náufrago

Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

A formação em sociologia da UNESP Marília

Uma análise da formação em Ciências Socias na UNESP de Marília


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Não escrevo por mera vaidade. Escrevo por dois motivos: porque gosto e porque é necessário. Quando digo ser necessário é porque tem muito assunto que não foi abordado ou não foi abordado de dada forma. Quando penso em escrever tenho sempre o segundo fator em conta. Procuro escrever sobre coisas que não foram abordadas e julgo importantes. Também não importa que o texto seja perfeito. Não tenho a pretensão de esgotar o assunto. Embora eu procure fazer um bom texto, tenho sempre a intenção de que seja bom no sentido de chamar a atenção para algo não discutido ou ser um ponto de partida para um debate. Escrevo para me expressar e para ajudar. Penso que um texto de hoje possa ser útil daqui a muito tempo. Dai o valor da internet. A rede permite que os textos flutuem e não morram numa revista desconhecida que dorme intocada numa biblioteca qualquer.

No Brasil, basicamente não há o costume de fazer um balanço ou debate das formações. Não há uma cultura de intervenção de antigos alunos sobre os cursos nem mesmo uma cultura de debate sobre os mesmos. O que vou fazer é tentar ir contra essa cultura e colocar uma análise sobre a formação que recebi como aluno de Ciências Sociais da UNESP de Marília. Não vou lotar o texto com dados formais para afirmar o que é publicamente sabido e possui vastos dados na internet. Dentre as três universidades do Estado de São Paulo, a UNESP é a mais popular de todas possuindo um número maior de alunos de baixa renda e oriundos da escola pública. Por conta de uma política de maior proximidade com a rede pública de educação e por conta da sua localização, espalhada pelo interior paulista, ela acabou sendo a mais receptiva para alunos com menos poder aquisitivo. Assim, na UNESP, com mais constância você encontra o filho do juiz e a filha da doméstica, formando um alunado mais democrático quanto às origens sociais.

Além de ter um perfil mais popular, numa sociedade na qual ler um autor do século XIX ainda é um privilégio, a UNESP apresenta uma enorme diversidade de alunos. Novamente a localização geográfica tem peso. Embora haja uma parcela significativa de alunos provenientes de São Paulo e da grande São Paulo, encontramos alunos de vários Estados: Goiás, Minas Gerais, Tocantins, Rio de Janeiro, Paraná, Distrito Federal, Acre, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, além de várias cidades do interior paulista. Essa diversidade cria um ambiente cultural rico pois apresenta alunos com os mais diversos perfis culturais. Vai do aluno ateu ao aluno judeu, passando por evangélicos, católicos, gente de vários quadros políticos, estéticos, humano. A possibilidade de aprendizado é grande nesse contexto multicultural.

Diferentemente de outras universidades marcadas por uma passagem rápida dos discentes, a UNESP possui a marca forte da vivência. O fato de ser uma federação de campi pequenos força um quadro de convívio permanente no qual, basicamente, independente do curso, todo mundo conhece todo mundo. Geralmente, é um único prédio para atividades didáticas, com repúblicas e moradias próximas, os mesmos bares, o mesmo teatro, o mesmo cinema, a mesma rodoviária. Na UNESP, conviver com professores e aprender com eles fora da sala de aula é algo comum. O mesmo para os alunos. E dessa vivência surgem produções culturais, debates intelectuais, projetos, toda uma cultura, além dos clássicos namoros.

A UNESP também oferta uma formação política muito válida. Independente dos debates formais, há um quadro muito rico de mobilizações pontuados por vários temas. Uma velha liderança estudantil chegou a dizer, certa vez, que a UNESP apresenta o mais rico quadro de formação política dentre todas as universidades. Você encontra feministas, gente do PT, PSTU, PC do B, anarquista. Gente do PSOL, PCB, gente de direita, liberais, conservadores, militantes da cultura, da questão ecológica, religiosos, de tudo. Embora alguns reclamem dos movimentos, o fato é que ocorre uma formação política única na qual jovens sem experiência são inseridos no debate sobre a coisa pública. No final, independente da linha, os jovens saem mais emponderados e usam essa formação nas suas vidas futuras. Uma marca forte do unespiano é ser uma pessoa mais engajada com relação aos demais profissionais com ensino superior. Esse maior engajamento deve-se ao quadro de vivência política apresentado.

No mesmo espectro gerado pela vivência cotidiana, que aproxima alunos e professores, desenvolve-se uma aproximação com os funcionários. Assim, na UNESP existe uma cultura de maior respeito com os funcionários e, inclusive, aproximações que incluem a participação em lutas conjuntas e eventos culturais. A afirmação de que alguns funcionários tornam-se amigos ou mesmo pais de alguns alunos não é demagógica no quadro unespiano. Há uma cultura de respeito e de valorização do trabalhador que inclui alguns aspectos afetivos.

Independente das várias linhas, na UNESP de Marília há um foco nos clássicos. O aluno é encorajado a encarar os grandes autores buscando uma formação sólida, um alicerce, sobre o qual desenvolverá formações outras. Assim, a ideia central é a de que o aluno precisa obter uma sólida base para seguir adiante. Autores como Marx, Weber e Durkheim são apresentados como autores obrigatórios para a formação intelectual. O caminho seguinte pode ficar aberto mas entende-se que os clássicos são uma prova de fogo necessária, como uma espécie de treino intelectual para passos futuros.

Seja como atividade dos alunos ou como atividade formal, o cinema é valorizado como mecanismo de aprendizado. Ao aluno é apresentado uma miríade de diretores e filmes ofertando uma formação suplementar. O cinema deixa de ser visto como distração e serve como experiência estética, educação estética, e como meio analítico. Assim, educa-se o aluno para a apreensão estética de obras distintas das ofertadas pelos canais abertos e cinemas não críticos. O aluno aprende a apreciar vários tipos de produção: documentários, cinema mudo, experimental, curtas, longas, filmes sem diálogos e obras de formatos vários. Por outro lado, além de ser educado esteticamente para apreciar formatos vários de filmes, o aluno também aprende que o cinema ensina e que os filmes são importantes instrumentos de análise. Podemos aprender sobre presídios, a questão negra, movimentos sociais, feminismo etc.

A UNESP também possui uma forte tradição no campo da extensão, com projetos vários que vão desde o trabalho com fotografia nos movimentos sociais até atividades culturais e projetos na rede pública de ensino. Quem for mais distante dos debates epistemológicos e gostar de trabalhar projetos, atividades culturais e contato com a comunidade, vai encontrar espaço para o exercício prático.

O uso do campus e da estrutura da faculdade é bastante democrático, com possibilidades de real utilização dos aparelhos por parte dos alunos para desenvolver atividades acadêmicas e culturais. Isso facilita a manutenção de uma cultura ativa por parte do estudantado na criação de eventos vários.

Assim como ocorre com o cinema, há uma valorização da literatura tanto como estética quanto como mecanismo de aprendizado e análise. Não são poucos os trabalhos que utilizam a literatura como objeto de pesquisa ou instrumento analítico. Tanto autores clássicos da literatura nacional como autores clássicos da literatura universal são indicados para estudo e aprendizado. Um aluno da UNESP Marília sai formado tendo na literatura um caminho necessário para a formação mais ampla.

Há um foco grande na formação teórica e no debate teórico. Assim, são muitas as pesquisas sobre pensamento social. Trabalham desde autores globais como Gramsci até autores brasileiros. Mas também há pesquisas empíricas envolvendo segurança pública, educação, mundo do trabalho, cultura cibernética, movimentos sociais.

Um grave problema está na forma como a licenciatura é encarada. Embora muitos alunos acabem se tornando professores da educação básica, nomeadamente a pública, a graduação é vivida como se todos fossem se tornar pesquisadores ou professores universitários. Assim, a educação é muito negligenciada e há pouco interesse seja por didática ou por políticas educacionais. História da educação, pensamento pedagógico, didática, currículo, políticas educacionais são temas repelidos pela maioria dos alunos.

A formação em história quando não peca por ser excessivamente teórica acaba pecando por ser muito eurocêntrica. Falta uma compreensão maior do Brasil enquanto formação social atrelada aos quadros mais amplos. Negligencia-se as ligações do pensamento social brasileiro com pensadores de países vizinhos, a formação do país como elemento do império lusitano, o impacto da cristandade, do protestantismo. Ao invés de se estudar o Brasil como elemento do mundo, há um foco no mundo sem pensar muito o Brasil.

Um outro problema é uma certa falta de atenção para o estudo do poder. Como há um foco grande na esquerda, a análise do pensamento empresarial, do conservadorismo, do patronato, do clientelismo fica secundarizada.

Por fim, algo digno de atenção. Até hoje, nenhuma obra da UNESP de Marília ocupou algum lugar de relevo no debate público. Somente os velhos mestres ocupam algum espaço, mas não foram formados em Marília. De um lado, isso ocorreu por falta de originalidade dos pupilos, que se limitaram a copiar os mestres na produção de conhecimento, sem inovar. De outro, a velha mania de virar USP ou UNICAMP, como se a formação de base não fosse unespiana. A UNESP produz muito conhecimento e muita coisa que surge com o rótulo USP ou UNICAMP é conhecimento unespiano que foi etiquetado.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
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