narrativas visuais

reflexões e apontamentos sobre artes visuais na contemporaneidade

Arlete Fonseca de Andrade

Paulistana, vegetariana, tem formação em ciências humanas e sociais e é apaixonada por animais e artes visuais. Desde 2009 participa de cursos, curadoria, exposições e escreve artigos de arte.

Call Me Hélio, Call Us...

Hélio Oiticica - arte, cultura e sociedade: ontem e hoje.


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Em tempos tão conturbados no cenário político e social brasileiro, entraves e impasses, distorções nas informações ou ausência delas, sem contextualização histórica, ética ou ao modo da clientela que se deseja atingir, a arte é o único respiro ou aspiro nesse momento e, quem sabe, possa nos livrar do véu espesso que impede uma visão ampla e iluminada para reflexão de nossas mentes.

Bate um saudosismo. De um tempo, de uma geração de artistas não tão distante de nós, porém engajada e atuante. Uma época que não vivi, mas reverbera diante de tanto talento e criatividade. Refiro-me aos neoconcretistas Hélio Oiticica, Lygia Pape, Lygia Clarck, entre outros, que inovaram as artes plásticas no Brasil, abolindo conceitos cientificistas e positivistas advindos do concretismo, e recuperar aquilo que é humano, sensível, pois a arte não se resume apenas ao objeto, mas tem sensibilidade, expressividade, subjetividade.

Dentre as diversas contribuições dessa geração, não somente na arte, mas para a cultura de modo geral, destaco Hélio Oiticica e sua incessante busca pela superação da ideia da obra de arte como tradicionalmente definida, incluindo em seus projetos, o espectador numa posição de participante, ou seja, conduzindo-o ao “exercício experimental da liberdade” como bem disse Mário Pedrosa.

Oiticica buscou dialogar com o público além do aspecto estético e de classes. Em suas obras, trás a cultura popular, a cultura das comunidades dos morros cariocas, das ruas, para espaços hegemônicos, possibilitando a mediação entre os poderes simbólicos, políticos e culturais. Seus projetos, acompanhados de elaborações teóricas, comumente com a presença de textos, comentários e poemas, objetivava uma ativa integração com o público.

A produção artística de Hélio Oiticica possui dois períodos importantes: uma mais visual, que se inicia em 1954 na arte concreta até a formulação dos Bólides em 1963, e outra sensorial, que segue até 1980. Isso demonstra que para ele a arte não possui somente o lado estético. Toma por referência o contexto social, cultural, as pessoas "comuns", principalmente os marginalizados, os excluídos.(Favaretto, 1992, p. 49)

Exemplo dessa experiência sensorial foi seu envolvimento no final da década de 1960 com a comunidade do Morro da Mangueira. Desta união, nascem os Parangolés, que na gíria do morro quer dizer conversa fiada. São tendas, estandartes, bandeiras e capas de vestir que fundem elementos como cor, danças, poesia e música que pressupõem uma manifestação cultural coletiva.

Posteriormente a noção de Parangolé é ampliada: “chamarei então Parangolé, de agora em diante, a todos os princípios formulados aqui... Parangolé é a antiarte por excelência; inclusive pretendo estender o sentido de 'apropriação' às coisas do mundo com que deparo nas ruas, terrenos baldios, campos, o mundo ambiente, enfim...” (Oiticica, 1986, p. 79).

No espírito desse novo conceito, protesta na abertura da mostra Opinião 65, no MAM/RJ, que, integrantes da escola de samba do Morro da Mangueira são impedidos de entrar. Realiza então uma manifestação coletiva e performática em frente ao museu, e os Parangolés são vestidos por seus amigos sambistas que bailam objeto e cor no espaço.

As questões levantadas com o Parangolé desembocam nas Manifestações Ambientais, com destaque para as obras Tropicália, MAM/RJ 1967, Apocalipopótese, Aterro do Flamengo 1968 e Éden, Londres 1969.

Tropicália, apresentada na exposição Nova Objetividade Brasileira, faz referência à arquitetura das favelas, são labirintos sem teto, e um aparelho de TV no interior sempre ligado.

Já Éden, considerada sua maior exposição em vida, é composta de Tendas, Bólides e Parangolés para vivências individuais e coletivas. Com essa visão utópica de vida em comunidade, surge a proposição Crelazer, ligada à percepção criativa do lazer não repressivo e à valorização do ócio.

Apesar de Oiticica não conceituar sua arte no sentido de protesto político, seu engajamento e produção ultrapassam essa dimensão. Sua veia anarquista, herança de seu avô, José Oiticica, contesta, afronta os padrões da época, do determinismo cultural estético legitimado pela dominação das elites, do Estado, do discurso estéril que impõe seus interesses daquilo que é bom e ruim, feio e belo acima de tudo e todos.

A criação dos Parangolés e Penetráveis tem como proposta essa emergência de abandonar a distância que existia entre arte e expectador. Para Hélio Oiticica a arte tem sentido quando ela possibilita interação com todos, como foi o projeto Éden no sentido estético e sensorial. Romper com as instâncias simbólicas de violência, estabelecendo um diálogo polifônico, unindo diferenças entre grupos e indivíduos.

"...neste espaço, cada proposição coloca a seu modo uma questão vital que perpassa sua produção: a superação de uma arte de cunho geométrico-representacional para a proposição de experiências artísticas vivenciais centradas no corpo e na “ação comportamental como uma força criativa." (Oiticica, 1969, tombo 0486/69)

Falta nos faz Hélio Oiticia. Que não separava a arte do mundo. Arte para ele é o mundo. A conversa fiada de botequim, a música do povo, o samba, a cultura popular. Seus projetos, experimentos, obras não somente valorizou o modo de ser, de viver do cidadão "comum", mas proporcionou visibilidade e voz aos excluídos e marginalizados trabalhadores de nosso país.

Por fim, uma questão sobressai: será que não aprendemos a lição ou esquecemos quem fomos, quem somos?

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Bibliografia:

Braga, Paula: Fios Soltos: a arte de Hélio Oiticica, ed. Perspectiva 2011; Favareto, Celso: A invenção de Hélio Oiticica, ed. Edusp 1992; Oiticica, Hélio: Aspiro ao grande labirinto, ed. Rocco 1986; Oiticica, H. The Senses Pointing Towards a New Transformation(22/12/1969).

http://enciclopedia.itaucultural.org.br/#!/tipo=grupos,obras,eventos,instituicoes,termos-e-conceitos&q=Heio%20Oiticica

* O título do artigo faz referência a obra Call Me Helium (foto) que reúne instalação, performance e exposição, resultado de uma das parcerias de Hélio Oiticica com amigos e artistas, os irmãos Andreas e Thomas Valentin, responsáveis pela concepção, resgate e execução do projeto. http://www.callmehelium.com/4-0-quemsomos.html


Arlete Fonseca de Andrade

Paulistana, vegetariana, tem formação em ciências humanas e sociais e é apaixonada por animais e artes visuais. Desde 2009 participa de cursos, curadoria, exposições e escreve artigos de arte..
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