narrativas visuais

reflexões e apontamentos sobre artes visuais na contemporaneidade

Arlete Fonseca de Andrade

Paulistana, vegetariana, tem formação em ciências humanas e sociais e é apaixonada por animais e artes visuais. Desde 2009 participa de cursos, curadoria, exposições e escreve artigos de arte.

José Antônio da Silva: personagem e artista de si mesmo

José Antônio da Silva, de trabalhador rural a artista plástico de reconhecimento internacional.


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Quando conheci a trajetória de vida e produção artística de José Antonio da Silva, (1909-1996) lembrei imediatamente de Cornélio Pires (1884-1958) por quem tenho grande afinidade. Mas, alguns podem questionar: quem foi Cornélio Pires e por que tal lembrança? Nas palavras de Antonio Candido que o bem o definiu diz: “Cornélio Pires foi, mais do que escritor eminente que seria preciso defender, uma extraordinária personalidade de ativista cultural. Meio escritor, meio ator, meio animador; generoso, combativo, empreendedor, simpático - a sua maior obra foi à ação nos palcos, nas palestras, na literatura falada, que perde bastante quando é lida. Como os oradores, como certo tipo de poetas, como os repentistas e os velhos glosadores do mote, a dele foi uma literatura de ação e comunhão, feita para o calor do momento e a comunicação direta, eletrizante, com o público.” (DANTAS, 1976, 03)

Cornélio Pires nasceu em Tietê, interior de São Paulo, e passou toda sua infância e adolescência as margens do rio mais importante do Estado, o Tietê. De origem humilde, autodidata e habilidoso em diversos segmentos artísticos e grande conhecedor da cultura de sua gente - a cultura caipira - traçou sua vida e sua arte a partir destes ingredientes. Seduzido pelas várias estórias que ouvia sobre São Paulo, vem para a capital em 1901 a fim de estudar, trabalhar e desenvolver seus projetos. Tornou-se popular tanto no campo como nas cidades e em diversas capitais do país na música e na literatura por difundir a expressão falada do caipira nos livros que somam mais de 20 títulos. Produziu as primeiras gravações em vinil da música caipira no Brasil – a moda de viola. Realizou 3 filmes documentários sobre o cotidiano rural, além de várias apresentações e palestras no formato de café concerto. Prestigiado por vários artistas e intelectuais de sua época, como Alexandre Marcondes Machado, Oswald de Andrade, Paulo Duarte, Martins Fontes, Monteiro Lobato, entre tantos outros, criou amizades e circulou sem demérito entre eles, pois nas primeiras décadas de 1900 o trânsito entre arte e cultura popular e cultura erudita era bem limítrofe e quase intransponível.

Assim aconteceu também com José Antônio da Silva. Silva nasceu no interior do Estado, na cidade de Sales de Oliveira, próxima a São José do Rio Preto. Foi trabalhador rural, assim como seus familiares, de origem humilde, autodidata e com pouca formação escolar. Sempre em busca de meios para o sustento próprio e de sua família, mudou-se nos anos de 1930 para São José do Rio Preto, fazendo todo tipo de serviço, de carroceiro e pedreiro a guarda-noites de hotéis. Além da lida, dedicava-se a várias atividades como pintura, escrita, romance e música caipira, mas foi na pintura que mais obteve destaque e êxito. Visionário e inventivo criou os próprios meios de sobrevivência, chegando a barganhar pinturas por mantimentos e remédios.

Desde criança tinha aptidão para o desenho, e na vida adulta, fez de sua casa seu ateliê, produzindo pinturas e confeccionando objetos em madeira nas horas vagas. A oportunidade de expor seus trabalhos surgiu somente em 1946 na Casa de Cultura em São José do Rio Preto, despertando interesse imediato dos críticos de arte Lourival Gomes Machado (1917-1967) e Paulo Mendes de. Almeida (1905-1986), presentes no evento. Influenciados pela cultura estética e ideológica da Semana de Arte Moderna em 1922, estes críticos enxergaram no artista a genuína expressão da cultura rural brasileira.

Em 1948 Silva conquista sua primeira mostra individual na Galeria Domus em São Paulo. Pietro Maria Bardi (1900-1999), diretor do Museu de Arte de São Paulo conhece nesta mostra os trabalhos de Silva e os adquire para integrar o acervo do museu. Bardi, nota que “o artista revela grande espontaneidade na abstração dos detalhes em suas telas, como as fileiras de pontos brancos que indicam o algodoal. Suas obras destacam o desenho expressivo, o senso da cor e o caráter de fantasias ” e temas ligados a lida e cotidiano no campo, as plantações de algodão e café, os animais no pasto, tornando sua produção conhecida até para o leigo quando a vê.

Nos anos seguintes, suas obras adquirem maior visibilidade integrando o circuito das artes plásticas, como a Exposição de Pintura Paulista, no Ministério da Educação e Saúde, em 1949, e no Museu de Arte Moderna de São Paulo em 1950. Em 1951 conquista o Prêmio de Aquisição do MoMA - Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, e em 1952 é selecionado para expor na XXVI Bienal de Veneza. Participa também da II Bienal de São Paulo em 1953, e é premiado pela II Bienal Hispano Americana de Havana em 1954, entre tantas outras exposições e premiações nacionais e internacionais.

Citado em dicionários e enciclopédias nacionais e estrangeiras, em livros de história da arte e várias publicações e reportagens em jornais e revistas no Brasil e no exterior, foi tema de um CD-ROM realizado e patrocinado pela Associação dos Amigos da Pinacoteca e Prefeitura de São Paulo.

Suas obras ocupam o acervo de vários museus em São Paulo como MASP, MAM, MAC, Pinacoteca do Estado, Museu de Arte Sacra e o Museu de Arte Primitivista José Antônio da Silva inaugurado em 1980 com doação de diversas obras e objetos pelo próprio artista. Além da pintura, José escreveu livros sobre sua cultura, histórias e memórias. São eles: Romance da Minha Vida, editado em 1949 pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, Sou Artista, Sou Poeta (1981) e três outras narrativas romanceadas: Maria Clara (1970, prefaciado por Antônio Cândido), Alice (1971) e Fazenda da Boa Esperança (1987). Também gravou dois LPs, ambos com o título Registro do Folclore Mais Autêntico do Brasil, com composições de sua autoria.

Como se pode notar, a trajetória de José Antônio da Silva e Cornélio Pires foi muito semelhante, porém separada pelo tempo. Ouso em dizer que ambos conheciam a produção um do outro e que Silva leu muito dos livros de Pires e adquiriu alguns de seus discos, podendo ser até uma de suas referências. Estes dois artistas comprovam a tese do filósofo Arnold Hauser quando disse que “o povo do campo exerce uma influência maior e mais penetrante na arte como produtor do que consumidor”. (Sant´Anna, 1987,19)

Outro dado relevante é a “emancipação” da tensão entre os campos da cultura, da arte erudita e popular, que ambos produziram cultuando o regional, se destacaram na esfera hegemônica da sociedade sem possuir recursos e poderes que o sociólogo Pierre Bourdieu classificou em capital econômico, cultural, social e simbólico, demonstrando a posição de privilégios, ou não, de um determinado grupo social ou indivíduo que se dá a partir do volume de capitais (nas dimensões material, simbólica e cultural) que adquiriu e incorporou ao longo da vida. (Bourdieu, 2002)

A respeito dessa tensão no campo da cultura e dos estigmas atribuídos ao caipira pelos segmentos sociais hegemônicos, Cornélio Pires driblava com humor, característica forte e presente tanto na personalidade como em toda sua produção. Já Silva, apesar de ter crença, razões íntimas em sua arte e produção nota-se certo antagonismo entre autor e obra, um ressentimento da sociedade que classifica, exclui e sedimenta-nos em grupos. Silva orgulha-se de sua obra, porém incorpora valores urbanos e exibe comportamento traços da cultura burguesa como demonstra o manuscrito reproduzido na mostra individual na Casa Grande Galeria de Arte, de São José do Rio Preto.

"Leian com muita atençaõ esta aula do Silva que sou eu mesmo. nasci errado e estou certo. para ser um bom artista ou pintor tem que nascer sabendo. Eu não durmo com o olho de ninguém. tenho horror a velhice. não confio em ninguem. levanto cedo e deito cedo. amanhan é sempre outro dia. ja nasci analnafabeto e sou um enquelectual. a vida não é so vida tem algo mais. pratico jinastica e de manhan corro mais do que um cavallo. gosto muito do mar e nado muito. tomo banho de sol todos os dias. não bebo e nem fumo. eu mesmo sou o meu medico. quero viver e chegar aos 100 anos. tenho muita força de vontade. sempre ajii sozinho sem ajuda de ninguem. meu deuz é a natureza e o resto é embrulho. nois somos Encantado e o mundo é um encanto. toda mulher é Flor da espinho Carinho e amor. quem não ama, não vive. Eu como amo estou vivendo. pinto de manhan até as 11 horas. Repouzo 3 horas por dia. Frecuento a picina e adoro um rabo de saia. as mulheres são remedio para os homens. quem não ama não esta vivendo e sim vejetando. quem nunca amou na vida não morreu não é nada. não tenho comprecto de enferioridade. sou eu mesmo. me criei no rabo do boi no meio dos urubus. porisso é que todos os meus quadros tem urubus. so falo a verdade e o que sinto. não sou simpre e nem convencido . vivo e ajo a minha moda. isto que escrevi é pura Filozofia da vida e do mundo. Estamos no meio das grandezas e continuamos com os olhos vendados". (sic) José Antônio da Silva, 04 de agosto de 1976. (Sant´Anna, 1987, 19)

A respeito da característica pessoal de Silva, Romildo Sant´Anna comenta:

“Sua obra e sua maneira de apresentar-se cotidianamente constituem-se num desnudamento operoso do curso dinâmico de seu dia a dia. Apresentam-se fortemente vincadas pelo ponto de vista rural, e, nesse caso, algumas vezes, o urbano apresenta-se com sinais de afetação e certas distorções, produto sentimental de uma atitude defensiva e auto-afirmativa que, costumeiramente, se encaminham para o exagero. Por outro lado, e como substrato a este temperamento, o exibicionismo, a multiplicidade, a preferência pelas formas impressionantes, a improvisação e as reformulações constantes, o passionalismo irrefreado, o confronto público com pessoas que se acreditam amigas dele, tudo isso o definem como um exemplo de “homem cordial”, de acordo com Sérgio Buarque de Holanda.” (Sant´Anna, 1987, 18)

Afora a afetação, atitude defensiva, a fala e escrita de Silva abrem espaço para a reafirmação das expressões populares no campo da linguagem culta que a desconsidera. O filósofo Mikhail Bakhtin, dirá que a linguagem popular, que se expressa nas ruas, nas igrejas, nas feiras, nos bailes, é a oficial, e não a culta que circula nas classes dominantes. A língua não é apenas um conjunto de formas (signos) e regras de combinação (sintaxe), como para os linguistas. A linguagem refere-se a um mundo em movimento, um mundo social onde todos modificam, acrescentam expressões, idéias, sentidos e onde o diálogo se faz fundamental e permanente, principalmente no que diz respeito à cultura popular, valorizando a oralidade e suas transformações. (Bakhtin, 1997)

Sobre o trabalho artístico de Silva na pintura observa-se o romantismo tardio nas diferentes fases na temática sobre o rural paulista, os modos de ser e de viver do homem do campo, entre cores fortes e às vezes sombrias, traços vibrantes e pontilhados, em meio a sua história e memórias. Pietro Maria Bardi sintetiza bem os diferentes momentos e fases na produção de Silva a seguir:

"Numa primeira fase, a pintura de José Antônio da Silva caracteriza-se pelo colorido sombrio, a atmosfera cinzenta, carregada de certa angústia. Já em 1948 e 1949, É a segunda fase de sua pintura, onde aparecem os tons rosados e azulados, enquanto que nas paisagens surgem as tonalidades avermelhadas, além de um elemento lírico. Por volta de 1955 inicia-se a terceira fase de sua pintura, considerada pontilhista. É um período marcado por acontecimentos dramáticos, como a recusa de seus trabalhos em uma das bienais de São Paulo. Ao contrário do pontilhismo europeu, o de Silva é um elemento construtivo que faz a matéria vibrar, e não a luz ou a atmosfera. A quarta e última fase de sua pintura, de formas simplificadas e concentradas, é marcada também pelos coloridos crus e violentos. No entanto, a reunião das quatro fases da pintura de José Antônio da Silva mostra, em todas elas, uma característica comum: o movimento. Suas telas se abrem em espaços amplos, aparecendo em primeiro plano à cena - teatro, dança, animais, cafezais e os intermináveis algodoais (...) Chama a atenção a espontaneidade do artista em abstrair os detalhes: fileiras de pontos brancos assemelham-se a floridos algodoais, e traços negros esparramados sobre um fundo cor de terra são autênticos troncos derrubados".

Silva é daqueles artistas que se lançam a uma aventura quixotesca, resultando no verdadeiro trabalho que fala de si, dos outros, dos semelhantes, da natureza, da vida, sem preocupar-se com estilos e formas que tanto sobressai no campo das artes plásticas e visuais, e seguiu acreditando em si e em seus desejos. Um homem do campo, trabalhador braçal, sem recursos que desafiou e nocauteou uma sociedade que dita regras e lugares de pertencimento de cada um.

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BIBLIOGRAFIA

Andrade, A. F. de. As Estrambóticas Aventuras de Cornélio Pires e a Cultura Caipira no Cenário Hegemônico da Cultura Brasileira, Tese (Doutorado em Ciências Sociais/Antropologia) – Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais, PUC-SP, São Paulo, 2012.

Bakhtin, M. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. Ed. Hucitec, São Paulo, 1999.

Bourdieu, P. A Produção da Crença. Ed. Zouk, São Paulo, 2004.

Dantas, M. Cornélio Pires: Criação e Riso. Ed. Duas Cidades, São Paulo, 1976.

Sant´Anna, R. Silva: quadros e livros - um artista caipira. Ed. UNESP, São Paulo, 1987.

SITES

https://www.escritoriodearte.com/artista/jose-antonio-da-silva/ http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2079/jose-antonio-da-silva


Arlete Fonseca de Andrade

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