náufrago

Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

Observações introdutórias sobre a Democracia na América de Alexis de Tocqueville

Num país no qual falta um real estudo e debate sobre a formação e caminhos de nossa democracia, a obra de Tocqueville é um oásis de inspiração para um debate qualificado e pertinente.


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*Para Ítalo Basile e Carem Passafaro

No presente texto,consultei a obra de Raymond Aron, Etapas do Pensamento Sociológico, a respeito da obra de Alexis de Tocqueville, como é de costume. No entanto,deixei totalmente de lado as suas observações pelo fato de o autor,com toda a sua intelectualidade,acabar abordando variados autores no trato da obra de Tocqueville e acabar, assim, deixando de certa forma um tanto confusa a abordagem por excesso de prolixidade e intelectualismo.

O meu interesse é apresentar um trato direto do pensamento de Tocqueville de forma que sirva de convite para que outros abordem a obra. Tratarei da parte introdutória, uma vez que a obra é muito extensa e, assim, poderei continuar os estudos em textos futuros. No próprio site não caberia uma abordagem da obra toda.

Tocqueville é um autor clássico. Uma obra clássica é uma obra que supera o seu o tempo, pois aborda com profundidade dados temas servindo de inspiração para análises futuras. Um clássico suplanta o tempo. A observação central de sua obra, A Democracia na América, parte da constatação de que há um movimento histórico caracterizado pela expansão da igualdade de condições em contraste com as sociedades aristocráticas moribundas. Essa igualdade de condições acaba por influenciar um conjunto de fatores: opinião pública, leis, governos, hábitos.

A igualdade de condições é impulsionada por vários fatores. Avanços técnicos,novas formas de apropriação da terra, avanço do comércio e da indústria, o protestantismo que prega a igualdade de todos perante Deus, guerras, conflitos entre as elites, a igreja que expande as suas fileiras, reis arruinados, enriquecimento de plebeus, a influência do dinheiro, o poder da ciência e da inteligência. Enfim, o valor ligado ao nascimento vai sendo reduzido.

Para Tocqueville o avanço gradual e universal da igualdade é uma realidade providencial. E lutar contra o avanço da democracia é lutar contra o próprio Deus.

As observações de Tocqueville, no entanto, não são gratuitas. O autor não está preocupado em fazer apenas um panegírico do avanço da igualdade e da democracia. A sua preocupação central está em educar a democracia, criar uma ciência política nova que seja adequada a esse mundo novo.

Para o autor, a democracia avança de forma inadequada no velho mundo, guiada pelo acaso, sem o empenho das classes mais poderosas, intelectuais, e moralmente mais evoluídas. A democracia encontra-se desgovernada e cresce bagunçada, como criança abandonada. Faltam mecanismos para atenuar os vícios e os males que a democracia acarreta.

O prestígio do poder real sumiu sem ser substituído pela majestade das leis, o povo despreza a autoridade, os homens fortes que poderiam enfrentar a tirania foram destruídos, o governo se apossou de prerrogativas familiares.

Quanto ao povo, o autor entende que os pobres mantiveram preconceitos, mas não as crenças dos pais, são ignorantes, desprovidos de virtudes, interesseiros, egoístas e desprovidos de esclarecimentos. Perdeu-se o que havia de bom do velho Estado sem construir algo de útil no Estado novo. O mundo intelectual caminha na mesma decadência.

Tocqueville apresenta um olhar pessimista sobre o velho mundo, a Europa. E é no novo mundo que encontra um ponto de salvação e inspiração. Na América encontra a presença de uma democracia virtuosa que se desenvolveu pacificamente e atrelada aos costumes. Tal qual o modelo de tipo ideal de Weber, Tocqueville encontra na América um modelo de democracia que apresenta o desenvolvimento mais completo, servindo, assim, de inspiração para o velho mundo. No entanto, faz a ressalva de que não há um único modelo de democracia, embora o velho mundo possa buscar ensinamentos nas terras ocupadas pelos peregrinos. Nas novas terras, ele investiga a direção da democracia, as leis, o governo formado.

Pretendeu também compreender a influência da igualdade e da democracia sobre a sociedade civil, sobre os hábitos, ideias, costumes. Embora tenha consultado documentos, a sua obra é baseada na observação, numa tradição que remete ao conhecimento produzido pelos antigos e que serviu, por muito tempo, ao desenvolvimento intelectual do conhecimento universal.

Faço uma observação final: num país no qual falta um real estudo e debate sobre a formação e caminhos de nossa democracia, a obra de Tocqueville é um oásis de inspiração para um debate qualificado e pertinente.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
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