my cup of tea

Olhares sobre a vida, encontros, significados, filosofia.

Adriana Borges

Ariana, idealista e aventureira. Curto a natureza e desbravar o mundo. Estou descobrindo o sentido da vida. Quero fazer muitas coisas mas ainda não encontrei tempo. Um dia quero perder o medo e pular de bungee jump!

Bye Bye Brasil ontem e hoje

“Bye bye Brasil”, de Cacá Diegues, continua tão atual quanto necessário. Olhar e pensar sobre as mazelas do nosso país, nossas contradições, equívocos e desigualdades é um trabalho de todos. Lançado em 1979, o filme focaliza o Brasil implementando o seu projeto modernista não-sustentável, de exploração da Amazônia e das riquezas do país, sem, contudo, dividir o bolo. Vale a pena ver, rever e refletir!


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Sinopse: Salomé (Betty Faria), Lorde Cigano (José Wilker) e Andorinha são três artistas ambulantes que cruzam o país juntamente com a “Caravana Rolidei”, fazendo espetáculos para o setor mais pobre da população brasileira e que ainda não tem acesso à televisão. A eles se juntam o sanfoneiro Ciço (Fábio Junior) e sua esposa, Dasdô (Zaira Zambelli), com os quais a Caravana cruza a Amazônia até chegar a Brasília.

Elenco: José Wilker, Betty Faria, Zaira Zambelli, Fábio Jr., Jofre Soares.

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"Bye bye Brasil" focaliza as transformações ocorridas no Brasil durante a década de 70 até o início dos anos 80, colocando em evidência as consequências econômicas, sociais e culturais do processo de modernização e industrialização do país. O filme é uma viagem ao profundo (interior) e às regiões mais afastadas do país.

O ponto de partida é em alguma cidade longínqua, localizada no extremo norte do país. A Amazônia é imaginada pelos personagens como um lugar exótico, de riquezas naturais e habitado somente por índios. Mas, ao longo da viagem, Lord Cigano vê cenas de desmatamento, de ocupação e exploração de terras pelos estrangeiros, além da aculturação indígena e da pobreza material e intelectual do povo da região.

Na passagem pelo sertão nordestino a caravana sente na pele o subdesenvolvimento econômico, a pobreza extrema e a religiosidade exacerbada - símbolo da esperança do povo brasileiro. Nas cidades urbanas do nordeste, cercadas de belas praias, a trupe assiste às primeiras consequências do crescimento populacional – trânsito pesado, poluição e queda da qualidade de vida. É o processo de ocupação do espaço urbano, junto com a especulação imobiliária, o consumismo acelerado e a degradação ambiental.

E, seguindo por estes caminhos, o grupo de artistas busca seu lugar ao sol - para fazer a vida e enricar – quem sabe na cidade de “Altamira”, por onde passa a rodovia Transamazônica?

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A caravana “Rolidei” é o olho do diretor que observa, mostra e devolve a cena fazendo crítica com humor e ironia. A caminhonete dos mambembes faz um passeio atento a essas contradições do desenvolvimento não-sustentável. Se, por um lado, o país cresce abrindo estradas, ampliando as comunicações, os negócios e ligando cidades, por outro, ele desmata, invade propriedades e expulsa a população indígena do seu lugar de origem. As impressões dos personagens são de um progresso transgressor, produto de um governo que não construiu nenhum projeto ou alternativa para os deserdados do país. É o progresso do capitalismo selvagem.

A caravana segue mostrando o poder das novidades como a televisão – o novo circo eletrônico que mobiliza e enfeitiça o povo de maneira geral e, principalmente, as gentes das pequenas cidades. A caravana mambembe compete com a televisão e explora lugares aonde as “espinhas de peixe” (antenas de TV) ainda não chegaram. Em uma cena do filme, as pessoas sentam para assistir à novela “Dancing Days” em praça pública, o que atrapalha os negócios da caravana. O espetáculo visual é outro; são as novas modas nas músicas, nas roupas e nos comportamentos ditados e copiados da telinha da TV.

Os artistas da “Rolidei” seguem registrando as transformações do novo Brasil. Este país “novo” que está nascendo também está enterrando um Brasil rural, arcaico e antigo. O filme dá um bye bye, ainda, aos sonhos de toda uma geração que lutou por mudanças no campo político, social e econômico. O sonho de um país mais socialista, com prioridade no desenvolvimento do seu povo, e na construção de uma nação mais autônoma e soberana. É o enterro simbólico de um projeto de intelectuais e artistas e não de toda a nação brasileira. O projeto de um Brasil para todos representava o pensamento das pessoas que estiveram nas ruas, nos protestos e nos comícios antes e pós-68: militantes de partidos de esquerda, políticos, trabalhadores, estudantes e artistas como o diretor Cacá Diegues e Chico Buarque, que assina a trilha sonora do filme.

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Nos anos 70 e no país da ditadura militar, a caravana deixa poeira por onde passa e simbolicamente dá “bye bye” àquilo que poderia ter sido. O bye bye em Inglês, proposital, deixa claro que agora as portas estão abertas aos estrangeiros e aos americanismos que tomaram conta do cenário cultural nos anos 80. Os caminhos são novos e as estradas desconhecidas, assim como os efeitos da entrada do capital estrangeiro no país através da invasão das multinacionais. Além disso, há todo o processo de importação dos modos de ser e de viver dos americanos consumidos pelo povo através de seriados enlatados, o que era visto como uma ameaça a produção cultural e artística brasileira.

O filme consegue ser, ao mesmo tempo, dramático, divertido e sugestivo. Ele desvenda o que está em curso e, inevitavelmente, leva o público a pensar em como aquilo era antes. O espectador também fica mobilizado a pensar e até a rever (pra quem assistiu em 1980) suas ideologias e atitudes enquanto cidadão. Pra quem assiste hoje, o filme é tão atual quanto provocante, pois aquelas cenas desbravadoras do nosso território persistem, mas aprofundadas, de maneira tal, que parece irreversível como no caso da exploração estrangeira e criminosa da Amazônia.

Os problemas sociais dos anos 70 são os mesmos de hoje, porém mais complexos e mais difíceis de serem resolvidos. O crescimento econômico continua sendo mais importante que o investimento na infraestrutura das cidades, na educação, na cultura e na saúde do povo. E, continuamente, os interesses dos grandes grupos financeiros tanto nacionais quanto internacionais comandam as prioridades do país.

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E assim ... o Brasil vai jogando poeira em quem sem nome e sem berço vai ficando nos confins e nos grotões do país. Mas a caravana não deixa de notar e de destacar o povo de cada local. A própria “Rolidei” retrata esse povo que é criativo, original, alegre e gentil, e que com tudo contra consegue sobreviver dando um “jeitinho”. A caravana é o símbolo do nosso povo que vai vivendo à margem da sociedade utilizando seus múltiplos talentos. Daqueles que não sabem bem aonde isso vai dar, mas que procuram seu lugar no mundo. É o retrato também de um povo sem preparo; sem educação, sem muita formação de valores, princípios ou ideais. É a simples aventura de viver, sem muitas referências ou moral. Os personagens são movidos pela emoção, pela adrenalina, mas também pela razão, pelo trabalho de matar um leão por dia. Mas o autor leva o público de novo a pensar: aonde isso vai dar...

Bye Bye é como uma estrada - encruzilhadas, sinais e desafios – em que todos nós estamos na busca por um caminho. O seu maior mérito é fustigar essa realidade com um roteiro simples, mas cheio de significados, e que indaga sobre as várias questões brasileiras de uma forma leve e sensual, com todas as cores e facetas que compõem o nosso país.

Assista ao filme aqui:


Adriana Borges

Ariana, idealista e aventureira. Curto a natureza e desbravar o mundo. Estou descobrindo o sentido da vida. Quero fazer muitas coisas mas ainda não encontrei tempo. Um dia quero perder o medo e pular de bungee jump!.
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