náufrago

Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

Quando os homens choram. Sobre a dor masculina.

A dura socialização dos meninos


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Muito se fala hoje em dia de tristeza, depressão, lado subjetivo, sentimentos. No entanto, apesar do tanto que se fala da necessidade de mudança, o foco é sempre na dor feminina, no subjetivismo feminino, como se apenas as mulheres tivessem certas dores e problemas. Num momento em que se fala tanto de gênero e de como tal impacta a vida das pessoas, é preciso afirmar bem alto: homens também choram, existe dor masculina. A guerrilha da existência masculina começa muito cedo. No campo da família, da interação cotidiana no lar, é atirada contra o pequeno uma série de palavras e objetos que tendem a determinar a forma de ser do sujeito. A coisa vai além do “meninos não choram”, da cor azul, do carrinho de polícia e ai já se inicia aquela popular medição do pênis, a preocupação com o tamanho, com a forma física, com a força, com o ser firme e chega-se ao ponto de alguns realmente acharem que um menino deve ficar menos doente que uma menina. Alimentos ofertados, projeções sobre o time de futebol a ser escolhido, sobre profissões, tudo isso começa a aparecer por meio de palavras condicionantes que são proferidas com a intenção de determinar o comportamento.

Com o avanço da idade, o campo das brincadeiras vai surgindo como elemento importante de interação, aprendizado de regras e formação da pessoa. Há brincadeiras de meninos e de meninas. As brincadeiras de menino, embora muitas delas possuam uma carga enorme de raciocínio, são sempre marcadas pela necessidade de força, velocidade e destreza física. Assim, a coisa pode começar no campo do vocabulário brincando com carrinhos, mas vai caminhando para a apresentação cada vez maior de força física. Brincar de “polícia e ladrão”, jogar futebol, as corridas, algumas lutas menos violentas, todas elas apresentam um lado de cobrança no sentido de o menino apresentar-se forte, ágil, duro. Já no campo do vocabulário as palavras são carregadas de força e simbolismo e o menino é colocado na situação de ir aprendendo a administrar o falar, de assumir o que fala e, principalmente, inserir-se num diálogo que potencialmente aponta para conflitos. O embate verbal é uma marca forte da socialização que os meninos recebem. Nesse campo todo, obviamente, há vencedores e vencidos e a marca do fracasso pode surgir muito cedo para dados meninos.

Há um controle social muito forte sobre o corpo masculino e o principal é uma mitificação do ânus como local que deve ser intocado. Pouca gente dá atenção para a questão, mas não é pequeno o número de meninos que são violentados sexualmente na infância. Como existe uma ideia forte de que cabe ao menino defender seu corpo, a violência sofrida é vista sob o signo do fracasso e da vergonha e os casos ficam ocultos, não notificados. Como as famílias se preocupam mais com a proteção das meninas, ocorre de amiguinhos, amigos da família ou parentes abusarem de meninos e tudo isso permanece oculto e enterrado sob o silêncio de uma dor profunda e marcante por toda a vida.

O campo escolar é basicamente uma selva para os meninos. Lugar onde, enfrentando tudo, terão que mostrar capacidade de sobrevivência. As disputas são constantes, perenes, cotidianas. Envolvem conflitos por beleza, força, destaque intelectual, esportivo, sexual, estético, capacidade de relacionamento, moralidade e riqueza familiar, religião, superioridade em jogos, força em embates verbais e capacidade de interação. Sem que seja anunciado, há todo um código oculto de comportamentos e toda uma disputa baseada nesses códigos. Novamente, o fracasso é uma possibilidade e o signo do fracasso pode começar já nesse início de vida social mais ampla. Um jovem pode ser atingido por humilhações frequentes por conta de sua roupa, cor de pele, capacidade intelectual, sexual, esportiva, física e segue. As meninas não são apenas vítimas no mundo e é comum que elas formem um batalhão de ataques aos meninos. Os jovens mais belos, mais ricos, mais simpáticos, mais fortes são privilegiados. Além disso, elas atacam diretamente os demais proferindo contra eles uma miríade de ofensas que vai de chamar de feio, fraco, pobre, sujo, burro, anormal, fracassado e muitas outras coisas mais. Assim, o menino vítima não só sofre com o isolamento e a impossibilidade de ser aceito em dados grupos e meios como sofre, ainda, o ataque direto das meninas que atiram contra ele uma série de palavras ofensivas e negativamente marcantes.

Tendo sobrevivido, o jovem inicia a inserção no mercado de trabalho. A partir desse ponto as coisas começam a ficar mais claras. A necessidade de apresentar uma boa qualificação, de ter validação moral, de ter bom passado familiar, a cor da pele, a religião, a origem geográfica, a cultura, o corpo sem marcas, saudável e forte, o vocabulário, a indumentária, os contatos, a rede de apoio que o sujeito possui. Dinheiro e coragem são dois elementos fortemente cobrados. Sucesso e força também, além de vários outros elementos. Contrariamente ao período anterior, o jovem não é mais atacado diretamente. A ofensa social começa a operar silenciosamente, por exclusão. Assim, já não ofendem o jovem, mas os convites e as portas abertas começam a serem determinados pelos atributos que ele possui. Aos vencedores, jovens belas, amigos e convites. Aos fracassados, poucas garotas, poucos amigos e portas fechadas. A dor do isolamento não é menor que a dor presente após uma ofensa recebida.

Os padrões referidos no parágrafo anterior se apresentam, também, na universidade e outros campos mais. Agora a ofensa social não é gritada e, pelo resto da vida, é na forma da exclusão que ela opera. Também ocorre uma forte invalidação moral em casos mais pontuados como o da depressão, da miséria, da adicção, de cair em situação de rua, meios estigmatizados e segue. A sociedade, silenciosa e paulatinamente, vai se fechando e excluindo o macho derrotado, com problemas, com doenças, com estigmas.

Desse ponto em diante, o macho marcado pelo fracasso passa a encarar a vida adulta. As linhas se repetem e moralidade, força, qualificação, beleza, coragem, cor da pele, religião, saúde, indumentária, vocabulário e todos os demais aspectos determinarão a capacidade de interação com vizinhos, a proteção recebida, capacidade de arrumar trabalho, companheira, ser respeitado, receber convites e etc. Para o fracassado o sofrimento não é pequeno. Sua capacidade de satisfazer a mulher, de ser pai, bom vizinho, bom filho, bom genro, bom trabalhador será milimetricamente medida num processo social cotidiano, contínuo, árduo. É a guerra da vida, a luta cotidiana.

Obviamente, o enfrentamento disso tudo pode acarretar ansiedade, tristeza, depressão, doenças mais. No entanto, no campo masculino se entende que cabe ao homem, sozinho, se virar e não deve ficar reclamando nem adoecer. Caído, não só se levantam contra o sujeito uma série de invalidações e ofensas sociais, como receberá o afastamento de muitos próximos, pode ser demitido, abandonado pela mulher e pela própria família.

Surge um contexto no qual podem surgir também ataques. Abalado psicologicamente e enfraquecido, alguns aproveitam para violentar física e psicologicamente o decaído. Devemos lembrar que qualquer ataque se inicia pela ausência de proteção. Com a partida das pessoas e o desmonte das redes de proteção, o sujeito fica exposto ao ataque seja de estranhos, de velhos opositores ou mesmo do Estado, conforme o caso. No geral, se pensamos em tudo e em todo o processo, notamos que não é pequena a possibilidade de fracasso e sofrimento e que o mundo não é uma moleza para os rapazes.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
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