náufrago

Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

O rap: antes e depois do Racionais Mc´s

Racionais marcou um antes e um depois na história do rap brasileiro.


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Não vou fazer uma coisa bem detalhada porque qualquer corte bruto seria meio equivocado historicamente e porque, também, parto do princípio de que devo levantar o assunto e ao leitor cabe se aprofundar. Se for o interesse! O rap nacional passou, grosso modo, por 3 fases. Uma pré Racionais e outra posterior ao Racionais. Claro que haveria outros grupos para citar, mas a divisória feita pelo Racionais é muito forte para que se possa dar destaque a outros grupos. Sem choro nem vela, foi o grupo que estabeleceu um antes e um depois. Eu não ganho nenhum centavo com esse texto e quero apenas levantar um debate, sabendo que posso errar e etc. Textos críticos serão bem vindos!

Para a construção do texto, usarei basicamente minha memória auditiva. É certo que li coisas, mas a memória auditiva é o central. Sou um cara da quebrada, filho de empregada doméstica e onde a gente vivia tocavam músicas de cantores sertanejos, também do brega e coisas nordestinas, mas havia o rap. Na época, era muito Pepeu. O cara foi o pai ou um dos pais do rap nacional e ai o Xis tem total acerto em levantar uma discussão sobre o cara, seu valor histórico, resgatar suas músicas. Tinha também o Ndee Naldinho, que na época fazia músicas românticas e satíricas. No geral, o rap anterior era marcado pelo romantismo e também pela presença de músicas satíricas. Podia existir um grupo a ou b, mas o que era ouvido pela população era um rap romântico e satírico. O Racionais possui o grande mérito de terem mudado o rap nacional e, por ai, a música brasileira. Eles surgiram com batidas pesadas, letras eloquentes e uma profunda crítica social. Foram os caras responsáveis por tirar o rap do romantismo e da sátira para uma firme e profunda crítica social que iria se espalhar e sedimentar pelo país, criando uma nova fase no rap nacional. Tinha outros grupos que faziam rap com crítica social? Tinha! Mas a mudança veio com o Racionais.

1992, 1993. A molecada da periferia podia não saber o significado do próprio nome ou o hino nacional de cor, mas sabia as longas letras construídas pelo Racionais e as cantava tanto na entrada quanto na saída das escolas. As letras dos caras viraram hinos da juventude e tomaram o país todo, ao menos o espectro urbano.

Eram letras que falavam da violência, da falta de perspectiva, do racismo que torna tudo mais difícil para o negro, do que era sonhar com um tênis, sonhar com uma faculdade, sonhar com uma piscina, da repressão policial e segue. O Racionais criou, a partir de suas letras, uma verdadeira politização básica elementar para toda a população pobre, enfocando também a população negra. São letras fortemente marcadas pelos sonhos e receios da periferia, do trabalhador pobre. Então há certa misoginia, mas falam da luta do povo trabalhador, falam dos medos, falam dos sonhos. É um bom retrato de dada parcela da população no período. O bar, a igreja, o terreiro, a escola, a polícia, o ambiente periférico relatado com precisão quase etnográfica.

Quem quiser pode vasculhar os dados do CEBRAP para confirmar. O Brasil deu uma boa mudada de 1992 para 2012, e o rap, como linha musical que canta a urbe, suas questões e a quebrada, também mudou. Do fim do Carandiru à eleição de Lula, há um quadro enorme de mudanças que tiveram seu impacto no rap nacional.

Esse novo rap, que designo rap pós-Racionais, tem uma forte marca contra a misoginia dos grupos anteriores porque há muitas meninas atuando. É um rap que também se descola da necessidade de crítica contra a pobreza e vai abordar outros temas. Temos meninas cantando sobre o machismo, rapazes falando de baladas, outros cantando a cidade e a vida na cidade, há abordagens ecológicas, esotéricas, niilistas e até o surgimento de algo que alguns classificam como “rap universitário”.

São novos grupos como Nocivo Shomon, Emicida, Criolo, Tábata Alves, Odisséia das Flores, HAIKAISS, Carol Conka, Flora Matos, Costa Gold e outros. Nesse novo cenário, de um rap não mais apegado a discutir a pobreza, surge um novo debate com a linha gangsta, onde alguns grupos vão se posicionar contra o novo cenário e tentar resgatar a linha adotada por Notorious Big. É uma discussão para um próximo texto.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
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