mundo em transe

epifanias conectando o ficcional ao real

Marcel Coelho

Biólogo. Professor. Profissional das ciências naturais e amante das ciências humanas. Antes de quaisquer descrições, um humanista

Um adeus a você, linda Ciência

Aqui a filha do método é vista como uma atraente e ingrata mulher a qual nos dedicamos por uma vida inteira...até o momento do adeus.


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És bonita, inteligente e, por que não? Elegante. Apesar de nos termos conhecido na mais tenra infância, foi ao ingressar na universidade quando mais estreitamente nos aproximamos. Talvez pela afinidade ao teu jeito metódico e distante dos sentimentos pequenos. Aqueles sentimentos pequenos. Os mesmos que costumam brecar o desenvolvimento da humanidade. Tu me parecia mais. Parecias não estar presa à amarras. Parecias flutuar por sobre a mente dos outros que apenas tentavam se aproximar para melhor te entender. Tais características me mantiveram ao teu lado mesmo não tendo me apaixonado por ti. Não é qualquer mulher que possui estes atributos, por isso, acompanhei-te por quase dez anos. Nem tudo são flores, Ciência. Apesar de não te enxergares desta forma, ainda és bastante jovem. Ainda necessitas de amadurecimento e, neste processo, talvez te libertes de muitas amarras que ainda te orientam. Teus tutores... Ah! Os teus tutores. Lamento que tu estejas na mão destes. Melhores homens já estiveram ao teu lado. Hoje, aqueles que te guiam, em sua enorme maioria, são medíocres a te usarem para se destacarem sobre seus iguais. Não são gênios. Não são criativos. Apenas egocêntricos galgando o status do brilhantismo. Apenas contigo, homens comuns ascendem à tal distinção. Tu desenvolveste um poder de convencimento sem igual. Um respeito só comparável às milenares religiões. Ao teu lado, medíocres parecem gigantes. Foi assim que começaram a existir conchavos e apadrinhamentos pelo privilégio de te acompanharem. Não estão preocupados contigo ou com as aplicações do método que desenvolveste. Método este, mais poderoso que quaisquer armas já construídas. Preocupam-se apenas consigo. Um jogo hipócrita que não pode ser definido de forma diferente, senão, como um jogo. Enorme injustiça ver-te como objeto de um jogo. Refém de medíocres relações de poder. Assim são os homens. Os teus tutores são invisíveis, Ciência. Usam-te para flutuar por sobre o mundanismo ao não assinarem suas próprias condições de homem. Delegam a ti, a conta dos próprios erros. Sei que a culpa não é tua. Como qualquer entidade neste planeta és tu e a circunstância. E em que circunstância nos encontramos, hum! O Brasil de 2017. Não queria estar a escrever esta carta. Mesmo não tendo sido fisgado pela química da paixão, é doloroso que não sejas mais prioridade na minha vida. Talvez, não ocupando este espaço prioritário, possamos nos encontrar novamente. Então, sem a presença de tutores que nos apontem caminhos e descaminhos por onde devemos seguir. Seríamos apenas eu e tu imersos na mais pura e livre relação. Não haveria julgamentos. Não haveria paradoxos como os que buscam “a imparcialidade a serviço da parcialidade”, para não dizer “a objetividade a serviço da subjetividade”. Apenas eu e tu. Eu, homem errante e errático. Tu, musa e livre de amarras. Não dependerei de ti e continuarás a não depender de mim. Quanto aos tutores que ora te desvirtuam, são apenas filhos do seu tempo. Certamente, tua irmã, a história, cuidará de posicioná-los onde pertencem. Não deveriam estar de mãos dadas contigo. Não são os políticos com quem deve estar atada. Nem com egocêntricos. Nem mesmo com necessitados que veem em ti a única forma de sobrevivência e ascensão social. Não são com conchavos e tapinhas nas costas que teus tutores vão entendê-la. Para estar ao teu lado é preciso esquecer o mundanismo. As pequenas motivações. É preciso compreender teu valor. Assim, avançaríamos em direção à construção de uma sociedade mais justa e saudável. Seguirei minhas verdadeiras paixões enquanto estivermos afastados. A escrita fluida. A poesia. Os romances. Também planejo ganhar algum dinheiro. Dinheiro bastante raro enquanto ao teu lado estava. Quem sabe nos reencontremos em outro momento. Em distintas condições. Outros tutores. Outras motivações. Agradeço por teres me suportado todo esse tempo e por todos os aprendizados e conhecimentos que construímos. Vou, mas outros ficam. Espero que te aproximes e valorizes os que verdadeiramente compreendem a tua essência. Usualmente estes estão em laboratórios, em campo, sujos, mal vestidos e, por se dedicarem tanto a ti, perderam a malícia dos tapinhas nas costas. Não são bons em comunicação. Estão mais preocupados contigo que com si mesmos ou compartícipes. Quando estiveres orientada por melhores tutores também estarás mais alinhada com teus sonhos e objetivos. És um dos melhores instrumentos de transformação social que a humanidade já viu nascer. O que tu precisas é de melhores companhias. Companhias que te tratem com a altivez que mereces.

Adeus, Ciência.

* As ideias contidas neste texto são fortalecidas por elementos absolutamente ficcionais.


Marcel Coelho

Biólogo. Professor. Profissional das ciências naturais e amante das ciências humanas. Antes de quaisquer descrições, um humanista.
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