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Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

Simone de Beauvoir e o fosso entre o ENEM e a sala de aula

Há um fosso entre o que é estipulado oficialmente pelo Ministério da Educação e a realidade da sala de aula. O conteúdo do ENEM não é trabalhado nas salas de aula, nem os conteúdos nem a prática didática. Quem ficou rindo do fato de haver um susto com uma citação da Simone de Beauvouir atirou no alvo errado. O problema está no MEC, nos livros inadequados e na falta de um currículo nacional.


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O ENEM se baseia, segundo as diretrizes, em 5 eixos cognitivos: dominar linguagens, compreender fenômenos, enfrentar situações-problema, construir argumentação e elaborar propostas. Estes 5 eixos cognitivos são gerais e abarcam todas as áreas.

No campo de humanas, são estipuladas uma série de competências.

Competência de área 1 - Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.

H1 - Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura. H2 - Analisar a produção da memória pelas sociedades humanas. H3 - Associar as manifestações culturais do presente aos seus processos históricos. H4 - Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre determinado aspecto da cultura. H5 - Identificar as manifestações ou representações da diversidade do patrimônio cultural e artístico em diferentes sociedades.

Competência de área 2 - Compreender as transformações dos espaços geográficos como produto das relações socioeconômicas e culturais de poder.

H6 - Interpretar diferentes representações gráficas e cartográficas dos espaços geográficos. H7 - Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações H8 - Analisar a ação dos estados nacionais no que se refere à dinâmica dos fluxos populacionais e no enfrentamento de problemas de ordem econômico-social. H9 - Comparar o significado histórico-geográfico das organizações políticas e socioeconômicas em escala local, regional ou mundial H10 - Reconhecer a dinâmica da organização dos movimentos sociais e a importância da participação da coletividade na transformação da realidade histórico-geográfica.

Competência de área 3 - Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais. H11 - Identificar registros de práticas de grupos sociais no tempo e no espaço. H12 - Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades. H13 - Analisar a atuação dos movimentos sociais que contribuíram para mudanças ou rupturas em processos de disputa pelo poder. H14 - Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos, sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica acerca das instituições sociais, políticas e econômicas. H15 - Avaliar criticamente conflitos culturais, sociais, políticos, econômicos ou ambientais ao longo da história.

Competência de área 4 - Entender as transformações técnicas e tecnológicas e seu impacto nos processos de produção, no desenvolvimento do conhecimento e na vida social.

H16 - Identificar registros sobre o papel das técnicas e tecnologias na organização do trabalho e/ou da vida social. H17 - Analisar fatores que explicam o impacto das novas tecnologias no processo de territorialização da produção. H18 - Analisar diferentes processos de produção ou circulação de riquezas e suas implicações sócio-espaciais. H19 - Reconhecer as transformações técnicas e tecnológicas que determinam as várias formas de uso e apropriação dos espaços rural e urbano. H20 - Selecionar argumentos favoráveis ou contrários às modificações impostas pelas novas tecnologias à vida social e ao mundo do trabalho.

Competência de área 5 - Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da cidadania e da democracia, favorecendo uma atuação consciente do indivíduo na sociedade. H21 - Identificar o papel dos meios de comunicação na construção da vida social. H22 - Analisar as lutas sociais e conquistas obtidas no que se refere às mudanças nas legislações ou nas políticas públicas. H23 - Analisar a importância dos valores éticos na estruturação política das sociedades. H24 - Relacionar cidadania e democracia na organização das sociedades. H25 – Identificar estratégias que promovam formas de inclusão social

Competência de área 6 - Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no espaço em diferentes contextos históricos e geográficos.

H26 - Identificar em fontes diversas o processo de ocupação dos meios físicos e as relações da vida humana com a paisagem. H27 - Analisar de maneira crítica as interações da sociedade com o meio físico, levando em consideração aspectos históricos e(ou) geográficos. H28 - Relacionar o uso das tecnologias com os impactos sócio-ambientais em diferentes contextos histórico-geográficos. H29 - Reconhecer a função dos recursos naturais na produção do espaço geográfico, relacionando-os com as mudanças provocadas pelas ações humanas. H30 - Avaliar as relações entre preservação e degradação da vida no planeta nas diferentes escalas.

Dentro das 6 competências, há um conjunto de 30 habilidades que daria uma discussão cada uma, o que resultaria num texto longo. Num quadro geral as diretrizes são focadas em economia, política e identidade. Há uma ênfase enorme na questão dos conflitos e como os conflitos moldam o campo social. Pouca abordagem há para a questão da permanência e como a continuidade de dados elementos constituem o social.

Um problema sério das diretrizes é que elas são muito extensas. Seria necessário todo um curso de graduação só para trabalhar apropriadamente as diretrizes de humanas. Ainda, as diretrizes do ENEM não batem com a realidade escolar por uma série de fatores: insuficiência na formação dos professores, duração insuficiente da formação básica, falta de maturidade dos alunos para compreender dados conceitos, inexistência de materiais adequados na escola, inexistência de atividades didáticas práticas. Também é pressuposto um aluno com alta capacidade de raciocínio, memória e abstração, o que nem sempre existe.

No Brasil não existe ainda um currículo nacional e há o problema federativo. Dessa forma, cada Estado ensina uma coisa. Há diferenças tanto nos currículos, que na prática são estaduais, como nos modelos de escolas, formatos avaliativos, enfim. Há Estados com escolas geridas por ONGs, outros possuem escolas militarizadas, outros possuem currículos com ênfase em conteúdos regionais.

Dentro desse problema federativo, temos o agravante de os livros enviados pelo Ministério da Educação muitas vezes não corresponderem com os currículos estaduais, em suma, com aquilo que é ensinado nas escolas. Outro agravante é que os livros são, no geral, inapropriados, ficando basicamente no formato texto questão, sendo bastante limitados. As unidades didáticas não se encaixam nos 50 minutos de aula, os autores citam filmes de 2 ou 3 horas, impossíveis de serem trabalhados em sala e pesam muito no academicismo, uma vez que são geralmente professores universitários os autores. Há uma falta generalizada de atualização, pobreza iconográfica, ausência de temas importantes e, muitas vezes, uma ideologização excessiva.

Os professores, além das lacunas na formação, trabalham uma didática tradicional. O ensino nas salas de aula segue a linha da decoreba ou texto mais questão, sem trabalhar mais apropriadamente as competências. Enfim, não há articulação com as diretrizes do ENEM.

Conclusivamente, pode-se afirmar que, além de haver problemas nas próprias diretrizes, há um fosso entre o que é estipulado oficialmente pelo Ministério da Educação e a realidade da sala de aula. O conteúdo do ENEM não é trabalhado nas salas de aula, nem os conteúdos nem a prática didática. Quem ficou rindo do fato de haver um susto com uma citação da Simone Beauvouir atirou no alvo errado. O problema está no MEC, nos livros inadequados e na falta de um currículo nacional.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
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