náufrago

Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

Política e educação: deixem as crianças em paz!

A sociedade não pode jogar nas costas dos jovens a solução dos problemas do mundo


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Se tivesse que definir por um único aspecto a aridez dos regimes totalitários eu diria que eles politizam e até militarizam a infância. Independente dos vários quadros, há um ponto comum entre o menino militarizado pelo escotismo, pelo nazismo, pelos regimes comunistas. Também há algo em comum entre o menino sírio, o menino do tráfico carioca e o menino que luta num país da África, todos eles com uma AK-47 nas mãos. Trata-se de meninos que perderam a possibilidade de viver a infância como um período de ludicidade na vida. Seja uma simples guerra por poder, a defesa do território criminal ou a defesa de ideologias extremas, temos meninos que carregam nas costas um mundo que os adultos deviam carregar.

Um tanto do discurso sobre a educação hoje caminha nesse sentido. Há problemas na sociedade? Jogam pra escola e pras costas das crianças. Os empresários tentam empurrar pacotes de interação empresarial e aulas sobre empreendedorismo, como se fosse nascer um novo Ford em cada sala de aula; a Igreja Católica insere o ensino religioso como disciplina para combater o declínio do catolicismo num Brasil cada vez mais evangélico; policiais militarizam escolas e inserem projetos próprios; militantes LGBT querem criar escolas para homossexuais; feministas querem o debate sobre gênero, o movimento negro quer a discussão sobre racismo e a lista não acaba.

Como disse lucidamente o educador português Antônio Nóvoa, a escola é pensada como solução pra tudo. Ele fala que jogam uma carga de caminhão para ser carregada por bicicleta, numa analogia. O professorado, mal formado, mal pago, com seus problemas pessoais, dura carga de trabalho, poucos recursos, muitas vezes doente, é posto pra pedalar essa carga como se fosse o herói da pátria. Na pedalada, leva os alunos na garupa. Num país em que há tantos artistas do stand up daria pra fazer um show inteiro citando projetos de lei e outros mais que jogam pra escola o dever de solucionar questões sociais. Vai do hino nacional à alimentação, tem de tudo. Um ponto que deve ser observado é que os variados grupos de pressão que tentam jogar demandas pra dentro da escola carecem de um real conhecimento sobre o sistema educacional brasileiro. Não sabem, por exemplo, que no sistema paulista os alunos não recebem do governo federal livros de arte, que seriam tão importantes. Não sabem sobre currículo, didática, história da educação, políticas educacionais, nada. A única demanda é politizar e exigir a inserção dos temas interessados.

A questão é que as crianças não são obrigadas a resolver problemas que os adultos não resolveram e isso precisa ser discutido dada a naturalidade com que falam em inserir temas e demandas na escola. Além dos variados grupos que pressionam, há muita gente que toca a ladainha de que os jovens devem isso e devem aquilo. A política não deve ser esquecida, mas precisa ser feita de forma clara, entre adultos, face a face, nas ruas e nas instituições. Os jovens precisam ser jovens e os adultos responsáveis por resolver os problemas.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
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