narrativas visuais

reflexões e apontamentos sobre artes visuais na contemporaneidade

Arlete Fonseca de Andrade

Paulistana, vegetariana, tem formação em ciências humanas e sociais e é apaixonada por animais e artes visuais. Desde 2009 participa de cursos, curadoria, exposições e escreve artigos de arte.

Lygia Pape e a Cidade Teia

Lygia Pape e a Cidade Teia - emaranhado, enredamentos, projetos: vida e morte, dores e amores.


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Desde que a obra de arte emancipou-se do conceito de arte pura, decretado por acadêmicos e críticos, do meio: tela, mármore, madeira ou pedra, e rígidas técnicas, toda uma geração audaciosa e notável abraçou a arte priorizando a ideia e ação a partir da redefinição de Marcel Duchamp, trazendo-a para fora do cubo branco, buscando ultrapassar limites e conceitos tradicionais e inclusão, participação do público. No caso brasileiro, vários artistas do neoconcretismo conseguiram responder positivamente a esse desafio. Assim fez Lygia Pape na sua trajetória artística, 1950 até 2002, que aqui destacarei e descreverei na instalação Ttéia 1C.

Em uma grande sala escura, diversos fios de cobre dourados são esticados e alinhados no sentido vertical e perpendicular, presos em plataformas de madeira quadradas que são fixadas no teto e no chão, iluminados por pequenos focos de luz salientando suas formas no espaço. Assim é a instalação Ttéia 1C (2002), última etapa do projeto de pesquisa da artista Lygia Pape na exploração da linguagem geométrica que iniciou nas séries Relevos (1955-56) e Tecelares (1956-57) - figuras geométricas em xilogravuras - que precedeu e inspirou a série Ttéias nos anos de 1970, junto com seus alunos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, na cidade do Rio de Janeiro.

Ttéias evidenciou a maturidade e desenvolvimento técnico de Pape ao explorar elementos tanto da materialidade: espacialidade, luz natural e artificial, tipo dos fios: cobre, prata, nylon transparente, como o elemento poético aliando o tempo subjetivo e a participação do público. Pode-se dizer que este projeto é o momento em que o desenho sai do papel e se concretiza num objeto tridimensional, prevendo o deslocamento e interação entre obra e espectador. Seus fios em grande dimensão capturam ocupam e reinventam espaços existentes, criam volume, cruzam-se como se fossem teias de aranha. A luz que incide ressalta aos olhos sua materialidade e, proporciona dimensões variadas da composição de suas formas geométricas.

A criação das Ttéias foi inspirada na relação intima de Pape com a cidade do Rio de Janeiro. Seu hábito de caminhar por diferentes localidades e polos da cidade, fez com que percebesse seu dinamismo, movimentos, corpos, pulsões de vida e de morte. Um “espaço agressivo, terrível, furioso” – ... para ela um espaço imantado, que a atraía por ser lugar em que se identificava de pronto “a tragédia do homem anônimo, perdido e só”, sendo por isso “desesperador e belo”. (Moacir dos Anjos. Concinnitas ano 12, volume 2, número 19, dezembro 2011.)

A artista cria possibilidades de unir lugares distintos relacionados com sua vida e obra, na sua cidade-teia. Assim como uma aranha que busca mapear seu território por escolhas individuais, deslocando-se para os pontos que mais a atraísse, Pape emprega sua sensibilidade neste emaranhado que se entrecruzam em espaços vitais em que todos podem tecer seus projetos de vida e morte. Ttéia 1C é a conclusão deste processo que une arte, escolhas, dores, amores, ideias, planos de um modo de sentir e de viver.

A instalação Tteia 1C encontra-se para visitação na Galeria Lygia Pape no Centro de Arte Contemporânea Inhotim - Brumadinho/MG. http://inhotim.org.br/ lygiapape.jpg

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Arlete Fonseca de Andrade

Paulistana, vegetariana, tem formação em ciências humanas e sociais e é apaixonada por animais e artes visuais. Desde 2009 participa de cursos, curadoria, exposições e escreve artigos de arte..
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