música ao longe

É a hora da estrela, sopram o tempo e o vento; e quanto ao resto... O resto é silêncio.

Sarah Reis

"Se a morte é a única coisa absoluta da vida, por que não hei de fazer da minha existência também um fato absoluto?"

ALÉM DA(S) REDOMA(S) OU MANIFESTO PELO MEIO-TERMO

Essência, dirão esses sábios, é algo "irreal", ou, ainda, dirão que é "a sua base biológico químico física"; quererão eles nos reduzir a átomos, a células, a processos "distantes", a só isso. Novamente: não nego que tudo isso exista. Mas não acho que devamos ser reducionistas. O mundo está cheio deles. A minha proposta é de questionar posições estanques, de dicotomias imutáveis, de que há algo além do que está posto atualmente.


6v3uLyT.jpg Fonte da imagem: http://melbourneer.com/wp-content/uploads/2013/12/6v3uLyT.jpg

Talvez este seja um tema clichê atualmente, e que eu apenas esteja repetindo e sintetizando o que autores bem mais célebres e com um maior arcabouço teórico já tenham pensado e falado (alguns dos quais eu também citarei). Ainda assim, não poderia deixar de fazer as minhas próprias considerações sobre o que eu acredito que estejamos vivendo: sob uma grande Redoma (eu não li o livro do Stephen King e nem vi a série, então qualquer semelhança é mera coincidência, ou não). É possível que eu não seja a única a se sentir dessa forma.

Uma obviedade: é extremamente difícil se livrar de uma redoma que você criou para si mesmo e para os outros. Não quero entrar no mérito acerca de pessoas com dificuldades de socialização (que têm fobia social, ou ansiedade, ou são muito tímidas), e sim sobre as "paredes" levantadas por algumas pessoas que não querem socializar. É um tanto quanto irônico, talvez, abordar sobre uma redoma em um espaço social, mas talvez seja mais fácil para as pessoas serem sociáveis no meio virtual do que no meio físico. Para mim, portanto, essas paredes de isolamento podem estar justamente intensificadas no meio virtual.

Pense na seguinte situação: quantas vezes você conheceu alguém cuja conexão virtual é fluida e na "vida real" isso não ocorre? Não estou falando de casos-Tinder (embora pudesse ser incluído), mas sim de pessoas da própria convivência cotidiana. Ou mesmo aquelas pessoas que curtem seus posts nas redes sociais, mas que quando te encontram face a face, pouco ou nada "compartilham" com você. Pode ser timidez, é claro, só que eu realmente estranho quando isso ocorre.

A ideia que está na fundação do isolamento é de "incompreensão dada pelo mundo", algo que também atravessa as artes. Desde Camões, com seu "Esparsa ao Desconcerto do Mundo", passando por "Memórias do Subsolo", de Dostoievski, até a famosa música Creep, do Radiohead, em que Thom Yorke usa e abusa de tons melancólicos ao se perguntar "o que diabos estou fazendo aqui?/eu não pertenço a esse lugar". É possível que esse tema seja apenas um apelo emocional às pessoas, e que "na realidade" elas não se sintam assim; que é só um recurso midiático do qual as pessoas gostam de achar que se sentem dessa maneira.

thom-yorke.jpg Thom Yorke sendo Thom Yorke

Há, contudo, a possibilidade de que essas pessoas, que sentem que há uma redoma entre elas e o mundo (ao ponto de fazer poemas ou canções sobre, e de outras se identificarem com isso), sejam um mar de estranhos no mundo, de estranhos no ninho. Elas talvez não percebam que muitas delas criam essa redoma, que chamo aqui agora de "redoma menor". Embora os próprios indivíduos possam construir e manter essa redoma menor entre elas e o mundo, há uma Redoma - com o R assim, maiúsculo. A Redoma pode ser mental ou espiritual ou ambas. Mas é algo do (pro)fundo de nosso ser.

Essa Redoma a qual nós nos submetemos, enquanto civilização, é a da Razão. Da Racionalidade. Em "Mal-estar da Civilização", a tese (de uma forma bem, mas bem resumida) de Freud é que, em nome da civilização/do progresso, nossos instintos mais básicos foram suprimidos. O nosso mundo atual, dito pós-moderno (ou moderno líquido, como diz Bauman) já estava e cada vez mais está em direção ao Reino Absoluto da Razão. A Racionalidade é louvada, é o grande diferencial dos homens, é o que torna o homem Homem, à parte da natureza.

"A ciência é o que move o mundo". Como se o mundo só tivesse se fundado a partir da ciência. Não existia mundo até duzentos anos atrás, aparentemente. Pior: ele até existia, mas era um mundo atrasado, "bárbaro", um mundo sem Razão... E então veio o Positivismo, veio Cientificismo, vieram tantos ismos, e a nossa vida agora se pauta toda neles todos. Nosso mundo já estava assim quando viemos até ele. Nós já nascemos nessa cultura racionalista. Tudo o que não é ciência é "dogma" - palavra horrível, ofensiva! Somente a ciência é passível de transformação e, portanto, de evolução, progresso e "melhoria". Já dogmas são fundados em crenças, algo que modifica de pessoa a pessoa e, portanto, não podem ser considerados.

"A religião é o ópio do povo", é o grande "dogma" pós-moderno. Não só a religião em si. Tudo o que é irracional é descartado. Irracional é sinônimo de burrice, de estultície, de ignorância. É como se a humanidade só precisasse do conhecimento puramente racional. Tudo o que existe é provado, ou então passível de prova. Se algo não existe, é óbvio que não terá prova - só o que existe tem "materialidade", "vestígios". Assim, o mundo parece se reduzir.

susanne_posel_news_-Brain-Machine.jpg

Fonte: www.occupycorporatism.com/wp-content/uploads/2013/07/susanne_posel_news_-Brain-Machine.jpg

Peço também que não entendam esse texto meramente como um "manifesto contrário à Razão". Se hoje há uma "opção", por assim dizer, de que a Razão seja o guia social, é porque já existiram e ainda existem muitos excessos da "irracionalidade". A minha maior intenção é demonstrar que há formas e formas de se 'organizar' algo, ou não, mas que há uma clara primazia atual da Razão. Isso é Hegel, com seus "diagramas esquemáticos", isso é Kant, querendo achar uma "teoria pura" de tudo - pura, perfeita, isso é Saussure, "pai" da ciência linguística e formalista, querendo abstrair a língua como "um sistema fechado", quando ela mesmo é um produto social (também).

Theodor Adorno e Max Horkheimer, dois expoentes da chamada "Escola de Frankfurt", trabalham a ideia em seu livro conjunto "Dialética do Esclarecimento". Em um dos trechos, Adorno usa a figura de Odisseu (A Odisseia) argumentando que o mitológico tem, em sua estrutura, algo de racional; ao passo que na sociedade burguesa o novo "mito" seria a Racionalidade, visto que direciona essa mesma coletividade. Tantos outros trabalham nesse sentido - de que não existe a "Razão" ou a "Mitologia" (utilizada aqui por mim como paralelo de "irracionalidade) puras, autônomas por si mesmas.

Antes o controle era absoluto do Dogma, da Religião, da Crença, do Imaginário, do (agora) "Mitológico". E tudo isso é obscuro, como sinônimo de "ruim", de "ausência", de que é preciso acender as luzes (os próprios nomes "Iluminismo" e "Idade das Trevas" como sinônimo de "Idade Média" (que é o meio entre dois períodos guiados pela razão) são conceitos que já trazem essa carga ideológica em si). O que ocorreu foi uma inversão: porque fomos (humanos) "dominados" por tanto tempo por essa "irracionalidade", agora queremos recuperar o tempo e suposto "saber" perdido, forçando-nos a suprimir parte (talvez A parte) de nossa essência.

Essência, dirão esses sábios, é algo "irreal", ou, ainda, dirão que é "a sua base biológico químico física"; quererão eles nos reduzir a átomos, a células, a processos "distantes", a só isso. Novamente: não nego que tudo isso exista. Mas não acho que devamos ser reducionistas. O mundo está cheio deles.

orion-im-universum.jpg Como definir "a Essência", seu lugar no Universo?

Não há mais essência no mundo, porque nos forçamos a acreditar que não existe essência. Porque ela não é física, porque ela não pode ser provada, LOGO, ela só não pode existir. Para mim é um tanto quanto controverso: há um esforço em atribuir sentido "racional" a tudo, mas não EXISTE "nenhum sentido" comprovado na vida, no desenvolvimento dela e do mundo, do universo; tudo foi aleatório.

Querem que aceitamos, porque tem provas de que o mundo surgiu da aleatoriedade, surgiu sem um propósito, mas querem que EU e VOCÊ sejamos LÓGICOS, tenhamos SENTIDO. Se formos non sense em nossos textos, os professores de redação escreverão em vermelho - "seu texto não tem sentido", mas a vida é um complexo e um conjunto dos "mal-entendidos". Desde cedo se exige o par coerência/coesão quando nem ao menos sabemos direito o que é isso, e ficamos decepcionados, tentando "fazer algum sentido" para o resto do mundo.

O que estou propondo é que vejamos (ou tentemos ver) o que está muito além da Redoma. C.S. Lewis, em seu livro "A Abolição do Homem", traz uma tentativa de demonstrar (e usa exemplos) de que existe algo de comum nos seres humanos de várias épocas e sociedades diferentes. O que anseio demonstrar, também, é uma reflexão de que não somos 100% racionais, objetivos ou tão mais "evoluídos". Continuamos, em níveis globais e individuais, a fazer guerras, ter ódios e preconceitos, mas também a amar e nos auxiliar. Não há nada de errado em reconhecer isso.

Errado sempre é o extremo. Como o dogma, a irracionalidade foi; assim o excesso da Razão também é. O homem não é uno. O homem não é fixo, uma pedra lapidada e entregue já pronta. Mas a existência é a exigência das definições. Dos extremos. Do esquerda x direita. Dos achismos, dos ismos, tudo tudo tudo ideia, tudo eu x você, certo x errado, bem x mal. De todos esses embates de gladiadores modernos que temos encontrado, de pessoas que não respeitam os pensamentos e atitudes alheias.

O mundo está enfermo por negar a Essência. Apenas tudo o que é fora do "Racional", da "Razão" não deveria ser simplesmente ignorado. Não sejamos cegos, com o excesso de luz (o que acham que é luz, o que definiram como tal). Por mais que tentemos superar tantas questões emocionais, através da razão, muitas vezes não conseguimos - só pela razão pura e simplesmente. De igual forma, entendo que o mundo é vasto e diferenciado. Assim, as visões variam, e provavelmente a minha não se aplica a todas as pessoas. Mas não é essa a minha pretensão, nem nunca será.

Para aqueles que se sentem doentes da alma, ou sob um redoma: saia da febre, não negue a Essência. É provável que não seja a cura definitiva. Mas temos visto que só a Razão pura e simplesmente também não a é.

1207305995_el_muro_por_pablof__flickr.jpg Fonte: http://www.overmundo.com.br/uploads/banco/multiplas/1207305995_el_muro_por_pablof__flickr.jpg


Sarah Reis

"Se a morte é a única coisa absoluta da vida, por que não hei de fazer da minha existência também um fato absoluto?".
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