui!

Nicole estava em uma clínica psiquiátrica quando me fez a súplica. Jovem, havia sido diagnosticada como portadora de transtorno bipolar quando foi internada em meio a uma forte crise maníaca. Nicole me chantageava com o exemplo do filme que a havia apresentado anos antes. Argumentava uma suposta ausência de evidências médicas que justificassem sua internação. Este episódio, juntamente com o sentimento que me ocorreu no momento posterior ao escutar Nicole, fizeram-me imergir em um profundo fluxo de consciência. A chantagem não surtiu efeito.

Pasmem-se!

O sentimento naquele momento foi uma vontade imensa de me juntar a ela. A clínica onde se encontrava era muito arborizada e silenciosa. Além das vocalizações dos pássaros, apenas se podia escutar os sons das copas das árvores se tocando à cada rajada de vento e, vez em quando, longínquas vozes dos outros internos. Paz. Era um ambiente de descanso. Um ambiente onde estavam ausentes a pressa, as pressões profissionais, as disputas políticas, o rancor e especialmente a angústia e ansiedade, resultantes do crescente clima competitivo. Competição, uma marca importante dos tempos modernos. Talvez este sentimento também traduza àquele, vivido pelo personagem McMurph nos primeiros dias de convivência na instituição psiquiátrica. Seu entusiasmo contagiou os outros internos, melhorando substancialmente a qualidade de vida coletiva. Melhora que naquela ficção é posteriormente solapada pelas políticas internas executadas pelo corpo clínico. A descrição deste cenário apenas serve para interpretar este sentimento de ao entrar em um “hospício”, não querer sair. Invejar o ambiente de paz e tranquilidade compartilhado por Nicole. Uma portadora de transtorno bipolar recentemente internada por um processo à revelia. Esta inversão de cenários nos faz questionar conceitos, valores e os ritmos da “normalidade social”. O que me fez, em um momento transitório, invejar o ambiente de “loucura” e querer preterir o ambiente de “normalidade” foi a paz e a inexistência de todos os sentimentos e relações negativas que advêm da sua ausência. Ausência estreitamente relacionada à ubíqua angústia compartilhada por nós, indivíduos do tempo. Paz interior que sob nenhum aspecto combina com o atual modelo de desenvolvimento, sejam em seus contratos econômicos, sejam em seus contratos sociais, muito menos com os valores éticos e culturais paridos por estes.

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É cada vez maior o número de pessoas a questionarem os padrões de normalidade buscando revolucionar suas vidas na direção do que senti na efêmera visita àquela clínica psiquiátrica. Paz. Como os diagnosticados “loucos”, estes revolucionários são igualmente adjetivados.

- Ficou sabendo do Lucas?

- Não. O que aconteceu com o Lucas?

- Largou o emprego e a carreira. Foi morar naquele pequeno terreno que tinha no interior do estado juntamente com a família. Disse-nos que iria começar a nova vida construindo uma horta. Cara doido!

Aos poucos, os “loucos” nos mostram que antes de solucionar quaisquer crises que se debruçam sobre nossa realidade, temos o dever de solucionar a maior delas. A crise de valores. Com coragem, devemos deixar de subestimar aquilo que verdadeiramente tem importância na vida. A crise de valores transforma o contentamento e o bem estar em uma utopia. Transforma a angústia e a ansiedade na realidade do vivir. Afinal de contas, a que viemos ao mundo?

* As ideias contidas neste texto são fortalecidas por elementos absolutamente ficcionais.


Marcel Coelho

Biólogo. Professor. Profissional das ciências naturais e amante das ciências humanas. Antes de quaisquer descrições, um humanista.
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