náufrago

Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

Sobre o Mal

Muitas pessoas boas se tornam más. Raramente uma pessoa má se torna boa


Lady Pinh3ad.jpg

Muitas pessoas boas se tornam más. Raramente uma pessoa má se torna boa. O problema central do mal está nisso. Raramente uma pessoa má se torna boa, mas muitas pessoas boas, por uma série de razões, vão se tornando más no decorrer da vida. É clássica a ideia da infância como um período da vida marcado pela doçura, pela bondade, em contraposição à maturidade que teria alguma dose de maldade. O fato é que uma sociedade intrinsecamente marcada pela competitividade nos mais variados campos – religioso, afetivo, profissional, familiar, cultural, esportivo, estético – acaba propiciando amplo espaço para o surgimento e difusão do mal. Assim, mesmo pessoas marcadas por forte doçura e bondade encontrarão situações várias de endurecimento no decorrer da vida.

As formas de contato com o mal podem ser várias e inusitadas. Não há controle sobre o mesmo nem possibilidade de previsão. Um jovem que tenha que trabalhar num presídio para sustentar a família pode encontrar o mal no seu caminho. Um novato numa empresa altamente competitiva. Um noivo recém casado atingido pela inveja de outros rapazes. A moça perseguida na cidade nova em que veio morar. A senhora atacada enquanto voltava do trabalho. O mal pode estar no caminho que fazemos para cumprir nossas responsabilidades, no emprego novo que conquistamos com felicidade, no casamento festejado, na inveja que brota silenciosamente num amigo antigo, na vizinhança nova incomodada com nossa chegada, em vizinhos antigos chateados com nosso progresso, num desconhecido pelo caminho a qualquer hora do dia ou da noite. Na pessoa que amamos e que, aos poucos, vai se tornando uma desconhecida embora ocupe a mesma cama.

Obviamente, embora eu veja o mal como algo permanente na história humana, o quadro social pode dar impulso ao mesmo. Mais facilmente o mal brota dentro de um presídio, com pessoas já experientes no assunto do que num colégio. Do mesmo modo, o quadro social mais amplo tem sua influência havendo contextos que propiciam o surgimento e o desenvolvimento do mal enquanto outros o dificultam. Locais altamente competitivos e sem horizontes de esperança são os mais propícios para o mal. Contrariamente, locais menos competitivos e onde há horizontes de esperança possuem barreiras para o mesmo. A esperança diminui o mal enquanto a competição o faz aumentar.

O mal também pode brotar como resposta a um mal sofrido. A menina bondosa que é friamente atacada por outras moças, o rapaz que sofreu vasto assédio moral no trabalho, o jovem humilhado por garotas no colégio, o marido traído, o jovem espancado no campo de futebol, a moça violentada na rua, todos eles podem se tornar maus por conta do mal sofrido. Há inúmeros casos em que pessoas endureceram e se tornaram más por conta de situações várias de violência que as afetaram. São muitas as pessoas boas que vão sendo paulatinamente contaminadas com o mal existente no mundo. Nos estudos sobre criminosos altamente violentos é sempre presente a ocorrência de violências na infância e situações de sofrimento várias.

Um outro problema é que o mal é esteticamente sedutor, o mal dá prazer e há formas de prazer que são genuinamente más. Assim, no campo dos prazeres, a lista do bem é limitada havendo sensações estéticas que só são alcançadas causando danos aos outros. Lembremos de Marquês de Sade e sua literatura. Há o prazer de humilhar, de torturar corporal e psicologicamente, de causar dor, de causar dano, de violentar física e espiritualmente, de assassinar, de tolher a liberdade, de sequestrar. O mal oferece um vasto conjunto de atos e prazeres que lhe são próprios, inerentes. Obviamente, sempre haverá quem queira alargar seu campo existencial e experimentar novos atos e novos prazeres, mesmo que tais atos e prazeres causem danos a terceiros.

Por fim, uma coisa a ser destacada. Quando uma pessoa é afetada pelo mal, os bons se afastam. E se ela deseja se livrar do mal acaba ficando sozinha na luta contra o mesmo. É algo complicado mas a sociedade faz justamente o inverso do que deveria fazer. Um jovem que tenha caído na garra do mal, ao invés de ter a oportunidade de conviver com pessoas boas para se regenerar ou aprimorar moralmente é, ao contrário, jogado para conviver com outros jovens maléficos e, com isso, obviamente, vai acabar aprofundando o lado mau que foi despertado nele. Uma pessoa que cometeu um crime é posta para conviver com outros criminosos, o que vai fazer com que aprofunde esse lado seu. E segue a linha. Ao invés do mal ser combatido com o bem o mal é combatido com mais mal, o que só faz o mal aumentar, se fortificar


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// //Ronan Gonçalves