náufrago

Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

Para ter inimigos, basta existir

Sempre haverá quem nos odeie por sermos quem somos


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Para ter inimigos, basta existir. Pouca gente explica isso, mas a verdade é que você não precisa fazer nada para angariar inimigos, basta simplesmente existir.

Antes de tudo, vamos explicar o que entendemos por inimizade. Geralmente, a ideia que as pessoas possuem é a de que inimigo é aquela pessoa que nos ataca ou vai nos atacar, vai nos causar algum dano, seja físico, financeiro ou emocional. Mas inimigo é uma coisa que vai além disso. Inimiga é a pessoa que nos deseja mal, entendido como o contrário de um amigo que, em tese, é quem nos deseja bem. Assim, aquelas pessoas que torcem contra você são tuas inimigas. Amigas é que não são.

Um número grande de inimigos não passam da intencionalidade, do desejar o mal. Isso porque a maioria das pessoas são covardes e, assim, dissimulam as suas más intenções para não ter um conflito aberto. Na vida, são muito poucos os inimigos que se apresentam e deixam claro que nos desejam o mal. A maioria dos inimigos vai dissimular as intenções, mas no íntimo possuem aquele desejo de que a pessoa se atrase na vida. Captar quem secretamente nos deseja o mal sob o disfarce da cordialidade é uma tarefa hercúlea. Um bom caminho é não ser muito apaixonado por si e ter algum grau de desconfiança.

Você pode não ter feito absolutamente nada contra ninguém mas ainda assim haverá quem te odeie. Há quem se incomode com nosso jeito de falar, com nossa forma de se vestir, com a nossa trajetória biográfica, com nossos valores (estéticos, religiosos, políticos, morais), com nossas preferências artísticas, esportivas, gastronômicas, com a cor da nossa pele, com nossa origem familiar, com a nossa formação educacional, com tudo. Isto sem falar da inveja, que aí é quando nosso sucesso incomoda e o fato de termos algo ou termos conquistado algo acaba gerando rancor, más intenções, maus desejos por parte de outros.

O fato é que as pessoas se incomodam com a existência alheia e acreditam que podem mandar na forma de ser das outras pessoas. Algo muito comum é alguém criar raiva da gente porque acredita que devemos reverenciá-la. A gente chega num bairro novo, emprego novo, clube novo e tem lá alguns antigos que esperam da gente um reverenciamento. Se não os reverenciamos surge uma faísca, uma raiva, um rancor que vai sendo nutrido e aumentado com o tempo.

O problema está na falta de educação democrática das pessoas. Na incapacidade de entenderem e aceitarem que as pessoas não são iguais e que cada um tem o direito de viver sua vida e ser quem é. Que não devemos querer administrar a vida alheia, num sentido lato. Antes, devemos aceitar a pluralidade de existências possíveis.

Para concluir, como sempre haverá quem nos odeie por sermos quem somos, o que nos resta é lutar por nossa liberdade, por sermos quem a gente é. Em todo canto haverá quem não goste de algo na gente e, assim, só nos resta encarar a vida sem abrir mão de nossa autenticidade. Afinal, se não fazemos mal a ninguém, a pessoa não tem direito de se incomodar com nossas opções, valores e história de vida.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
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