narrativas visuais

reflexões e apontamentos sobre artes visuais na contemporaneidade

Arlete Fonseca de Andrade

Paulistana, vegetariana, tem formação em ciências humanas e sociais e é apaixonada por animais e artes visuais. Desde 2009 participa de cursos, curadoria, exposições e escreve artigos de arte.

A contribuição das revistas O Sacy e O Pirralho para a cultura nacional: riso, hibridação e cultura popular

As concepções históricas e culturais do riso, patrimônio da humanidade, da cultura popular, hibridação e a contribuição dos periódicos publicados entre os anos de 1910 e 1920, com destaque para O Sacy, fundado por Cornélio Pires, e O Pirralho fundado por Oswald de Andrade.


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O riso é uma das expressões mais antigas presentes na história da humanidade. Somente o homem possui essa expressão dentre todas as espécies de animais. No entanto, desde os primeiros registros de que se tem notícia, principalmente na cultura ocidental, seus desígnios sempre foram de cunho negativo. Basta analisar alguns textos da antiguidade para perceber a conotação marginal que lhe foi atribuído. Um fator que corrobora é o incomodo que sempre despertou nas classes hegemônicas em relação àqueles que não se limitavam em expressá-lo devido seu viés libertador, pois, sem esforço, de acordo com Oswald de Andrade, o riso “deflagra um estado de contenção, dribla o nervosismo, os autoritarismos e a pose. Instaura o insólito, o bizarro, o anormal”.

A notar, vários filósofos gregos como Eurípedes, Homero, Sócrates, Aristóteles, entre outros, escreveram sobre sua natureza. Eurípedes, por exemplo, em um fragmento da “Melanipeia”, refere-se ao riso da zombaria, e o condena pelo caráter maldoso e brutal naqueles que não possuem sábios pensamentos e recorrem a essa forma para se expressar. Já Homero, o descreve como duro e agressivo e, Sócrates, como irônico, a serviço da busca pela verdade. Aristóteles afirma que o homem “é o único animal que ri“ e “nenhum animal ri, exceto o homem”... “o riso existe nele – e só nele – em estado potencial, mas pode haver um homem sem nunca rir”. (Minois, 2003: 72) O filósofo também menciona em seus escritos que há pessoas que nunca se expressam pelo riso e não apreciam brincadeiras. Seu excesso, adverte, pertence aos bufões. Assim, o ideal é o riso domesticado que expressa equilíbrio daqueles que integram a “boa sociedade”. O riso aberto e escancarado deve-se deixá-lo no seu lugar de pertencimento, as classes inferiores. As representações cômicas também não são apreciadas, pois pertencem a um gênero literário inferior, diferente da tragédia que enobrece o espírito humano. (Minois, 2003: 73) Essa tendência ao não reconhecimento do humor, da comédia, acredito que tem fundamento na natureza primária do homem - em processo civilizatório - além do aspecto satírico que dribla situações de conflito nas relações sociais no abuso de poder e autoritarismo. Com o decorrer dos tempos o riso passa a adquirir diferentes conotações, mas o aspecto negativo permanece. Na idade média, por exemplo, ele foi condenado, mas de outra ordem, associado ao profano, ao pecado e restrito as camadas populares permitindo evoluir fora do controle hegemônico.

Desde os períodos mais remotos, a história nos revela que o homem estruturou a sociedade - suas relações e espaços sociais - em segmentos: dominador/dominado, erudito/popular, urbano/rural, tradição/modernidade, entre outras, pela conquista de poder. Neste contexto, há diversos estudos e correntes teóricas nas ciências humanas e sociais que argumentam a respeito, e, dentre eles, destaco os conceitos de hibridação (Canclini) e linguagens (Bakhtin) para entendermos os processos que levaram a tais estruturações. Comecemos pela hibridação que trata da relação entre diferentes povos em diferentes territórios em função dos deslocamentos e rotas migratórias e a contribuição de diferentes culturas nos processos interétnicos, cruzamentos de fronteiras que “modificaram conceitos sobre identidade, cultura, diferença, desigualdade, multiculturalismo...” (Canclini, 2006, XVII), e nas línguas, que desde a modernidade coexistem, e por isso, não são puras. Porém, se o hibridismo cultural contribuiu na inter-relação entre diferentes culturas e suas práticas, também resultou em conflitos no que se refere à ocupação de espaços de pertencimento, identidade e territorialidade. Os conflitos étnicos e culturais nesta base excluíram populações migratórias do processo de pertencimento e desenvolvimento local - cidades, estados, países, grupos, classes - por grupos hegemônicos resultando na necessidade de reinventar/recriar o mundo que habitam, com suas práticas, dimensões, expressão e convivência que muitos estudiosos irão denominar de popular, e o riso é uma das que faz parte dessa dimensão.

O filósofo Mikhail Bakhtin, em sua obra A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento traz um estudo aprofundado sobre a dimensão do riso, apontando para questões importantes dos estudos culturais não explorados, e dirá que graças à sua existência “extraoficial”, o riso irá se distinguir por seu radicalismo, liberdade e lucidez, exercendo sua função de forma autônoma, liberta do controle das autoridades. (Bakhtin, 1987) “O riso é um mundo complexo que nos permite penetrar na natureza profunda do ser humano e também da própria arte e literatura satírica de todos os tempos.” (Bakhtin, 1987) Analisa ele também, a cultura popular e o riso através da carnavalização que tem como mote principal a comicidade como ato de transformação nas relações sociais e de poder, e desde os tempos mais antigos, o riso contempla uma das fontes de inspiração de uma nova vida cotidiana, pois o princípio carnavalesco irá abolir as hierarquias e nivelar todas as classes sociais livre de regras e das restrições sociais convencionais durante sua manifestação. Bakhtin nos revela que “durante o carnaval, tudo o que é marginalizado e excluído - o insano, o escandaloso, o aleatório - se torna o centro de toda atenção nas relações sociais, numa explosão libertadora. O princípio corpóreo material - fome, sede, defecação, copulação - torna-se uma força positivamente corrosiva, e o riso festivo celebra uma vitória simbólica sobre a morte, sobre tudo o que é considerado sagrado, sobre tudo aquilo que oprime e restringe.” (Stam, 1992, 43) Além do carnaval, as lutas de classes, força motriz das grandes revoluções, contribuíram para que a cultura popular conquistasse seu protagonismo e autonomia como ocorreu na revolução francesa com o colapso e derrubada da monarquia absoluta pelos movimentos políticos, de massa, e de camponeses. Porém, essa conquista não impediu deformações do riso popular e da arte satírica com o nascimento do romantismo no campo literário do século XVIII, incutindo novamente conceitos e idéias negativas vindas da estética burguesa da idade moderna.

Sobre cultura, principalmente o aspecto popular há um grande debate e série de estudos em diferentes segmentos. Destacamos no campo literário e filosófico, Mikhail Bakhtin, nos estudos híbridos, Nestor Canclini, e no histórico Peter Burke. Burke nos dirá que cultura no tempo e espaço é a “cultura não oficial, a cultura da não elite” das classes subalternas como bem denominou o filósofo Antonio Gramsci. A não elite no início da Idade Moderna na Europa era composta por “todo um conjunto de grupos sociais mais ou menos definidos, entre os quais se destacavam os artesãos e os camponeses”. (Burke, 2010,11). O sentido de povo foi descoberto tardiamente pelos intelectuais, entre final do século XVIII e começo do XIX, sendo necessário ressignificar o conceito de cultura, pois, antes designava “a arte, literatura, música e não seria incorreto descrever os folcloristas do século XIX como buscando equivalentes populares da música clássica, da arte acadêmica e assim por diante.” (Burke, 2010, 22)

Relativizando tais pensamentos com as transformações históricas e culturais que ocorreram em São Paulo no final do século XIX e começo do século XX, nota-se que a cidade passava por uma grande transição. Ainda não deixara de ser província com suas características coloniais, mas já convivia com a rápida modernização e vivência cotidiana de uma diversidade cultural decorrente da imigração, ex-escravos, fazendeiros, caipiras, intelectuais, artistas, burguesia, políticos, entre outros, como bem descreveu Maria Odila Silva Dias sobre o convívio e conflito entre mundos adversos e suas complexidades. “Um mundo não substitui o outro, mas foi sutilmente brotando um de dentro do outro, sob formas de convívio assíduo, às vezes de concorrência aberta, outras de preconceitos disfarçados, porém sobrepostos num entrelaçar de simultaneidades de tempos sociais que se cruzaram e se urdiram juntos na urbanização incipiente de São Paulo no pré-guerra”.(Saliba, 2002, 155) Essa nova dimensão que brota na sociedade brasileira possibilitou abertura de um novo espaço no pensamento e criação sobre a cultura nacional. Nesse contexto de transição temos nas artes expressões que fogem da estética burguesa articulando a irreverência do popular e do folclórico. Na literatura brasileira, encontramos vários exemplos no final do romantismo. Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida que originalmente foi publicado em folhetins no Correio Mercantil do Rio de Janeiro, entre 1852 e 1853, é exemplo da linguagem no romance que incorpora a fala da rua, das classes populares, rompendo com os padrões românticos que retratavam os ambientes da aristocracia.

No aspecto folclórico, temos Pedro Malasartes, personagem famoso nos contos populares da cultura ibérica e brasileira, que personifica o sujeito bom de conversa e com “jeitinho” engana as pessoas pelas regiões que passa. “Malasartes” vem do espanhol, malas artes (literalmente, “artes más”), que significa “travessuras” ou, no limite, “malandragens”. Além da literatura, merece destaque os periódicos na imprensa brasileira que por meio da sátira fazem a critica ao cenário político e social da época, como também, as contradições da existência de uma cultura e identidade nacional, relativizando a consciência do homem brasileiro, entre “o que se pensa” e “o que se é”.

Sobre a atuação da imprensa, Burke dirá que durante muito tempo “a imprensa solapou a cultura oral tradicional: mas, nesse processo, também registrou grande parte dela, tornando conveniente começar quando os primeiros folhetins e brochuras estavam saindo do prelo.” (Burke, 2010,13) Nesse sentido, o começo da imprensa no Brasil revelou uma atuação importante nas primeiras publicações dos folhetins e periódicos com suas críticas e caricaturas no campo político e social em relação às classes dominantes.

Em 1822, nasce à primeira caricatura nacional publicada na gazeta pernambucana O Maribondo, denunciando de forma critica pelo viés da comicidade a situação colonial no país e a relação entre portugueses e brasileiros. Descoberta pelo historiador Luciano Magno, esta primeira caricatura foi publicada as vésperas da proclamação da independência, e ilustra um homem corcunda atormentado por um enxame de marimbondos representando as divergências entre brasileiros (os insetos) e portugueses. Inicia assim, o tom irônico e crítico da caricatura no Brasil. Porém, acreditava-se até então que o marco inicial da caricatura era de Manuel Araújo Porto-Alegre, publicada no periódico, Lanterna Mágica de 1837. No entanto, Porto-Alegre é considerado o primeiro profissional do gênero, autor, organizador e animador das artes plásticas no Brasil do século 19.

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A caricatura é uma expressão artística popular dotada de humor que retrata com distorções e exageros no desenho, situações e circunstâncias individuais e sociais em relação a vícios, hábitos costumes de um indivíduo e/ou padrões morais, estéticos e políticos na intenção de contestar as contradições e imposições hegemônicas a toda sociedade. No Brasil seu surgimento possui justamente a intenção de ironizar os descaminhos da monarquia nas questões político-sociais. Na sequência da gazeta O Maribondo, outros periódicos, revistas começam a surgir ilustrando as ironias no mesmo seguimento dos fatos políticos da época. Até o nome batizado por seus fundadores tem conotação irônica e de palavras comuns no cotidiano das classes populares como se pode notar em alguns deles: O Carcundão, O Carapuceiro, A Mutuca Picante, O Maribondo, O Sacy, O Pirralho, O Mequetrefe, A Careta, Fon-Fon, entre outros. Estes periódicos são o registro dos fatos e contextos históricos, políticos e sociais de uma época no Brasil A partir deles tem-se uma verdadeira crônica da história traçada com humor, por artistas, jornalistas e colaboradores. Uma maneira de “dar o recado” sobre o que ocorria na sociedade e “suavizar” possíveis tensões e conflitos sociais entre classes.

No modernismo, estas questões ganham força e popularidade, e na literatura temos Serafim Ponte Grande de Oswald de Andrade, que despeja um humor ácido sobre as tradições e valores da burguesia paulistana, e, Macunaíma de Mário de Andrade, que retrata o herói sem caráter ou o anti-herói que tem como frase característica “Ai que preguiça” com seus mitos, lendas e provérbios populares do folclore nacional. As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho - O Queima Campo de Cornélio Pires, também é outro exemplo do cômico e da linguagem popular na literatura. Joaquim Bentinho a princípio parece uma versão nacional de Pedro Malasartes, mas observando de perto estes dois personagens, Bentinho está como narrador das anedotas, o contador de “causos”, utilizando todas as possibilidades da narrativa oral além do pitoresco e da mentira. (Saliba, 2002, 184) Além do aspecto literário, a imprensa nacional com a publicação de diversos periódicos contribuiu também para a abertura de novas expressões, linguagens e humor. Alguns deles ainda circulavam no século XIX na fase do modernismo, e novos surgem como O Sacy e O Pirralho que aqui terão destaque.

O Pirralho (1911-1917) fundado por Oswald de Andrade e Dolor de Brito, e O Sacy (1926-1927) fundado por Cornélio Pires, foram periódicos que obtiveram sucesso de público pela irreverência nas publicações e criação de personagens populares. Vadosinho Cambará e Fidêncio (Cornélio Pires) - retrataram as mazelas do cotidiano rural no linguajar do caipira, No diálogo com Juó Bananére (Alexandre Ribeiro Marcondes Machado) representante do imigrante italiano, operário, em linguagem macarrônica ítalo-paulista. Ambos, com suas expressões linguísticas populares e cômicas, conquistaram admiradores nos diferentes segmentos da sociedade paulista.

“...Fomo assistir um cinema, que num ai na Xiririca, mais quage dei num taliano, só p´ra mor de mea Tudica, que vive tudo nervoza, e um quage tudo imprica. É o causo que o tar sojeito, no seu cachimbo pitano, na cara da minha fia, as fumaça ia sortando, injoano o estamo da pobre o marvado carcamano! Eu virei disse pr´a elle, ... “o catinguento animá! Num vê que aqui tem famia? Vire seu pito p´ra lá! ...Num amolle - ele falô - Num sô pedra de amoliá!” Garremo na discussão, que quage dava im porquera, quano chegô-se um mocinho! co seu jeito de capoera, e disse pr´o tar taliano, vá embora Juó Bananére! Ahi é que eu sube quem era o intaliano atrevido! Mais porem comigo é nove; num só nenhum Capitão, nem Piadade, nem Brotero que num sabem chegá a mão! Vassuncê faça o favo de dize prêsse canaia, que eu sô cabroco valente, que eu num sô fogo de paia, e que faço a barba delle c´o facão feito navaia! Puis adonde já se viu um home sabelizado, i num treato de luxo, c´o caximbo pindurado, sortando sarro na cara dos que tão avisinhado! ...”

Sud Mennucci comenta que “Cornélio Pires e Juó Bananére são os dois mais legítimos representantes de duas correntes do falar paulista: a do tipo indígena... e a do tipo alienígena... Cornélio Pires e Juó Bananére são humoristas. Literatos lidos com a avidez por toda a população de São Paulo, com diversos livros publicados por ambos.” (Leite, 1996) A linguagem destes personagens com suas expressões máximas da cultura popular - que passam do oral para o textual e publicado nas revistas - são um dos temas apontados nos estudos culturais de Bakhtin. Para ele a língua não é imóvel e presa as normas e regras gramaticais, e sim, viva e dá-se nas relações entre os seres humanos que elaboram seus enunciados possibilitando a comunicação entre si. (Campos, 2011,54). O enunciado é dialógico e social, diferente da oração linguística que é isolada e monológica. Ele é um acontecimento e não apenas um conceito formal. “O enunciador do discurso escolhe suas palavras e formula uma estrutura sintática com base em sua avaliação de uma situação. Sua expressão verbal não reflete só aquele contexto, é uma solução valorativa. A avaliação não se fecha no conteúdo do enunciado, mas se enraíza na fronteira viva do momento em que o dito se produz. A cada nova situação, o enunciado (até a mesma palavra) é outro e sua significação é determinada pela interação verbal entre o enunciador (o autor), o ouvinte (o leitor) e o tópico do discurso (o que, ou quem)”. (Campos, 2011, 56)

Junto ao enunciado, a entonação é outro conceito importante na linguagem para o pensamento bakhtiniano. Ambos são fundamentais no processo das relações sociais, pois marcam a comunicação e o entendimento dos signos em diferentes contextos. É por meio da entonação que o enunciador expressará sentimentos de alegria, graça, tristeza, raiva, carinho, entre outros. Para Bakhtin a “entonação é social por excelência.” (Campos, 2011, 57) Assim, enunciado e entonação estão intrinsecamente ligados aos fatores culturais e sociais - vividos em sociedade - e processam-se de forma coletiva. As ilustrações e conteúdo das revistas O Pirralho e O Sacy exemplificam bem estes conceitos de enunciado e entonação como podemos notar nas frases das capas destas revistas a seguir:

“Xipophagia - Vai gentes! Metade é intaliano metade é brasileiro... Cruis Credo!” “Não querem acreditar... São Paulo aguentará mais 4 meses e meio?” “Está na Hora - Carnavalendo o anno inteiro, “O Sacy” não se encoruja! Faz o... , a cavorteira, mas a baldes d´agua suja...” “Cumulos - Como o gordo sempre quis a madama...” “Quaresma de Crise – Chi! Está pela hora da morte e é só espinha!...” “Cruz! Credo! A família republicana alarmada... sem razão.” “O Circo da Política – O Sucesso da Temporada”

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Além das frases, a ilustração é um elemento fundamental para dar sentido daquilo que se pretendia na crítica social por meio do viés cômico e popular. Assim, tanto Oswald de Andrade como Cornélio Pires convidaram João Paulo Lemmo Lemmi (13/07/1884 - 22/08/1926) mais conhecido como Voltolino para criar as caricaturas nas revistas. Criador de um traço inconfundível, de um fino humor, Voltolino colaborou para diversas revistas e jornais satirizando os rumos da política e da sociedade paulista.

Fundador das revistas “O Sacy” junto com Cornélio Pires, atingindo grande sucesso de imediato, com tiragem de 14.000 exemplares já no 2º número, e da revista A Vespa junto com Alexandre Marcondes Machado, seu traço se completava com os textos nestes periódicos. As ilustrações de Voltolino eram famosas pela “audácia, pelo traçado ágil, nervoso e despreocupado, além do aspecto cômico, o artista conseguia transmitir um grande poder de síntese em apenas numa única ilustração, característica peculiar dos grandes caricaturistas. (Enciclopédia Itaú Cultural) As caricaturas de Voltolino casavam perfeitamente com as colunas Cartas d'Abax'o Piques (Juó Bananére), Cartas de Um Caipira (Fidêncio) e textos de Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Dolor de Brito, Di Cavalcanti, Ferrignac, entre outros, sobre as façanhas na política e na vida cotidiana paulista.

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Voltolino foi um dos maiores ilustradores do país, porém, faleceu precocemente abalando não somente amigos, mas todos da imprensa paulista (Veiga, 1961, 119). Cornélio Pires publica uma nota em sua homenagem no número seguinte da revista O Sacy dizendo “Um dos maiores caricaturistas brasileiros, talvez o maior deles, pois criou o seu traço, inconfundível e inimitável. Ninguém como ele era capaz de, em dois rabiscos, apanhar o traço caricatural ou ridículo do indivíduo. Voltolino foi um criador! ... Os políticos paulistas mais populares devem a Voltolino a sua popularidade e aqueles que não foram tocados pelo lápis do artista, aí vivem ou vegetam desconhecidos..." (Veiga, 1961, 120)

O crítico Sérgio Milliet (1898 - 1966) comenta que é impossível "entender o início do século XX paulista sem os desenhos de Voltolino do Pirralho". (Enciclopédia Itaú Cultural). Esse período propiciou a partir de uma época uma guinada positiva no que se refere ao riso, ao popular, a hibridação cultural conquistando atenção de diversos segmentos sociais ao abordar as diferenças, os fenômenos do processo de transição social, e reconhecer em cada derrota uma vitória a fim de superar obstáculos até então intransponíveis. Enfim, as questões apresentadas são inesgotáveis por fazer parte da construção de nossa cultura, pois fomos, somos e seremos protagonistas deste grande processo que damos o nome de história.

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Referências Bibliográficas

ANDRADE, A. F. de. As Estrambóticas Aventuras de Cornélio Pires e a Cultura Caipira no Cenário Hegemônico da Cultura Brasileira, Tese (Doutorado em Ciências Sociais/Antropologia) – Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais, PUC-SP, São Paulo, 2012.

BAKHTIN, M. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, Ed. Hucitec, São Paulo, 1987.

BURKE, P. Cultura Popular na Idade Moderna. Ed. Companhia das Letras, São Paulo, 2000.

CAMPOS, M. I. B. A Construção da Identidade Nacional nas crônicas da Revista do Brasil. Ed. Olho D’água, São Paulo, 2011.

CANCLINI, N. G. Culturas Híbridas. Ed. Edusp, São Paulo, 2006.

FONSECA, C. Juó Bananére o abuso em blague, Ed. 34, São Paulo, 2001.

LEITE, S. H. T. de A. Chapéus de Palha, Panamás, Plumas, Cartolas, Ed. UNESP, São Paulo, 1996.

MINOIS, G. História do Riso e do Escárnio, Ed. UNESP, São Paulo, 2003.

PIRES, C. As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho. Ed. Imprensa Nacional, São Paulo, 1987.

SALIBA, E. T. Raízes do Riso. Ed. Companhia das Letras, São Paulo, 2002.

STAM, R. Bakhtin da teoria literária à cultura de massa, Ed. Ática, São Paulo, 1992.

VEIGA, J. M. A Vida Pitoresca de Cornélio Pires. Ed. O Livreiro LTDA, São Paulo, 1967.

Consulta Online: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2488/voltolino


Arlete Fonseca de Andrade

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