náufrago

Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

A função social dos programas policiais

Difunde-se a cultura do medo. Todos os aspectos bons da vida cotidiana são ocultados e a vida corrente é apresentada como uma luta hobbesiana de todos contra todos


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João Bernardo, um grande intelectual português, dizia que a literatura é uma das principais formas de sociologia. Nos romances, ao descrever detalhes e cenários, inelutavelmente, o autor acaba descrevendo um dado meio social, faz um retrato de um grupo ou conjunto de grupos da sociedade. A literatura, num sentido amplo, sempre serviu como forma de retrato, de descrição. Lendo um Fitzgerald podemos aprender sobre os rituais e o cotidiano da vida da elite e lendo Carolina Maria de Jesus aprendemos sobre a vida de uma mulher negra, favelada, que escrevia usando cadernos que encontrava no lixo.

Recordei o raciocínio ao imaginar o papel que o romance policial deve ter tido na sociedade, cumprindo justamente a função de apresentar ao público as características e formas de um mundo sombrio e restrito. Cito Jean Genet e o seu Diário de um Ladrão, cito Dashiel Hammet e o seu Falcão Maltês, cito Dráuzio Varella e o seu Estação Carandiru, cito Paulo Lins e o seu Cidade de Deus, cito José Louzeiro e o seu Lúcio Flávio: o Passageiro da Agonia. São alguns exemplos de obras distintas no campo do romance policial, mas todas elas importantes como retratos de um dado meio. Obviamente, a literatura não perdeu o seu papel nem a sua força. Paulo Coelho está ai para todo mundo ver e outros autores famosos também. Escritores foram trabalhar aqui e ali. Mas agora temos o cinema e temos a televisão, além do rádio, tem a internet, enfim. O interesse por dados temas e meios não desapareceu, mas agora está em outro lugar. Ou está em outro lugar também.

Junto com o cinema, os programas policiais substituem hoje boa parte da função que os romances policiais tiveram no passado. É no cinema que vemos um retrato quase monográfico do mundo do crime em filmes como Tropa de Elite (José Padilha) e Os Bons Companheiros (Martin Scorsese). Mas os programas policiais ocupam um lugar de destaque nesse campo. Obviamente, há uma interação entre cinema e TV. Tropa de Elite influenciou a TV e a TV influenciou Tropa de Elite.

Em primeiro lugar o programa policial planta na sociedade a existência do mal como algo natural e cotidiano. Pessoalmente, você nunca viveu ou conheceu um caso bárbaro como o da Suzane Richthofen. Mas ele foi plantado na tua cabeça de forma tão profunda que parece ter sido cometido pela vizinha ou algum parente. O mal existe, é cotidiano e próximo. Não tem nenhuma história como a do goleiro Bruno no seu meio, mas isso ficou ali, plantado, muito próximo, de tanto que martelaram o assunto. Programas policiais inculcam o mal como algo próximo e rotineiro. A desconfiança contra o próximo está plantada e a necessidade de polícia também. Bom para o Estado, bom para as empresas de segurança.

Em contraposição com a literatura, que deixa amplo espaço para a imaginação ao narrar os fatos, os programas policiais trabalham com imagens e forte narrativa verbal, destruindo basicamente o campo da imaginação. A realidade é apresentada de forma nua e corrida dando pouco tempo para o pensar. O “acompanhe comigo as imagens” é basicamente um “não reflita, não problematize”. Assim, o mundo cão é servido rápido para degustação como pedaços de pizza sem que haja um filtro crítico sobre o mesmo.

Enquanto nos romances policiais há uma construção lenta do personagem apresentando aspectos vários do mesmo, nos programas policiais a construção é rápida, sem possibilidar a abordagem de outros lados e um pensar mais aprofundado. Fulano é apresentado como tal e pronto, segue a narrativa e adjetivações sequentes. Se no romance policial o mundo da elite e seus devidos crimes são discutidos, nos programas policiais o foco está nos pobres e a periferia é apresentada como mundo cão. Todos os aspectos de boa convivência e solidariedade inerente ao mundo popular são ocultados e a abordagem procura apresentar como geral aquele quadro de atrocidades cometidos por uma minoria. Nada se fala dos crimes no mundo da elite nem das boa ações no meio popular.

A tônica fica toda no punitivismo, muitas vezes deixando de lado o quadro legal e gritando por punições não constitucionais. A máxima do punitivismo é “bandido bom é bandido morto” e todos os direitos individuais e garantias constitucionais são ocultados ou mesmo combatidos.

Procura-se uma narrativa de filme de ação, apresentando o cotidiano como provido de ações espetaculares com policiais perseguindo bandidos, moradores em terror e ações fantásticas. Nesse quadro espetacular, o cidadão comum é considerado inútil e busca-se justificação para o imobilismo, uma vez que não se pensa formas de ação da sociedade para combater os males. Toda a linha é de reforçar a ação do Estado e apresenta-lo como único pilar da paz social.

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Claramente, difunde-se a cultura do medo. Todos os aspectos bons da vida cotidiana são ocultados e a vida corrente é apresentada como uma luta hobbesiana de todos contra todos. Casas cercadas, muros altos, câmeras de vigilância, seguranças, carros blindados, há toda uma apologia da tecnologia inerente ao mundo cão, onde todos precisam se precaver de todos. O bairro é perigoso, o centro é perigoso, as ruas, a noite, as festas, os lares, as escolas. Quase nada fica de fora.

O senso comum é reforçado, com a presença esporádica de um outro especialista que pouco aprofunda a discussão e o entendimento da violência. Qual a razão de dado crimes ocorrerem mais num local do que em outros? Por que há um número menor de evangélicos cometendo crimes? Por que cidades com menos instrumentos culturais possuem maior violência? Por que o perfil majoritário de criminosos é de jovens, não brancos e das periferias? Que peso a mídia tem em fomentar a busca animalesca por objetos de marca? Por que há tantos presos reincidentes? Qual a razão de o quadro urbano ser mais violento que o interior rural? Qual o peso da família na produção de delinquentes? Enfim, muitas perguntas não são postas, não há debate digno desse nome e o senso comum é a base analítica.

Há uma forte legitimação das forças policiais, de todos os tipos, e uma naturalização da violação dos direitos. Entende-se que a atuação policial pode ser feita sem considerar os parâmetros legais ao ponto de se legitimar uma não oficial mas existente pena de morte. Por exemplo, a boemia popular é criminalizada e se trabalha com a ideia de que trabalhador deve estar em casa, na igreja ou no trabalho. Popular em bar é visto de forma negativa, enquanto se respeita o direito de universitários e da classe média se divertirem. O mesmo para o consumo de estupefacientes. Há um olhar compreensivo para a classe média e para os universitários ao lado de um olhar penalizador para os pobres.

Seguindo uma observação de Shoppenhauer, podemos dizer que os programas policiais produzem um cotidiano alivio pela desgraça alheia. Ao apresentar o mundo cão dos populares, se produz um certo conforto em muitos que olham a desgraça alheia e podem comemorar o fato de não estar nela. Observar o atroz que atinge o outro traz um certo conforto pessoal para quem pode seguir sua vida com dignidade. Esse horror também é intimidador. Serve de alerta para os demais trabalhadores no sentido de que há um mundo de tortura que os espera se saírem da linha.

Outro ponto é que a violência é apresentada sem rosto, exercida de forma terceirizada, sem culpabilidade. O policial está cumprindo ordens, o expectador só assiste, o governador atende aos reclames da sociedade, o apresentador apenas narra, alguém filma. Não há culpados. O prefeito criou lá um bairro segregado que, por ser segregado, ficou violento, mas a culpa não é dele. A educação não ofertou possibilidades de dignidade social, mas a culpa não é dos gestores da educação. Ninguém é culpado. E o mundo é violento mas não sou eu que pratico violência. Há uma terceirização, uma fuga geral da responsabilidade. Inclusive das famílias.

Pra fechar a análise, posso afirmar que há uma produção social dos apresentadores como autoridades no assunto. No mundo não há coincidências e o fato de muitos deles serem alçados para cargos políticos, tidos como celebridades, pessoas importantes, é porque foram eficazes em introjetarem no povo a ideia de que são entendidos no assunto, defensores da moral pública e gente empenhada na resolução dos problemas sociais. Há uma glamourização cada vez maior da cultura própria a esse meio e um crescente apoio popular, surgindo a bancada da bala e celebridades oriundas do mundo policial no geral.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
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