náufrago

Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

O rap realista e eloquente de Tábata Alves

Estudante de Direito, mãe e MC


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Se tivéssemos que selecionar a principal característica ou a marca mais forte no cenário do novo rap nacional, certamente deveríamos apontar a avassaladora presença feminina num meio classicamente masculino. O rap é o mais machista dos estilos musicais – por uma série de fatores – e por muito tempo a cena foi dominada basicamente por homens. O contexto atual tem uma marca muito forte contra a hegemonia masculina por conta do surgimento de vários grupos femininos e a afirmação, no geral, da presença feminina no rap. Nesse cenário novo, cheio de mulheres, temos Tábata Alves.

Do Morro Doce, zona oeste de São Paulo, Tábata Alves lançou, em 2010, o disco “Pra fortalecer”, com participação de Zinho e Phantom e dos djs Pow e F-Zero. Obviamente, cada um faz sua apreciação sobre um disco ou artista, mas considero o ponto alto do trabalho de Tábata Alves a apresentação de letras realistas e muito eloquentes. Há uma escrita muito inteligente e com alta capacidade analítica.

Na música “mundo frio” ela foge da vitimização e canta a urbe tal qual ela é. Fala de uma São Paulo sem amor, sem compaixão, fria, onde pessoas buscam riquezas materiais e prazeres momentâneos. Um mundo com uma corrida louca por prazer e sucesso onde a consideração pelo outro desapareceu. Nesse quadro analítico, não há apenas o rico ou o pobre, mas todos nós participando da construção de um mundo frio.

Em "Deus olhai por nós" a tradição de crítica social do rap é resgatada numa letra que fala de uma periferia abandonada, com fome, miséria, violência, mães desesperadas, polícia truculenta, falta de perspectiva e a presença de Deus como principal esperança num contexto triste.

Na faixa "mulheres" ela resgata a tradição plantada por Dina Di e canta a condição da mulher periférica. Fala de amor, de esperança, de esperar o amor e encarar as durezas da vida. Nisso tudo, fala de como a mulher é capaz de apresentar uma força própria e um amor único.

A presença de Tábata Alves, tanto nas letras quando nos vídeos disponíveis no Youtube, é tão forte que temos a sensação de que a mulher sempre foi uma força marcante no rap. Ainda, a artista possui um perfil diferenciado. Trata-se de uma MC que é mãe, estudante de Direito e pessoa ativa em projetos culturais.

Várias letras de Tábata Alves dariam origem a um novo parágrafo analítico. Mas como gosto de levantar o debate e o interesse do leitor, deixo aqui o convite para que conheçam o trabalho da MC.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
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