náufrago

Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

Os bons companheiros: um filme sobre a amizade

A amizade existe, mas não para sempre nem resistente a tudo.


12074845_559490264203152_713280817177059605_n.jpg

Assim como a literatura, um dos pontos mais importantes do cinema é o fato de poder ser trabalhado como forma de retrato social. Mesmo quando não se trata de documentários, os filmes servem como meio de aprendizado sobre grupos ou aspectos da sociedade. Nesse sentido, Os Bons Companheiros (1990) é sempre lembrado como um retrato de qualidade sobre a máfia e o mundo do crime. Muitos destacam que ele se diferencia de outras produções do gênero por ter retratado criminosos comuns, vindos da ralé e por não apresentar uma glamourização da máfia. Em os Bons Companheiros, o diretor Martin Scorsese apresenta criminosos que possuem como única motivação ganhar dinheiro e que são capazes de cometer crueldades para atingir tal objetivo. É um clássico sobre a máfia. Mas vai além.

Eu não teria motivo para escrever sobre um filme que já foi muito visto e debatido se fosse pra repetir as mesmas coisas que aparecem nas outras análises. Meu interesse em escrever está no fato de que considero Os Bons Companheiros um daqueles filmes que possuem um tema central dentro do tema anunciado. Há um tema oculto dentro do tema central. E apesar de ser um filme sobre a máfia, considero Os Bons Companheiros como um dos melhores filmes sobre a amizade, além de possibilitar reflexões outras.

O personagem principal, Henry Hill, representado por Ray Liotta, lembra muitos personagens da literatura e do cinema. Trata-se de um jovem solitário, pobre, mas ganancioso, ousado e com sonhos. Alguém que recusa a pobreza estética da própria família e busca construir um caminho próprio em busca de dinheiro, sucesso, fama. Poderia compará-lo com Julien Sorel, do livro O Vermelho e o Negro (Stendhal) ou Clyde Griffths, do livro Uma Tragédia Americana (Theodore Dreiser).

Sem qualificações que lhe apresentem alguma esperança, assim como ocorre com muitos jovens, é no crime que encontra um ambiente acolhedor. Comparado com a brutalidade caseira do pai, o espaço da máfia será para ele um ambiente familiar confortável, onde recebe atenção, bom tratamento e carinho. Paul (Paul Sorvino), o chefe mafioso, surge como um verdadeiro pai para um jovem carente e cheio de sonhos. Os demais membros formam uma família. E no meio disso tudo ele se liga mais fortemente com dois sujeitos, Tommy de Vito (Joe Pesci em atuação monumental) e Jimmy Conway (Robert de Niro).

O quadro todo nos faz pensar em como o crime pode surgir como um ambiente de acolhimento e de como são principalmente jovens solitários e com sonhos que são atraídos para ele. A inserção no mundo da máfia surge como a inserção numa rede de sociabilidade que é atraente aos olhos do jovem solitário e ambicioso.

Diferente do mundo burocrático e chato da escola e do ambiente familiar, a inserção do jovem Henry Hill no mundo da máfia vai lhe apresentar um ambiente dinâmico, agitado, divertido e onde terá que passar por uma importante prova moral. O jovem é incitado a se mostrar destemido e fiel, provando o seu valor. A cena da sua primeira prisão é marcante e pode ser interpretada como um rito de passagem.

Firme e sem trair, o jovem Henry Hill recebe aplausos calorosos de todos. Isto nos faz lembrar que há festas de debutante para moças mas não há claramente ritos de passagens para os rapazes. No mundo do crime, Hill encontrará um rito e isso marca, simbolicamente, sua força, fidelidade e maturidade, enfim, sua aceitação no mundo da máfia.

Como sabemos desde os romances policiais, o meio criminal é masculino ou mesmo misógino. As mulheres possuem sua importância mas são vistas como troféus e devem ser fiéis e submissas. Já adulto, consolidado e vitorioso, Hill é agraciado com a chegada de uma linda mulher – os brutos também amam. Lorraine Bracco desempenha o papel da belíssima Karen Hill, apresentando-se como uma mulher fiel, corajosa e dedicada. Apaixonada e ciumenta, há uma cena na qual ela enfrenta brutalmente o marido e ai temos a consolidação de uma personagem que joga por terra o estereótipo da mulher frágil e coitada.

Apesar de no filme os homens possuírem namoradas além das esposas, Hill é profundamente apaixonado por Karen e o filme traz uma história de amor vibrante e envolvente embalada por bela trilha sonora. Da parte de Henry Hill, o ponto alto é quando parte em socorro da ainda namorada e agride brutalmente um sujeito que a tinha destratado. Karen fica encantada com a virilidade mostrada por Hill. Da parte dela, tanto os cuidados com a família quanto o apoio ao marido na cadeia são oportunidades de se mostrar uma mulher firme e fiel. Por fim, o casamento dos dois é absolutamente encantador, reunindo toda a família mafiosa num ambiente de paixão, afeto e muito carinho.

Com o romance em paralelo, o filme segue tendo como ponto central a consolidação da amizade entre os três personagens principais – Hill, Jimmy e Tommy . A amizade entre os três é afetuosamente muito marcante. E apresentam uma relação de alta confiança, muito companheirismo e humor. Fazem tudo juntos: roubam juntos, matam juntos, agridem juntos, bebem juntos, passeiam juntos. Daí o nome do filme remeter ao companheirismo. É no ambiente do crime e no cotidiano audacioso que ele apresenta que o máximo da amizade será concretizado.

O apego mútuo dos rapazes é muito forte e terno. Tão forte que um bandido cai sinceramente em prantos quando um dos amigos é assassinado. Temos a demonstração de uma amizade cuja fidelidade suplanta o patamar das pessoas normais com a dramática dor que surge quando um deles morre. Essa alta fidelidade também é apresentada quando os amigos assassinam um bandido rival em resposta ao fato de este ter ofendido um dos amigos.

Após a morte de um dos três amigos centrais, o filme caminha para uma destruição completa dos laços afetivos por conta de fatores vários. No entanto, traz principalmente a mensagem de que mesmo uma amizade fora dos padrões pode acabar, ser destruída. O dinheiro é um elemento central e a idéia de que o dinheiro destrói a amizade é muito forte. Também fica a noção de que quando as coisas apertam realmente a amizade é abalada pela necessidade de cada um salvar sua pele. O protagonista que começa afirmando a ideia de nunca trair os amigos o faz no final para não ser morto. Se o filme faz um retrato forte do mundo do crime iniciando por embalar o espectador no romantismo de que o meio criminal oferece o quadro da amizade perfeita, termina por destroçar esse romantismo apresentando um mundo onde não há nada além da corrida selvagem por dinheiro e no qual matar ou trair amigos pode ser uma necessidade. Aquilo que começa como o caminho para a glória termina tragicamente como selvageria e uma descrença total no ser humano. A amizade existe, mas não para sempre nem resistente a tudo.

Haveria mil coisas a falar sobre o filme. Desde a trilha sonora até o fato de ser baseado numa história real. No entanto, meu interesse foi pensar o mesmo como um retrato da amizade e deixo os outros aspectos de lado, até porque já foram discutidos por outros autores. O que acho essencial é abordar o filme como forma de aprendizado pra vida. Os Bons Companheiros, como os bons filmes, traz muitos ensinamentos. Um deles é de que amizades podem virar pó, amigos de hoje podem ser os inimigos de amanhã e, assim, onde o personagem principal encontrou inicialmente a glória e a fraternidade acaba por encontrar, depois, a solidão e o medo. È o lado trágico da vida.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Ronan Gonçalves