my cup of tea

Olhares sobre a vida, encontros, significados, filosofia.

Adriana Borges

Ariana, idealista e aventureira. Curto a natureza e desbravar o mundo. Estou descobrindo o sentido da vida. Quero fazer muitas coisas mas ainda não encontrei tempo. Um dia quero perder o medo e pular de bungee jump!

O amor é uma boa escolha – Que tal voltar para casa mais cedo?

O filme "Que horas ela volta?" de Ana Muylaert expõe as contradições da nossa família, da sociedade, nas suas relações de amor, de trabalho e de poder. A família, a célula base que estrutura, produz e reproduz o nosso modo de vida é questionada. No Brasil, onde a casa grande ainda persiste, há, no entanto, uma senzala que está construindo novas formas de ver e redesenhar o mundo.


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Que horas ela volta? É uma pergunta que toda criança faz sobre a mãe. Uma relação de amor não se faz com ausência. No lugar do buraco afetivo, se instaura a carência, o vazio. Se ela volta, será que se faz presente? Ou é apenas mais um ser recolhido na sua solidão, no seu egoísmo? O filme de Ana Muylaert expõe as contradições da nossa família, da sociedade, nas suas relações de amor, de trabalho e de poder. Entre os resquícios do velho e o enfrentamento do novo está nascendo um novo Brasil.

A casa onde vivemos é um reflexo das relações dos nossos pais: a afetiva do casal, com os filhos, com o trabalho e a sociedade. Numa casa onde não há amor, há somente uma repetição mecânica dos ritos familiares. Do café da manhã ao jantar é tudo representação, jogo de cena frio e sem calor humano. Na casa de Bárbara (Karine Teles) é assim. O marido Carlos (Lourenço Mutarelli) distante, frustrado e deprimido, o filho adolescente carente e imaturo, a mulher controladora, que quer manter o status quo.

Val (Regina Casé) é a empregada da família, que abdicou de sua própria maternidade para cuidar do filho dos outros. Ela é tratada com a distância e a aproximação permitidas na relação entre patrão e empregada. Ela é a escrava que faz tudo, que não é ouvida e que dorme num quartinho quente e apertado no fundo da casa.

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Mas Val é uma mulher amorosa, que construiu uma relação de afeto com Fabinho (Michel Joelsas), é um amor de mãe e filho. Ela é uma mulher forte, que saiu do nordeste para procurar trabalho e dar uma vida melhor para sua filha. Ela é o ponto de equilíbrio de um lar, na casa dos patrões ricos. E ela é, ao mesmo tempo, um vazio, um ponto de interrogação, uma ausência profunda na relação com sua filha.

Val não teve muitas escolhas. Ela não estudou e não pode enfrentar a criação de sua filha de outra maneira. Jéssica (Camila Márdila) sua filha, conseguiu estudar e prestar o vestibular. Apesar de ser jovem, é segura e independente. Ela tem uma outra cabeça, é uma nova geração, com outra formação, que vive em outra sociedade.

No filme, a mãe chama atenção da filha para ela se manter na cozinha, pois a menina circula por toda a casa e bate-papo tranquilamente com o patrão. Jéssica discute com a mãe que a chama de metida. Jéssica diz que não se acha superior aos outros, mas também não se acha inferior. Por isso, Jéssica é o ponto de quebra do silêncio, de tensão e revolução na família. A garota surge para remexer com os sentimentos e as relações de poder instauradas.

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Na casa de Bárbara, o lugar do afeto foi deslocado, terceirizado, deixado de lado. Porque também não houve interesse da mãe em exercer esta tarefa. A carreira profissional, os custos de uma vida dedicada ao trabalho e ao sucesso, tomaram muito tempo. O pai está em casa, mas é ausente, vive em sua solidão. Ele é o dono do dinheiro, fruto de uma herança. Assim, ele mantém seu lugar à mesa, que Val tira e coloca, diversas vezes, sempre entre a sala e a cozinha.

Val não é um membro da família, como diz a patroa. Ela é escravizada, inferiorizada, não tem direito de desfrutar da casa como toda a família, não pode sentar à mesa, não pode ter um quarto digno, não pode usar a piscina, não pode emitir sua opinião. Ela não pode ser quem é: uma pessoa com sentimentos, vontades, pensamentos e desejos de ser tratada como igual.

O filme revela o quanto a nossa cultura ainda está atrelada ao modelo antigo escravocrata. O trabalho doméstico no Brasil, apesar de todos os esforços na política, ainda leva um bom tempo para ser realmente respeitado. Porque se passaram apenas 127 anos da assinatura da Lei Áurea. E vamos precisar de mais uma ou duas gerações descomprometidas com este modelo de sociedade para avançar mais. Já o nosso modelo de família, cada vez mais decadente, está mudando mais rápido. Se a família não rompe os laços de hipocrisia que as une hoje, amanhã ele estará vulnerável e poderá ser cortado de forma abrupta. O filme de Ana Muylaert mostra isso claramente.

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O grande mérito do filme é nos fazer refletir sobre a nossa própria existência, de como nos relacionamos com as pessoas a partir da nossa família. Isto nos revela muito sobre quem somos, o que pensamos e o que queremos da vida. Pai e mãe hoje podem ser diferentes, a família é uma construção constante na nossa contemporaneidade. Apesar dos políticos em Brasília desprezarem nossos avanços, estamos fazendo algo melhor, com mais amor e verdade.

Casamento e família não são projetos apenas individuais, são sociais! E o Brasil pós-Lula é muito mais feliz, ainda que tenha que lutar muito para seguir assim. As relações de amor de hoje são mais autênticas e reais, embora haja, entre as classes mais altas, a pretensão capitalista de controlar a família, apenas para perpetuar a propriedade e o capital.

Mas as relações de trabalho já não podem ser meramente reproduzidas, sem conflito, enfrentamento e luta por mais direitos. Hoje há espaço para a criação do novo. Tudo está se deslocando, estamos em um processo transitório criativo e maravilhoso que está rompendo com tudo. As forças do atraso não resistirão.

Veja o Trailer do Filme:


Adriana Borges

Ariana, idealista e aventureira. Curto a natureza e desbravar o mundo. Estou descobrindo o sentido da vida. Quero fazer muitas coisas mas ainda não encontrei tempo. Um dia quero perder o medo e pular de bungee jump!.
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