música ao longe

É a hora da estrela, sopram o tempo e o vento; e quanto ao resto... O resto é silêncio.

Sarah Reis

"Se a morte é a única coisa absoluta da vida, por que não hei de fazer da minha existência também um fato absoluto?"

Sobre a anedotização das pessoas

Quantas vezes você já ouviu frases como “eu tinha um amigo que...”, “uma vez uma ex-namorada me disse...”, sugerindo que essas pessoas eram apenas personagens, com um narrador distante e sem o menor vínculo com eles, protagonista absoluto de sua própria história? Quantas vezes você também transformou pessoas de tempos ‘passados’ em meras anedotas?


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Todos temos um amigo com (muitas vezes sérios) problemas com memória - quando não somos nós mesmos que padecemos desse "lapso memorial". Um amigo meu, por exemplo, realmente não consegue se lembrar de fatos ocorridos há pouco mais de um ano. Ele costuma dizer que eu é que tenho uma “boa memória”, porque me lembro de detalhes sobre coisas de que todos já se esqueceram – ou pelo menos aparentam ter se esquecido, segundo ele. “Você tem uma mania de relembrar o passado, não?”, ele falou em tom de brincadeira certa vez.

Cada um tem algo como um museu particular, mesmo as pessoas com problemas de memórias, como é o caso do meu amigo mencionado. Quando revejo meu passado (se for possível, através de produções físicas ou virtuais, confesso realmente ter essa mania), por vezes me deparo com coisas que foram aparentemente simples à época; que possuíram quase nenhum valor quando o momento foi produzido, mas que hoje têm um preço inestimável; são insubstituíveis. Também sempre me surpreendo com a força das palavras ditas e escritas naquele tempo, e que hoje nada mais são que um sussurro perdido entre tantas “novas pessoas”, tantos “novos momentos”.

Sem perceber, acabamos, aos poucos, nos distanciando daquele tempo e das pessoas que o representam. Cada vez mais começamos a conjugar verbos em algum dos pretéritos, falando sobre pessoas que antes ocupavam o nosso presente. “Eu tenho/conheço” é facilmente substituído por “eu tinha/conhecia”, um processo que fazemos de forma natural, à medida em que o tempo passa e as relações se afastam. E, assim, aqueles que eram “pessoas” acabam se tornando apenas “memórias”, ou, como indicado anteriormente, meras anedotas.

Parece que as pessoas estão apenas acumulando experiências, pontos desconexos no espaço-tempo. Zygmunt Bauman, em “Vida para Consumo”, diz que a modernidade líquida trouxe a noção de que o tempo é um desenho pontilhista distorcido – não há mais uma continuidade, e sim pequenos encontros e momentos que são caóticos e não formam qualquer desenho reconhecível, mesmo que o olhar se distancie. Não há mais uma apropriação de experiências, e sim meros acúmulos delas, formando, por sua vez, vidas e personalidades desconexas.

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É constante a estranheza que sinto ao rever quem estava ao meu redor, em verdadeira proximidade (naquele momento específico), há dois ou três anos. Afinal, como pôde a vida ter mudado tanto em um período de duração tão pequena? Tenho a impressão de que é um curtíssimo espaço de tempo, mesmo com a nossa vida sendo tão breve. Você já se questionou sobre isso? As nossas relações se transformam cada vez mais rapidamente, sendo, é claro, conseqüência direta da mudança das pessoas, que buscam viver experiências novas a todo momento, freneticamente e de forma incompleta, não plena.

Ninguém é obrigado a ser o mesmo o tempo todo e nem falar com as mesmas pessoas o tempo inteiro, embora eu realmente acredite que cada pessoa tem a sua singularidade (ou, usando termos mais metafísicos, sua “essência própria”) a ser contemplada/valorizada. A transformação de si mesmo é algo positivo, quando em direção a algum patamar mais respeitoso para com o outro - afinal, ainda vivemos em uma coletividade e alteridade é fundamental. Não raro, as pessoas ao nosso redor não acompanham, não entendem tal mudança e não querem fazer nem uma coisa e nem outra, o que torna a convivência de outrora insustentável e até "sem propósito".

Acho, entretanto, que o que me causa a estranheza não é somente o fato de pessoas íntimas se tornarem verdadeiros des-conhecidos, seja por esse ou por aquele motivo. Nós não simplesmente nos esquecemos dessas 'agora' “outras” pessoas; nós as usamos para ilustrar ou enfeitar as nossas próprias vidas. As pessoas perdem a sua importância, o seu “brilho especial” que tiveram (afinal, se um dia falamos com elas, é porque despertaram algum interesse em nós). Contudo, elas continuam sendo minimamente relevantes para a construção de nossa identidade e de nossa história – algo que fazemos até inconscientemente, relembrando-as para contar alguma coisa sobre nós.

É certo que não devamos ficar apegados ao passado, só por aquilo que ele representou um dia. A nossa vida é marcada por uma constante mudança, sempre uma renovação. Apesar disso, eu espero que sejamos capazes de tratar aquelas pessoas como indivíduos com suas histórias próprias, também cada qual com seu enredo, e não apenas um aglomerado de coadjuvantes uns dos outros, que apareceram de relance no filme de nós mesmos que queremos revelar ao mundo.

O passado tem o seu valor histórico e constitui parte importante de nosso presente. Quando o supervalorizamos, esquecendo todo o resto, há prejuízos consideráveis para a formação da própria essência, do próprio ser. Não obstante, ignorar o passado – e as pessoas inclusas nele – também é suprimir parte de quem somos. É através da experiência completa, integrada em si (passado e presente) que temos a possibilidade de um contínuo aprendizado.

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Sarah Reis

"Se a morte é a única coisa absoluta da vida, por que não hei de fazer da minha existência também um fato absoluto?".
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