narrativas visuais

reflexões e apontamentos sobre artes visuais na contemporaneidade

Arlete Fonseca de Andrade

Paulistana, vegetariana, tem formação em ciências humanas e sociais e é apaixonada por animais e artes visuais. Desde 2009 participa de cursos, curadoria, exposições e escreve artigos de arte.

Casa de Pedra: Ressignificação do Sentido dos Objetos


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Objetos na era pós industrial são meros utilitários para serem consumidos e descartados num curto espaço de tempo, no entanto, a história nos mostra que nem sempre foi assim o destino dos objetos. Houve um tempo em que eram tão importantes que através deles podia-se contar a vida de uma pessoa como: onde nasceu, cresceu, se pertencia a uma família tradicional, respeitável, trabalhadora ou não, religiosa ou pagã, entre outros atributos sociais e culturais. O mesmo sentido tinham as roupas. Valiosas, era usual serem dispostas nos testamentos dos aristocratas e camponeses na renascença europeia, conforme destaca Peter Stallybrass no ensaio “O Casaco de Marx”. As roupas eram avaliadas em moeda e atributo, pois estava atrelada a memória, classe e patrimônio cultural e social principalmente em relação a famílias de maior prestígio. Com a aceleração do capitalismo estas particularidades esvaziam-se e os objetos transformaram-se em pura mercadoria, um acessório para satisfazer o desejo dos consumidores. Falta-nos perceber que objetos descartados, trocados e esquecidos um dia tiveram sua importância. Neles, a história se faz presente, seja poque nos traz a lembrança de uma pessoa especial ou de um momento importante. Mas, como tudo não é estático e absoluto, recentemente conheci no bairro de Paraisópolis/SP, a Casa de Pedra, construída pelo morador, pedreiro e jardineiro Estevão Silva da Conceição, e lembrei imediatamente das questões apresentadas no preâmbulo.

Há 30 anos Estevão iniciou seu projeto, tendo como base a casa que já existia no local, e construiu três andares com cimento, ferro, pedras e uma infinidade de objetos que escolhe cuidadosamente em brechós. São xícaras, pratos, pires, relógios, talheres, broches, óculos, pulseiras, bonecas, pedras, conchas, esculturas de santos, máquinas fotográficas e de escrever, carrinhos de brinquedo, quadros, entre tantos e incontáveis, que ganharam um novo sentido e espaço a partir da percepção e olhar de Estevão. Cada objeto tem seu lugar na Casa de Pedra para unir e compor com outros, e depois são cimentados. Há uma memória afetiva em cada um deles, que a partir do projeto de Estevão encontraram propósito e sentido.

Estevão migrou da Bahia para São Paulo no final dos anos 60 em busca de trabalho na construção civil. A partir de 1975 foi morar no loteamento que hoje está localizado o bairro de Paraisópolis. Lá iniciou sua criação, e hoje o local transformou-se num ponto turístico e cultural. A Casa de Pedra é uma prática na vida do artista que ultrapassa o conceito de uso e propriedade. Estevão relata que a ideia inicial foi de construir um jardim, mas como o terreno é pequeno resolveu verticalizar. Seu jardim está no topo da casa. Um jardim suspenso com grande variedade de plantas, algumas frutíferas, atraindo diversos pássaros. Percebe-se que existe em Estevão uma necessidade de estar próximo da natureza e o bairro é muito carente de praças e jardins. Com certeza o gosto em conviver com a natureza esteve presente na história de vida de Estevão na Bahia, e a trouxe na bagagem para São Paulo transformando em prática seus anseios, ressignificando o lugar que hoje habita.

Arte, cultura, educação, patrimônio existem e coexistem em lugares que muitas vezes nem percebemos. Essa experiência possibilitou transpor a barreira do visível que a mercadoria, a cidade e o discurso nos impõem. A Casa de Pedra é um aprendizado na mudança de olhares, vieses e saberes. Permite a possibilidade de aproximações entre cidade e cidade periferia, de diálogo, troca de experiências entre cidadãos excluídos e marginalizados, e também, reconhecer em nós, novos pares.

DSC_0218.JPG DSC_0164.JPG DSC_0205.JPG Fotos: Arlete Fonseca de Andrade

Arlete Fonseca de Andrade

Paulistana, vegetariana, tem formação em ciências humanas e sociais e é apaixonada por animais e artes visuais. Desde 2009 participa de cursos, curadoria, exposições e escreve artigos de arte..
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