náufrago

Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

Renato Russo, adoecimento e infelicidade no meio alternativo

Artistas, militantes, outsiders: o que fazemos com os que adoecem?


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Leia o texto que está na imagem abaixo. É uma carta do Renato Russo feita durante seu período de internação, em 1993, numa clínica para dependentes químicos. No final da carta ele fala do “só por hoje” e diz que irá explicar depois o significado do termo para o amigo.

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Nesse mesmo ano, 1993, a Legião Urbana lançou o disco Descobrimento do Brasil no qual consta a música “só por hoje”. Eis a letra composta por Renato Russo e Dado Villa-Lobos:

“Só por hoje eu não quero mais chorar Só por hoje eu espero conseguir Aceitar o que passou e o que virá Só por hoje vou me lembrar que sou feliz

Hoje eu já sei que sou tudo o que preciso ser Não preciso me desculpar e nem te convencer O mundo é radical Não sei onde estou indo Só sei que não estou perdido Aprendi a viver um dia de cada vez

Só por hoje eu não vou me machucar Só por hoje eu não quero me esquecer Que há algumas pouco vinte quatro horas Quase joguei a minha vida inteira fora

Não não não não Viver é uma dádiva fatal! No fim das contas ninguém sai vivo daqui mas Vamos com calma!

Só por hoje eu não quero mais chorar Só por hoje eu não vou me destruir Posso até ficar triste se eu quiser É só por hoje, ao menos isso eu aprendi”

A letra fala de tristeza, de esperança, de suicídio, de esquecer, de se aceitar e de tentar ser feliz. Ouvir a música, ler sobre a vida de Renato Russo, sobre esse episódio, me fez pensar algumas coisas. Existe um certo paradoxo, uma certa contradição no meio alternativo. A gente dá uma olhada pra todo canto e simplesmente não existem textos a respeito da infelicidade como debate dentro da esquerda, do campo alternativo em geral. Justamente o setor que mais afirma que a realidade é bruta, que é bárbara, que adoece, não possui um debate consolidado a respeito da tristeza e infelicidade que essa realidade aviltante produz. É algo muito contraditório, gritante.

No conjunto de produções oriundas da esquerda ou campo alternativo, abundam textos pessimistas, com análises negativas sobre a realidade social. No campo macro, nas análises, é quase sempre um pessimismo que predomina independente do tema abordado. No entanto, num campo pessoal, não há nenhuma discussão sobre a infelicidade. E ficamos sem entender: se a realidade é cruel, exploradora, opressora, onde estão os escritos sobre a infelicidade que essa realidade, dada como cruel, vai apresentar para as pessoas no seu cotidiano? E mais ainda, onde está o debate sobre as soluções para encarar a melancolia, a depressão, a tristeza?

No campo macro, o da sociedade, afirma-se que temos uma brutalidade cotidiana. Obviamente, essa brutalidade, mesmo que não para todos, vai se apresentar como formas várias de afetação da vida das pessoas, levando-as ao esgotamento psíquico, físico, à descrença, ao embrutecimento, ao niilismo do mundo cão. Esse niilismo do mundo cão não só atingirá o conjunto da população, como vemos nos noticiários e programas policiais, mas também afetará, por sua vez, um tanto dos militantes e das pessoas que se inserem no campo alternativo. Embora o assunto seja sempre empurrado para debaixo do tapete, não são poucos os casos de suicídios, de esgotamento psíquico, de internações, de embrutecimento que afetam pessoas do campo militante ou alternativo em geral.

Até hoje o assunto não foi discutido de frente e forma clara. A questão é que fica para o campo individual, o da pessoa afetada, se virar e resolver as questões que lhe afligem. O adoecido tem que se virar sozinho. Há casos, inclusive, em que o adoecido vira motivo de chacota: fulano de tal ficou louco, pirou e etc. Os anos de militância ou de estética de vida anti-sistema e dedicação são sumariamente esquecidos. Surgem ironias, sarcasmo ou mero abandono. Quando possui uma família com estrutura para dar auxílio, é a esta que a pessoa terá que recorrer. No restante, sobram as instituições estatais, religiosas e empresariais. Simplesmente não há uma mínima rede de apoio. E quando falo mínimo me refiro a não haver sequer um conjunto de cartas ou visitas que auxiliem o enfermo. O mínimo mesmo.

De todos os coletivos que conheci – tanto políticos quanto culturais -, soube apenas de um que tomou a posição de parar dadas atividades em prol de um camarada que havia chegado à tentativa de suicídio. Um único caso. Esse quadro todo aponta um grande paradoxo. Embora se fale de coletivismo e solidariedade, fica a cabo de cada pessoa em particular lidar com as agruras da própria vida e o desgaste que por acaso a militância ou vida outsider lhe traga. Quem possui melhores condições terá como recorrer aos analistas, terapeutas, psicólogos que sua condição financeira lhe permite usufruir. Os que não possuem ficarão muito mais limitados quanto às possibilidades de tratamento. É todos juntos na luta por um mundo diferente e cada um por si na doença, na infelicidade, no sofrimento. Daria pra fazer uma lista enorme de pessoas que adoeceram e fico imaginando, por exemplo, o tamanho da dor e da solidão do Chorão, vocalista da banda Charlie Brown jr.

Em muitos contextos, além de não haver auxílio algum, ocorre um abandono silencioso ou mesmo expulsão, também silenciosa, do adoecido. Seja depressão, adicção, transtorno mental, o que se entende é que a pessoa precisa apresentar dadas condições psíquicas e quando estas estão ausentes a pessoa é sumariamente descartada. Claro que a luta política ou vida no campo alternativo requerem uma dada força do sujeito, mas a forma como os adoecidos são abandonados é absolutamente contraditória com um discurso de solidariedade diuturnamente apresentado. Sem nunca ter criado um esboço mínimo de preocupação com a questão, o adoecido proveniente da esquerda ou campo alternativo não encontra outros horizontes além das instituições estatais, empresariais ou religiosas. Ou seja, não há nesse campo nenhum trabalho proveniente do campo autônomo, do próprio meio alternativo.

Obs: o “Só por hoje” que o Renato cita e transformou em música é o lema central dos Narcóticos Anônimos.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
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