my cup of tea

Olhares sobre a vida, encontros, significados, filosofia.

Adriana Borges

Ariana, idealista e aventureira. Curto a natureza e desbravar o mundo. Estou descobrindo o sentido da vida. Quero fazer muitas coisas mas ainda não encontrei tempo. Um dia quero perder o medo e pular de bungee jump!

Funk - cultura, democracia e diversidade

O funk é uma mistura de ritmos e de influências musicais que conquistou o mundo. Com sua batida envolvente e solta, ele faz parte da balada de jovens de todas as classes sociais, desde os bailes de favela às boates da zona sul. Com raízes na música negra americana, o ritmo visto somente como diversão também tem sua face mais densa e engajada. Funk também é atitude e compromisso!


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A rapper Karol Conka e a funkeira Ludmilla no palco do Prêmio Multishow 2017

O funk faz parte de um movimento cultural muito maior e que está espalhado pelo mundo inteiro. Ele nasceu nos Estados Unidos, como uma mescla de ritmos negros como R&B, soul, rock e a música psicodélica, no final da década de 1960. O movimento maior, batizado de “Hip Hop”, foi criado pelo DJ americano Afrika Bambaataa, em meados dos anos 70, e se fortaleceu no início dos anos 80, devido ao alcance da indústria cultural americana. O funk e o rap popularizaram-se rapidamente, agregando aos ritmos outros sons, sob o título de “pop music”.

O grande sucesso de público e a visibilidade dos artistas americanos na grande mídia geraram uma globalização do hip hop e dos seus ritmos, mas também contribuiu para uma certa desagregação do movimento ao longo dos anos. Ao mesmo tempo em que os princípios do hip hop foram divulgados para o mundo e conquistaram uma legião de adeptos, o movimento enfrenta os desafios da mercantilização da sua cultura e da sua arte.

O movimento hip hop não se trata apenas de uma “comercialização” de músicas, ideias, práticas, modos de se fazer cultura, mas sim de uma organização social fundada por jovens negros que lutam por inclusão social e o direito à cidadania. O movimento tem como bases a identificação de sujeitos sociais, a apropriação de espaço público e a valorização social, política e cultural de um grupo.

A linguagem pela qual o hip hop se expressa, incluem o rap e o funk como ritmos principais, aliados aos sons eletrônicos criados pelo DJs. O MC é aquele que dialoga, primeiramente, com a sua comunidade, com o local onde está inserido e que depois amplia este discurso para toda a sociedade.

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Afrika Bambaataa - criador do Movimento Hip Hop

Funk X rap - distinções

Dentro do movimento hip hop, o rap é um ritmo muito mais carregado de contestação, é musica de protesto e visa à conscientização do sujeito, o protagonismo social, associado a um discurso, a uma mensagem, a uma fala que é essencialmente politica. O rap tem um papel de formador e questionador, que abre a cabeça do sujeito e o faz pensar, reagir e enfrentar a sua realidade que é dura e, muitas vezes, embrutece. O rap atua como um caminho para a inserção social e para a ressocialização do sujeito que também está em situação de vulnerabilidade social.

Em meados dos anos 80, o rap chegou ao Brasil, estabelecendo um diálogo muito produtivo e enriquecedor nas comunidades de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre. Ao longo do tempo, a partir dos anos 90, o estilo conquistou um público e o reconhecimento na mídia, nomes como Rappin Hood, Thaíde, DJ Hum, Racionais MCs e MV Bill ainda são referência no cenário atual.

Desde os anos 90, o rap vem se atualizando numa direção mais popular e abrangente, se mesclando a outros ritmos como o samba, reggae, funk, o rock e a MPB (Gabriel O Pensador, O Rappa, Charlie Brown Jr.,Planet Hemp, Marcelo D2) e ampliando seus temas, tratando não só da vida no gueto, mas também do cotidiano nas grandes cidades urbanas. Atualmente, dentro do universo masculino, os rappers Emicida, Projota, Rashid, Rael e Criolo são destaques.

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Os rappers Rashid, Emicida e Projota

Hoje, podemos dizer que o rap se estabeleceu no mercado mundial, principalmente nos EUA, mas se afastou um pouco dos seus objetivos iniciais, na medida em que muitos artistas se afastaram das letras mais fortes e contundentes, suavizando suas mensagens para alcançar um grande público. Uma estratégia de marketing que enriqueceu e enriquece muitos artistas em todo o mundo, nos mais diferentes estilos e ritmos.

Assim como o rap, o funk também é uma das formas de expressão do hip hop. Ele assume uma expressão mais corporal, mais performática e livre. O funk, como ritmo, sempre foi mais associado ao momento de diversão nas comunidades. Com batidas contagiantes, envolventes e letras sensuais, ele foi feito muito mais para dançar do que para dialogar com seu público.

A proposta inicial do funk se concretizava através da dança dos b-boys e das b-girls, grupos de dançarinos americanos, que faziam uma disputa de melhor performance através da dança. Eram os anos 80, a época do break dance, que virou uma febre mundial, assim como um de seus ídolos, Michael Jackson, que também cantava soul, funk, black music em geral. Um dos princípios básicos do hip hop consiste em transformar a briga, a disputa de jovens por espaço e território em uma competição saudável através da produção de cultura e de arte, seja ela a produção de uma poesia, uma rima, uma letra de música, um desenho, um grafite ou a criação de uma nova coreografia a ser copiada por muitos. Nessa época, o hip hop floresceu.

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O poder da Internet e da criatividade

Hoje, a música mundial passa por grandes mudanças, de modos de produção, comercialização e distribuição. Estes processos antes totalmente dominados pelas grandes gravadoras, hoje podem ser manipulados em pequenos estúdios caseiros e através da Internet. Ela trouxe mais rapidez e democracia, além de uma maior diversificação musical e a composição de novos e diferentes públicos.

Esta mudança tecnológica na produção musical abriu caminho para que novos artistas inaugurassem uma forma mais direta de dialogar e falar com seu público, assim como os artistas do funk e da periferia em geral encontraram mais espaço de produção e disseminação dos seus produtos culturais.

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Artistas da periferia tem sua própria plataforma no youtube chamada KondZilla

A era da indústria cultural massiva e dominadora já passou. Os tempos são outros. Há mais autonomia, mais liberdade de expressão, mais troca de informação e conhecimento e deve haver, portanto, mais tolerância. O funk carioca é mais um ritmo brasileiro, é mais uma opção. Assim como o sertanejo universitário, o rock heavy-metal, o axé, o xote, o forró, o samba, o afoxé e a chamada MPB – que engloba tudo isso, tamanha sua fusão, hibridez e diversidade.

A criatividade e a reinvenção nas letras e nos ritmos, um dos princípios do hip hop, é também a nossa maior marca em termos de produção cultural. O Brasil, por ser um país tão grande e diverso, não poderia ter uma cultura única. A Internet brasileira reflete toda nossa inspiração, gosto e atitude. E toda nossa riqueza cultural deriva desta capacidade que possuímos de nos apropriarmos de algo já digerido e de reinventá-lo com propósitos artísticos e culturais.

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Chico Buarque e Dream team do passinho

Funk americano, brasileiro e carioca

O nosso funk é tão quente quanto o funk americano do incrível James Brown “Get up” (I feel like being a sex machine), um de seus grandes sucessos, é uma música que fala de sexo claramente. E o mais bacana e mais envolvente na música é o ritmo e não a letra. É inegavelmente o ritmo, o balanço que movimenta e agrada as pessoas. A mensagem do funk é mexa-se, dance, movimente-se, viva. Esta é a “onda” que certamente envolve e se identifica com os jovens de uma maneira geral.

O funk e o Rio de janeiro tem uma história de amor antiga, uma identificação rítmica, que nasceu nos primeiros bailes ainda anos de 1970. Os primeiros funkeiros brasileiros apareceram nos anos 80 e se estabeleceram nos anos 90. O estilo é associado à favela, mas agrada a todas as classes sociais.

O funk carioca é um estilo jovem e quente, como é a alma carioca, com a linguagem típica e o jeito de ser carioca, e se tornou muito popular no Brasil inteiro. Nos anos 80, a Xuxa foi uma grande apoiadora de artistas como Claudinho e Buchecha, Pepê e Neném, Latino, Furacão 2000 e outros. Os ritmos dessa época eram mais melódicos e românticos, falavam da vida na favela sim, mas também de amor e outras coisas.

O funk não é um produto único, ele é bastante diversificado no mundo e no Brasil. Ele tem várias vertentes e subvertentes e vai das letras mais suaves e sensuais até os chamados proibidões, que não só fazem referência ao mundo do crime, mas também são pesados e fortes nas mensagens e nas letras que são de protesto. O funk, neste sentido, é uma porrada! Bate direto em vários pontos da nossa ferida - a exclusão social, a marginalização do povo negro, o racismo, o preconceito, a discriminação, a corrupção e os desgovernos, por fim, escancara a barbárie em que vivemos.

Delação premiada - MC Carol

O funk carioca, na verdade, fala não só de sua tribo e para sua tribo. Ele é revelador de uma realidade que é ampla e mundial, diversificada, diferente, mas ao mesmo tempo muito semelhante. Por isso, a cultura hip hop se espalhou por todo o mundo, conectando jovens de vários países, com diferentes culturas, mas com os mesmos problemas como pobreza, violência, falta de educação, cultura e diversão.

A grande diferença no cenário atual brasileiro é que o funk carioca conquistou uma projeção na mídia comercial muito maior do que o rap e outros ritmos brasileiros. E os grandes consumidores dos sucessos do funk são a classe média e a classe A que ouvem, dançam e curtem muito. Seu sucesso é resultado de uma apropriação cultural entre classes sociais, que juntas compõem este mercado que é amplo e bastante distinto. O funk se popularizou falando muitas gírias e palavrões, expressões engraçadas criadas pela periferia, mas também discute e politiza a realidade social, ainda que muitos sucessos não tragam essa ideia.

Há funks e funks, assim como há rappers e rappers. E hoje há, principalmente, rappers e funkeiras feministas que falam do que é preciso, mandam seu recado forte e direto contra o machismo, o preconceito racial e social, valorizando a estética negra, fazendo cultura e política para conscientizar a periferia. Nomes como Karol Conka, MC Carol, Ludmilla e MC Sofia são destaques na cena.

Karol Conka e MC Carol falam sobre o impacto do funk e do rap

Para fechar, o movimento hip hop se insere na perspectiva da arte contemporânea por toda sua história, desenvolvimento e produção. O funk, assim como o rap mais engajado, é uma escolha musical que muita gente faz de forma consciente, por identificação com o ritmo e com seu conteúdo. Ele é, essencialmente, para todo um grupo social extremamente oprimido e sem voz, um veículo de comunicação, de produção de cultura e de arte.

Usando os conceitos de “lugar de fala do outro”, da filósofa e escritora brasileira, Djamila Ribeiro, podemos dizer que o funk é um lugar de fala, assim como o rap é um lugar de fala. Falas que devem ser ouvidas e compreendidas dentro do seu contexto social e econômico, só assim elas fazem sentido e podem fazer a diferença.

Entrevista com a filosófa e escritora, Djamila Ribeiro, no canal GNT

Quem quiser saber mais sobre o movimento hip hop leia aqui


Adriana Borges

Ariana, idealista e aventureira. Curto a natureza e desbravar o mundo. Estou descobrindo o sentido da vida. Quero fazer muitas coisas mas ainda não encontrei tempo. Um dia quero perder o medo e pular de bungee jump!.
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