música ao longe

É a hora da estrela, sopram o tempo e o vento; e quanto ao resto... O resto é silêncio.

Sarah Reis

"Se a morte é a única coisa absoluta da vida, por que não hei de fazer da minha existência também um fato absoluto?"

Pruitt-Igoe & Prophecies – Profecias da modernidade reduzidas a pó.

Pruitt-Igoe foi um dos maiores projetos de moradia urbana dos Estados Unidos, financiado pela iniciativa privada e pelo setor público. O que era para ser um exemplo do 'sonho americano' se tornou um antro de violência, marginalidade e exclusão. Por que e como Pruitt-Igoe foi um grande fracasso, tornando-se símbolo arquitetônico de falha social, é a pergunta que aqui se tenta responder.


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Watchmen (2009, Legendary Pictures) é um dos filmes de super-heróis da atualidade mais bem quistos pelos fãs de quadrinhos, cujo criador é Alan Moore. A questão que quero abordar aqui, entretanto, não está centrada no filme, e sim em Pruitt-Igoe, um projeto arquitetônico que nele aparece de forma tênue e bem indireta.

Quando vi Watchmen pela primeira vez, fiquei pensando porque demorei tanto para fazê-lo, e adorei o filme. Se você, assim como eu, mergulha profundamente no objeto da súbita paixão, há de se identificar lendo isso. Quando gosto de um filme, sempre faço uma pesquisa sobre seus elementos e um dos mais importantes, a meu ver, é a trilha sonora. Uma das músicas se chama “Pruit Igoe & Prophecies”, sendo uma junção de outras duas de Phillip Glass, e a primeira claramente é inspirada na história do complexo arquitetônico Pruitt-Igoe.

Pruitt-Igoe foi um projeto de urbanização financiado pelo governo dos Estados Unidos, por volta de 1950, tendo também participação do setor privado. Essa década ficou marcada pela alcunha de “Era Dourada do Capitalismo”, pós Segunda Guerra Mundial, e época de maior expansão do “american way of life”. Os Estados Unidos se consolidaram como a maior potência capitalista a partir de então, promovendo a imagem de que estavam no auge de sua expansão econômica.

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Uma aparente contradição desse período é de que há o desenvolvimento do chamado Estado de Bem-Estar Social (“Welfare State”), que consiste no Estado provedor, se aproximando dos moldes socialistas, os quais os americanos tanto combatiam na época. É o exato oposto do Estado Liberal clássico, que estava em baixa pós-crise de 1929.

O Estado de Bem-Estar Social, ainda que inserido na ideologia capitalista, atuava diretamente para a inclusão dos indivíduos, interferindo ativamente nas esferas sociais, tais quais saúde, educação, trabalho, lazer e – o ponto-chave aqui – moradia. É nesse contexto que os direitos sociais começam a ganhar uma maior importância e as pessoas esperavam ser atendidas pelo Estado.

Durante os anos 40 e começo dos 50 do século passado, Saint Luis, Missouri, EUA, não possuía qualquer planejamento urbano. As conseqüências foram o crescimento desenfreado da construção de moradias irregulares e a superpopulação. Muitas casas estavam em péssimas condições, sem saneamento básico e encanamento de gás instalado adequadamente. As áreas ocupadas por essas moradias desvalorizavam os terrenos das áreas centrais. Tais condições levaram a um massivo êxodo urbano, principalmente por parte da classe média. O sonho dourado não havia sido alcançado por todos, e isso ficava evidente naquela cidade.

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Houve uma parceria entre a prefeitura de Saint Luis, o estado do Missouri e algumas empresas privadas que ajudaram a custear o projeto, sendo que a intenção era vender os lotes a baixo custo. Assim nasceu o projeto do complexo urbano Pruitt-Igoe, que se destinou a resolver todos aqueles problemas, além de servir como propaganda do esplendor dos anos 50 em que os Estados Unidos viviam. Seria uma obra pública icônica, tendo o Bem-Estar Social como fundamento ideológico. Algumas mudanças ocorreram no projeto inicial, visando atrair também a classe média que se afastara da cidade.

Para toda profecia que quer convencer de que irá se cumprir, um mínimo de fé é necessário. A que se tentava promover era de que o capitalismo conseguia distribuir renda de uma forma igualitária e de que se vivia uma era de expansão do progresso, disponível a todos. Pruitt-Igoe se dispôs a ser a materialização dessa crença. Quando finalmente pronto, em 1954, foi considerado um divisor de águas na arquitetura urbana moderna. Possuía, ao todo, 33 prédios, e foi ocupado em aproximadamente 91%, sendo lançado oficialmente em 1954.

As áreas das ocupações pobres e marginalizadas próximas às áreas centrais foram demolidas, e os habitantes realocados para as novas instalações. Muitos ali diziam se sentir acomodados em um hotel cinco estrelas permanentemente, dadas as condições anteriores em que viviam, e como o complexo era antes do início de sua degradação.

Não obstante, a obra não foi tão suntuosa como prometera. Os materiais utilizados eram de baixa qualidade para que o custo da obra ficasse menor e não houvesse tanta perda de capital. Mesmo assim, a propaganda para promovê-lo continuava, visto que os vários patrocinadores queriam o retorno de seu investimento. Em 1968, a obra havia consumido 57 milhões de dólares, um valor alto demais para ser deixado de lado. Não obstante, nesse mesmo ano, o Departamento de Habitação federal começou a incentivar os moradores a deixarem Pruitt-Igoe.

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Com esse incentivo, e com os diversos problemas estruturais que os prédios apresentavam, o complexo perdeu muito de sua ocupação original ao final dos anos 60. Seu estado de degradação ficava cada vez mais grave e evidente, e a falta de manutenção por parte do governo contribuiu para aprofundar ainda mais esse decaimento.

Os mais ricos abandonaram o lugar, fazendo voltar um dos problemas que impulsionaram a construção de Pruitt-Igoe – o êxodo urbano. A população de renda mais baixa não tinha a opção de sair, e, abandonada à própria sorte, foi forçada a conviver com os marginais que se moveram para o local. O complexo se tornou um antro de violência e marginalidade e seus prédios acabaram se transformando naquilo que se propuseram a acabar – as favelas que haviam sido derrubadas anteriormente apenas se transferiram para outro local.

A situação estava insustentável. O dito Estado de Bem-Estar Social começava a sucumbir, devido principalmente à crise do petróleo da década de 70. Algumas medidas até foram pensadas para se resolver o problema, mas em 1972 o governo desistiu e os prédios começaram a ser demolidos, finalizado o processo em 1976. A destruição final dos prédios foi chamada pelo historiador de arquitetura pós-moderna Charles Jencks de “o dia em que a arquitetura moderna morreu “.

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Em resposta às crises internacionais que se intensificaram na década de 70 e 80, alguns países, seguindo a linha de Margaret Thatcher, adotaram uma política de austeridade, com cortes em benefícios sociais, flexibilização de leis trabalhistas e abertura para o capital circular livremente. Dessa forma, muitos usaram Pruitt-Igoe como exemplo de que o “Estado social” era falho. Outros apenas disseram que o fracasso do projeto arquitetônico foi um conjunto de "fatores sociais adversos".

Ainda há aqueles – e eu me incluo nesses – que acreditam que Pruitt-Igoe se tornou o símbolo de muitas das “profecias” de prosperidade que o capitalismo fez e que não se cumpriram. A história de Pruitt-Igoe é um exemplo de uma medida tomada para a substituição de algo considerado como uma falha do sistema; como uma doença a ser combatida, mas que a aparente cura apenas piorou a situação.

Para quem se interessou e deseja se aprofundar na história de Pruitt-Igoe, como eu fiz com a música, há um documentário chamado “The Pruitt-Igoe Myth”, de 2011. São 83 minutos que tentam explicar mais detalhadamente porque Pruitt-Igoe foi um grande fracasso e estava fadado a sê-lo, desde sua origem. O documentário leva em consideração não só a arquitetura em si, mas principalmente os aspectos sociais que permeiam a obra.

São estes elementos – destruição, construção, desconstrução – que Phillip Glass explora e desenvolve em sua música e é, mais tarde, utilizada em Watchmen,sendo de vital importância para a construção do personagem Dr. Manhattan (não entrarei em maiores detalhes, para não dar spoilers, mas isso pode ser objeto de outro futuro texto, mais aprofundado nas relações entre música e filme).

O sonho de igualdade não foi alcançado por aqueles que o almejaram e o materializaram em Pruitt-Igoe. Assim, tudo o que restou fazer foi a mera destruição, como se nada nunca tivesse acontecido – exatamente a mesma solução anterior à construção dos prédios: destruir e reconstruir em cima sem transformar de fato a base. Com a história de Pruitt-Igoe, podemos ver a construção e desconstrução de sonhos, representados nesses prédios há tanto deixados de lado.

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Sarah Reis

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